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13/07/2003 |
Babel e a
questão do outro
Por
Daniel
Paes
Imagens:
Reprodução
"Eu vi a lua sobre a Babilônia Brilhando mais que as luzes da Times Square" (Nação Zumbi. In
Nação Zumbi. Trama, 2002, Brasil)
O
ocidente dominou culturalmente o mundo pelo poder da comunicação. Atrás, vieram
as armas e as escolas. Mas foi o poder de argumentação, de barganha e de
cooptação que dividiu outras culturas para assim dominá-las
[1]. Desde Amores
Brutos (2000) e 21 Gramas (2003), o diretor Alejandro Iñárritu e o roteirista
Guillermo Arriaga provam que juntos formam uma dupla capaz de, nesta sinergia,
potencializar a arte do cinema em uma intervenção e leitura da realidade pouco
vista atualmente. Desta vez, a grande arma do ocidente que é posta em cheque.
A questão do outro retorna em uma alegoria sobre a incomunicabilidade humana.
Em Babel (2006), eles elevam sua estética contemporânea - pós-moderna? –
de choque e fragmentação da narrativa em um cruzamento inesgotável de situações
onde o tema central é a incapacidade dos seres humanos de entender o outro e de
fazer sentido entre si. A questão da hermenêutica se aflora: universos
paradigmáticos diferentes de significado deslocam a comunicação a um estágio
caótico. Desta relação de intolerância e ignorância da realidade alheia, os
conflitos se potencializam. Através do cinema - estandarte da cultura de massa
mundial -, Babel é uma denúncia da surdez vigente entre os povos: a chamada do
filme evoca os espectadores a “ouvir”, e não ao clássico “assista”. No final do
trailer, a provocação se
estende: “se você quer ser entendido, ouça”.


A trama se divide em núcleos que se tocam por um fato, um cruzamento das
linhas do destino de pessoas diferentes, como já ocorreu nos filmes anteriores,
que desencadeia uma série de acontecimentos. Então, três locais do mundo –
Japão, México e Marrocos – e quatro narrativas se chocam através de um disparo
no deserto. A arma, de um caçador por hobby japonês; o atirador, um menino
marroquino; e a vítima, uma americana. Este é o estopim para uma seqüência de
fatos que não se desenlaçam e apenas tornam-se mais complexos. Todos gritam,
porém ninguém ouve o outro. Em Tókio, emblema da ocidentalização do oriente, uma
menina surda-muda, frustrada pela sua incapacidade física de comunicação, usa o
corpo – através de drogas e da sexualidade - como tentativa última de falar e
ser ouvida. Aqui talvez possamos traçar uma metáfora com o imigrante que chega a
um país desconhecido, geralmente mais rico que sua terra natal, muitas vezes
surdo-mudo daquele idioma, buscando uma forma outra de viver, mesmo encarando
uma realidade adversa. Na fronteira México e Estados Unidos, um policial impede
que a babá mexicana retorne aos EUA com os filhos de seus patrões. O carro
foge e é perseguido. Um casal de turistas americanos vai ao
Marrocos buscando a sintonia perdida. Susan pergunta: Por que viemos aqui?
Richard responde: Não sei. De longe, parecem perdidos no deserto. “De perto,
estão perdidos de si mesmos”, diz o diretor.
Ostentor de técnica apurada, Iñárritu potencializa o roteiro não linear
de Arriaga, levando o espectador a momentos de leveza, delírio, agonia e dor.
Sempre usando oposições chocantes, tais experiências vão se amontoando em um
filme de muitas histórias e muitas significações, em um mosaico de referências
cruzadas. Cada pessoa termina de assistir – e ouvir - o filme com uma idéia da
história muito subjetiva, até porque é exatamente de entendimento que o filme
fala: “Quando valores se chocam, nada mais faz sentido. Quando um elo se parte,
não é apenas ele, mas toda a corrente que se desintegra”, diz Iñárritu.


O título, Babel, é uma referência à torre, citada na Bíblia como a
primeira edificação do mundo, que foi construída como forma de proteger os
descendentes de Noé de um possível novo dilúvio. Tal construção acabou por
simbolizar o poder humano e a dominação deste sobre a natureza, ao construir uma
torre que tendia a “tocar o céu”. De acordo com o mito, irado com a arrogância
humana, Deus fez com que todos deste único povo, que falava uma única língua,
começassem a falar milhares de línguas diferentes para que assim não pudessem se
entender.

Com a explosão da comunicação mundial, que muitas vezes é apontada como
uma farsa e simulacro de comunicação, o diretor Iñárritu apresenta seu cinema
como “uma linguagem visual global que possibilita ao artista atravessar as
fronteiras e a falta de comunicação”. Bem longe de um olhar etnocêntrico de
mundo, o cinema de Iñárritu e Arriaga aponta para um questionamento
contemporâneo: qual a saída para a convivência pacífica entre tão diferentes
identidades, etnias e culturas mundiais? Talvez o diálogo e a consciência de que
diferença não pressupõe desigualdade.
. Fontes .
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http://www.paramountvantage.com/babel
.
.
http://pt.wikipedia.org
.
. Para ler
mais .
[1]
TODOROV, Tzvetan. A conquista
da América: a questão do outro. São Paulo: Martins Fontes, (1993).
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Sessão
de cinema no front .

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