Parasitas, medíocres e a pergunta que não quer calar:

 

cadê o amor?

 

 

 

Por Pedro, o Argonauta

Imagem: Reprodução

 

 


 

  O problema são os parasitas. Não é nada novo para a arte a existência dos parasitas. Onde houver arte, seja de primeira grandeza ou medíocre, haverá sempre os agregados, aqueles que se agarram com todas as forças. Esperam que, de alguma forma alguma genialidade, beleza ou principalmente a admiração alheia, respingue neles e os eleve ao status que tanto almejam. Às vezes agem como um "marchand", mas de forma completamente vulgar.
 

  Na imprensa são muito comuns, são até maioria. Seus textos pressupõem uma fictícia proximidade com os artistas, de quem falam com uma intimidade forçada, absolutamente falsa e deslumbrada. Nessa intimidade esquizofrênica, acreditam até mesmo "entender" a arte desses "amigos" e se sentem no direito de analisar a melhor ou pior direção que aquela arte poderia e/ou deveria ter tomado. Usam termos como "linha evolutiva" ou "abrangência estética" para decorar seus pobres textos analíticos. Assumem como forma o jornalismo da polêmica, ansiosos em criar factóides para apoiar suas teorias e teoremas, suas divagações pobres e infantis. Querem se tornar personagens da História da Música, apesar de não passarem de parasitas da arte alheia. São mais apaixonados por seus gostos musicais do que pela música em si. Mas os parasitas são também, em muitos casos, os próprios músicos e bandas.

  Quem acompanha o atual momento musical carioca percebe algo curioso: há uma imensa quantidade de novas bandas, principalmente na vertente do rock e pop rock. O grave é que a quantidade, nesse caso, não se traduz em qualidade e muito menos em diversidade. Há uma caretiçe (por falta de termo melhor) que permeia toda essa enorme produção musical e que frustra o potencial de ter tanta gente fazendo música em uma cidade tão necessitada de novos ares culturais (aliás, novos ares em geral). Não é, de forma alguma, o que essa geração oferece, pelo menos na maioria dos casos. Trata-se de uma geração muito profissional, sem dúvida. Possuem equipamento de primeira linha, guitarras Gibson e Fender, unidades de efeitos de última geração (observem a quantidade de pedais de efeitos dos guitarristas). Conhecem muito bem os meios de produção, comunicação visual, fazem fotos profissionais para promoção, tem blog, fotolog, site, My Space, assessoria de imprensa... Enfim, tem um know-how que os diferencia de gerações anteriores de roqueiros, que precisavam aprender na marra e muitas vezes driblar as limitações técnicas da melhor maneira possível (Obs.: É incrível como o Brasil gravou discos de alto nível técnico, apesar de limitados recursos de gravação, em épocas passadas. Ironicamente, com todas as tecnologias disponíveis e mais em conta nos dias de hoje, tudo soa igual).

  Essa nova geração de músicos e bandas são, acima de tudo, oriundos da classe média alta e classes ainda mais favorecidas. Em um país miserável como o Brasil, traduz-se: gente rica. Isso é facilmente perceptível indo aos shows e festivais, que ocorrem em locais feitos especialmente para atender essa parcela da população, que paga com Redeshop, cartão de crédito e tem 15 reais pra pagar de entrada. A mesma parcela da população que ainda pode bancar um cinema no fim de semana. Acreditem: somos uma minoria da população.


  Nesses mesmos shows reina um ar blasé e afetado de gente que só está ali por estar ali e para falar com as pessoas certas. Só se dança quando são bandas mais consideradas pelos parasitas da mídia especializada. O clássico comportamento de rebanho.

