O problema são os parasitas. Não é nada novo para a
arte a existência
dos parasitas.
Onde houver arte, seja de primeira grandeza ou medíocre, haverá sempre os
agregados,
aqueles que se agarram com todas as forças. Esperam que, de alguma forma
alguma
genialidade, beleza ou principalmente a admiração alheia, respingue neles e
os eleve ao
status que tanto almejam. Às vezes agem como um "marchand", mas de forma
completamente
vulgar.
Na imprensa são muito comuns, são até maioria. Seus textos pressupõem uma
fictícia
proximidade com os artistas, de quem falam com uma intimidade forçada,
absolutamente
falsa e deslumbrada. Nessa intimidade esquizofrênica, acreditam até mesmo
"entender" a
arte desses "amigos" e se sentem no direito de analisar a melhor ou pior
direção que
aquela arte poderia e/ou deveria ter tomado. Usam termos como "linha
evolutiva" ou
"abrangência estética" para decorar seus pobres textos analíticos. Assumem
como forma o
jornalismo da polêmica, ansiosos em criar factóides para apoiar suas teorias
e teoremas,
suas divagações pobres e infantis. Querem se tornar personagens da História
da Música,
apesar de não passarem de parasitas da arte alheia. São mais apaixonados por
seus gostos
musicais do que pela música em si. Mas os parasitas são também, em muitos
casos, os
próprios músicos e bandas.
Quem acompanha o atual momento musical carioca percebe algo curioso: há uma
imensa
quantidade de novas bandas, principalmente na vertente do rock e pop rock. O
grave é que
a quantidade, nesse caso, não se traduz em qualidade e muito menos em
diversidade. Há uma caretiçe (por falta de termo melhor) que permeia toda essa enorme produção
musical e que
frustra o potencial de ter tanta gente fazendo música em uma cidade tão
necessitada de
novos ares culturais (aliás, novos ares em geral). Não é, de forma alguma, o
que essa
geração oferece, pelo menos na maioria dos casos. Trata-se de uma geração
muito
profissional, sem dúvida. Possuem equipamento de primeira linha, guitarras
Gibson e
Fender, unidades de efeitos de última geração (observem a quantidade de
pedais de
efeitos dos guitarristas). Conhecem muito bem os meios de produção,
comunicação visual,
fazem fotos profissionais para promoção, tem blog, fotolog, site, My Space,
assessoria de
imprensa... Enfim, tem um know-how que os diferencia de gerações anteriores
de roqueiros,
que precisavam aprender na marra e muitas vezes driblar as limitações
técnicas da melhor
maneira possível (Obs.: É incrível como o Brasil gravou discos de alto
nível técnico,
apesar de limitados recursos de gravação, em épocas passadas. Ironicamente,
com todas as
tecnologias disponíveis e mais em conta nos dias de hoje, tudo soa igual).
Essa nova geração de músicos e bandas são, acima de tudo, oriundos da classe
média alta
e classes ainda mais favorecidas. Em um país miserável como o Brasil,
traduz-se: gente
rica. Isso é facilmente perceptível indo aos shows e festivais, que ocorrem
em locais
feitos especialmente para atender essa parcela da população, que paga com Redeshop,
cartão de crédito e tem 15 reais pra pagar de entrada. A mesma parcela da
população que
ainda pode bancar um cinema no fim de semana. Acreditem: somos uma minoria
da população.
Nesses mesmos shows reina um ar blasé e afetado de gente que só está ali
por estar ali
e para falar com as pessoas certas. Só se dança quando são bandas mais
consideradas
pelos parasitas da mídia especializada. O clássico comportamento de rebanho.
