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desde 13/07/2003


  A luta de Shanna pelos animais

                                      

                    
 Texto + Imagens: Márcio Bueno

 

  Canoas, sábado de verão, temperatura entre 35 e 40 graus, sensação térmica próxima dos 50. Em meio a dezenas de cachorros, uma loira de 1,80m de altura, descalça, chama a atenção, de vassoura e pá na mão, recolhendo fezes do chão de um pátio transformado em canil improvisado. Ela é Shanna, cabeleireira que mantém 58 cachorros, 19 gatos, dez periquitos e uma pomba cega - "além de um veado velho", debocha - alojados em uma pequena casa com pátio, que faz as vezes de salão de beleza.

  O pouco dinheiro do trabalho - durante o verão, a clientela rareia - vai para aluguel, água, luz e sustento dos animais, cuja população flutua quase diariamente. Entre a visita deste repórter ao local e a redação da matéria passaram-se apenas dois dias, tempo suficiente para que um cãozinho morresse, e um gato e dois filhotes de cachorro - um com olho vazado - fossem deixados em frente à casa.



                                 



  De onde vieram tantos animais, justamente para quem não tem condições de abrigar? Caixas de papelão com ninhadas, animais adultos, rejeitados pelos donos, espancados, doentes, atropelados, cegos ou perdidos - há sempre uma história triste atrás de cada caso - acabam sendo deixados lá, no pátio ou no meio da rua, simplesmente. O ponto se tornou conhecido, e agora novos moradores aparecem a cada semana.


  Não somente 'vira-latas' habitam o lugar, mas muitos poodles, filas, angorás e siameses foram descartados, a despeito de seu valor no mercado pet, e acolhidos em um lar onde 'de rua' e 'de raça' recebem a mesma atenção. E Shanna faz sempre caber mais um, apesar da situação estar caótica. Muitos estão doentes, alguns convalescentes, amputados, trazendo seqüelas da violência de seus ex-donos e da vida nas ruas. Ou são simplesmente carentes, ausentes do lar que conheciam, vivendo agora junto a dezenas de outros animais rejeitados.

  Shanna conhece bem essa situação. Aos 42 anos, traz nas costas uma trajetória de dor e abandono. Travesti e soropositiva, foi uma criança criada em orfanato, abusada sexualmente, moradora de rua, prostituída, sem família ou documentos. Mas não perde o bom-humor, o alto astral e a capacidade de rir de si mesma. Atualmente luta para sustentar a casa - que terá que deixar em breve, já que o imóvel foi requisitado pela proprietária, concentrando esforços na construção de uma nova moradia, em um canto de terreno oferecido por uma idosa doente, que recebe seus cuidados. Tenta conseguir ainda um terreno cedido pelo Poder Público, para instalar e cuidar dos animais adequadamente, a exemplo de outros Municípios.


 

           



  A outra luta é pelo direito de receber uma pensão, na condição de portadora do vírus HIV, que esbarra na burocracia e na má-vontade generalizada. Para quem já apanhou na rua pela sua condição de homossexual, não conseguir um protocolo, uma autorização ou um encaminhamento não é motivo para desistência. Ela segue em frente, lutando contra o tempo.

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 Para adotar algum dos animais - diversos já castrados -,
 doar sacos de ração, remédios, materiais de construção,
 mantimentos ou mesmo dinheiro, basta
 ligar para (51) 9814-4007, com Shanna.
 Quem não puder entregar em Canoas
 pode combinar com a protetora Denise, (51) 9152-5072 e (51) 3330-0052,
 que se dispõe a buscar as doações em Porto Alegre.

                                     
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