  Infelizmente, a caretice e a mesmice reinam. O trabalho musical é profissional ao extremo, o que chega a prejudicar a espontaneidade das performances. Tudo muito calculado, inclusive saltos e pulinhos em momentos-chave das músicas. É evidente que em qualquer lugar onde exista uma abundância de bandas haverá muitos trabalhos fracos, repetitivos, copistas. No caso carioca, são a maioria absoluta. Fazem um rock muito comportado, obediente e procuram copiar, sem pudor, grupos americanos ou ingleses de sucesso. Alguns desses grupos copiados são, de fato, excelentes, e não há nada de mal em assimilar influências de qualquer música boa. Mas há um conservadorismo em jogo: as referências são sempre as mesmas, meia-dúzia de grupos estrangeiros mais manjados, cujas influências nessa geração são sempre as mais óbvias possíveis, já que não existe nem mesmo o desejo de tentar levar a inspiração mais longe, subvertê-la, elevá-la. O lance não é se você "rouba" ou não, já que isso é a música pop em essência, mas como você o faz é importante sim. Considerando a diversidade de sons, estilos, timbres, abordagens que a música contemporânea nos oferece, a insistência em ser tão conservador só pode ser considerada medíocre. Penso logo em bandas como Pixies ou Mutantes e como o trabalho deles, de décadas atrás, era anos-luz mais moderno e visceral do que praticamente todas essas bandas atuais que os adoram e tentam imitá-los, sem sucesso algum (se bem que no caso dos Mutantes, não vejo muitos trabalhos influenciados por eles). Não se trata de querer comparar os trabalhos atuais aos Pixies ou Mutantes, mas sim constatar a ausência de um espírito mais aventureiro na música feita pela geração atual. Onde está o caos, o sangue, o barulho, a quebra, a loucura? É tudo comportado demais. Ou seja, nada rock 'n' roll.

  Há quem acredite que é inocência querer esse espírito rock 'n' roll vivo, que em tempos de post-tudo isso não faz mais sentido. É mentira, claro. Post-rock que seja, ainda é rock e as melhores bandas encaixadas em mais essa caixinha inventada por jornalistas são bandas de rock e fazem da energia criativa seu grande diferencial em relação a todas as outras que só vivem de tentar fazer igual.
 

  O sonho da banda de rock é muito comum, quase infantil na sua inocência primitiva. Quantos já não sonharam com a consagração em cima de um palco com uma guitarra na mão. É global. Nunca houve tantos artistas quanto agora. E sempre existem muitas bandas geniais e inventivas, criativas em sua essência, capazes de transformar uma gama cada vez maior de influências de todos os tempos e estilos em uma nova voz, única e potente, um novo caldo, algum esporro novo. Capazes de transfigurar, misturar suas paixões em uma nova forma. São muitos artistas que são capazes de fazê-lo e fazem, porque movidos pelo amor à música e suas possibilidades. Por outro lado, estão mais diluídos em uma cena com quantidade enorme de artistas medíocres movidos pelo sonho de status, de fama, de fãs gostosas e resenhas estúpidas de parasitas-jornalistas. Focados nisso, a música para esses virou apenas um detalhe, um trabalho, uma função.

  Os parasitas da música são esses medíocres, os parasitas são aqueles que querem nos convencer de que é boa essa mediocridade, de que é mais importante ser "profissional" do que fazer música com a alma, cabeça e coração. Música que inspire, divirta e nos dê alento para voltar pra casa, felizes e sorridentes, apesar de todo o lixo que nos rodeia.

  O momento atual lembra a Jovem Guarda, quando tantos grupos nacionais não passavam de cópias toscas dos Beatles, derramando no mercado versões em português de hits do pop rock inglês e americano. Podemos argumentar que eram tempos mais inocentes. Hoje não dá pra dizer nem isso. Os músicos da geração atual não tem nada de inocentes. Têm acesso a toda música produzida nesse mundo grande sem porteira, através de suas bandas largas. São pessoas abastadas e com informação na ponta dos dedos inquietos. Se apenas absorvem influências devidamente calculadas, baseadas na audição de nossas pobres rádios ou nosso patético jornalismo musical, se contentam em fazer um trabalho medíocre e repetitivo, completamente carente de paixão, é porque escolheram fazer assim. São bandas profissionais e "competentes" sim. São as chamadas "bandas prontas", termo que ouço constantemente, mas não sei o que quer dizer. Sobra a questão: cadê o amor?


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