Infelizmente, a caretice e a mesmice reinam. O trabalho musical é
profissional ao extremo,
o que chega a prejudicar a espontaneidade das performances. Tudo muito
calculado,
inclusive saltos e pulinhos em momentos-chave das músicas. É evidente que em
qualquer
lugar onde exista uma abundância de bandas haverá muitos trabalhos fracos,
repetitivos,
copistas. No caso carioca, são a maioria absoluta. Fazem um rock muito
comportado,
obediente e procuram copiar, sem pudor, grupos americanos ou ingleses de
sucesso. Alguns
desses grupos copiados são, de fato, excelentes, e não há nada de mal em
assimilar
influências de qualquer música boa. Mas há um conservadorismo em jogo: as
referências
são sempre as mesmas, meia-dúzia de grupos estrangeiros mais manjados, cujas
influências
nessa geração são sempre as mais óbvias possíveis, já que não existe nem
mesmo o desejo
de tentar levar a inspiração mais longe, subvertê-la, elevá-la. O lance não
é se você
"rouba" ou não, já que isso é a música pop em essência, mas como você o faz
é importante
sim. Considerando a diversidade de sons, estilos, timbres, abordagens que a
música
contemporânea nos oferece, a insistência em ser tão conservador só pode ser
considerada
medíocre. Penso logo em bandas como Pixies ou Mutantes e como o trabalho deles,
de décadas
atrás, era anos-luz mais moderno e visceral do que praticamente todas essas
bandas atuais
que os adoram e tentam imitá-los, sem sucesso algum (se bem que no caso dos
Mutantes,
não vejo muitos trabalhos influenciados por eles). Não se trata de querer
comparar os
trabalhos atuais aos Pixies ou Mutantes, mas sim constatar a ausência de um
espírito mais
aventureiro na música feita pela geração atual. Onde está o caos, o sangue,
o barulho, a
quebra, a loucura? É tudo comportado demais. Ou seja, nada rock 'n' roll.
Há quem acredite que é inocência querer esse espírito rock 'n' roll vivo, que
em tempos de
post-tudo isso não faz mais sentido. É mentira, claro. Post-rock que seja,
ainda é rock
e as melhores bandas encaixadas em mais essa caixinha inventada por
jornalistas são
bandas de rock e fazem da energia criativa seu grande diferencial em relação
a todas as
outras que só vivem de tentar fazer igual.
O sonho da banda de rock é muito comum, quase infantil na sua inocência
primitiva.
Quantos já não sonharam com a consagração em cima de um palco com uma
guitarra na mão. É
global. Nunca houve tantos artistas quanto agora. E sempre existem muitas
bandas geniais
e inventivas, criativas em sua essência, capazes de transformar uma gama
cada vez maior
de influências de todos os tempos e estilos em uma nova voz, única e
potente, um novo
caldo, algum esporro novo. Capazes de transfigurar, misturar suas paixões em
uma nova
forma. São muitos artistas que são capazes de fazê-lo e fazem, porque
movidos pelo amor
à música e suas possibilidades. Por outro lado, estão mais diluídos em uma
cena com
quantidade enorme de artistas medíocres movidos pelo sonho de status, de
fama, de fãs
gostosas e resenhas estúpidas de parasitas-jornalistas. Focados nisso, a
música para
esses virou apenas um detalhe, um trabalho, uma função.
Os parasitas da música são esses medíocres, os parasitas são aqueles que
querem nos
convencer de que é boa essa mediocridade, de que é mais importante ser
"profissional" do
que fazer música com a alma, cabeça e coração. Música que inspire, divirta e
nos dê
alento para voltar pra casa, felizes e sorridentes, apesar de todo o lixo
que nos
rodeia.
O momento atual lembra a Jovem Guarda, quando tantos grupos nacionais não
passavam de
cópias toscas dos Beatles, derramando no mercado versões em português de
hits do pop
rock inglês e americano. Podemos argumentar que eram tempos mais inocentes.
Hoje não dá
pra dizer nem isso. Os músicos da geração atual não tem nada de inocentes.
Têm acesso a
toda música produzida nesse mundo grande sem porteira, através de suas
bandas largas. São pessoas abastadas e com informação na ponta dos dedos inquietos. Se
apenas absorvem
influências devidamente calculadas, baseadas na audição de nossas pobres
rádios ou nosso
patético jornalismo musical, se contentam em fazer um trabalho medíocre e
repetitivo,
completamente carente de paixão, é porque escolheram fazer assim. São bandas
profissionais e "competentes" sim. São as chamadas "bandas prontas", termo
que ouço
constantemente, mas não sei o que quer dizer. Sobra a questão: cadê o amor?
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