Canoas, sábado de verão, temperatura entre 35 e 40 graus, sensação
térmica
próxima dos 50. Em meio a dezenas de cachorros, uma loira de 1,80m de altura,
descalça, chama a atenção, de vassoura e pá na mão, recolhendo fezes do chão de
um pátio transformado em canil improvisado. Ela é Shanna, cabeleireira que
mantém 58 cachorros, 19 gatos, dez periquitos e uma pomba cega - "além de um
veado velho", debocha - alojados em uma pequena casa com pátio, que faz as vezes
de salão de beleza.
O pouco dinheiro do trabalho - durante o verão, a clientela rareia - vai para
aluguel, água, luz e sustento dos animais, cuja população flutua quase
diariamente. Entre a visita deste repórter ao local e a redação da matéria
passaram-se apenas dois dias, tempo suficiente para que um cãozinho morresse, e
um gato e dois filhotes de cachorro - um com olho vazado - fossem deixados em
frente à casa.

De onde vieram tantos animais, justamente para quem não tem condições de
abrigar? Caixas de papelão com ninhadas, animais adultos, rejeitados pelos
donos, espancados, doentes, atropelados, cegos ou perdidos - há sempre uma
história triste atrás de cada caso - acabam sendo deixados lá, no pátio ou no
meio da rua, simplesmente. O ponto se tornou conhecido, e agora novos moradores
aparecem a cada semana.
Não somente 'vira-latas' habitam o lugar, mas muitos poodles, filas, angorás e
siameses foram descartados, a despeito de seu valor no mercado pet, e acolhidos
em um lar onde 'de rua' e 'de raça' recebem a mesma atenção. E Shanna faz sempre
caber mais um, apesar da situação estar caótica. Muitos estão doentes, alguns
convalescentes, amputados, trazendo seqüelas da violência de seus ex-donos e da
vida nas ruas. Ou são simplesmente carentes, ausentes do lar que conheciam,
vivendo agora junto a dezenas de outros animais rejeitados.
Shanna conhece bem essa situação. Aos 42 anos, traz nas costas uma trajetória de
dor e abandono. Travesti e soropositiva, foi uma criança criada em orfanato,
abusada sexualmente, moradora de rua, prostituída, sem família ou documentos.
Mas não perde o bom-humor, o alto astral e a capacidade de rir de si mesma.
Atualmente luta para sustentar a casa - que terá que deixar em breve, já que o
imóvel foi requisitado pela proprietária, concentrando esforços na construção de
uma nova moradia, em um canto de terreno oferecido por uma idosa doente, que
recebe seus cuidados. Tenta conseguir ainda um terreno cedido pelo Poder
Público, para instalar e cuidar dos animais adequadamente, a exemplo de outros
Municípios.



A outra luta é pelo direito de receber uma pensão, na condição de portadora do
vírus HIV, que esbarra na burocracia e na má-vontade generalizada. Para quem já
apanhou na rua pela sua condição de homossexual, não conseguir um protocolo, uma
autorização ou um encaminhamento não é motivo para desistência. Ela segue em
frente, lutando contra o tempo.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Para adotar algum dos animais - diversos já castrados -,
doar sacos de ração, remédios, materiais de construção,
mantimentos ou mesmo dinheiro, basta
ligar
para (51) 9814-4007, com Shanna.
Quem não puder entregar em Canoas
pode combinar
com a protetora Denise, (51) 9152-5072 e (51) 3330-0052,
que se dispõe a buscar
as doações em Porto Alegre.
[
Página Inicial
]