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 Anorexia nervosa na pós-modernidade:

          
o que há por trás da busca pelo ideal estético instituído pela cultura


                                                  

                                                                           
                                                                         
 Por
Natália Alves
                                                                                    Imagens:
Reprodução/www

 

  A anorexia nervosa tem sido muito discutida na atualidade, e os casos de mulheres acometidas pelo transtorno são cada vez mais freqüentes, desafiando inúmeros estudiosos do assunto e proporcionando às pessoas um questionamento maior a respeito da influência do contexto pós-moderno no comportamento da sociedade.

  Segundo o Código Internacional de Doenças (DSM-IV), um dos critérios-diagnósticos que caracteriza a anorexia seria: “distúrbio no modo como a forma ou o peso corporal são experenciados, influência indevida da forma ou do peso corporal na auto-avaliação, ou a negação da seriedade do peso corporal baixo”. (Robell, 1997, p. 23). É também de grande relevância atentar para o fato de que o transtorno, em 90% dos casos, ocorre em mulheres. Esse dado representa um fator importante para a compreensão ulterior da patologia.

  Tal critério acima citado faz com que se pense um pouco mais sobre a maneira como algumas mulheres estão enxergando e entendendo seus próprios corpos; leva a se inferir que talvez exista uma espécie de falha na representação que determinadas mulheres fazem de seus próprios corpos.

  Seria praticamente inviável desenvolver um estudo a respeito do transtorno sem falar de cultura, pós-modernidade e mídia. Pode-se dizer que a sociedade atual encontra-se envolta em um emaranhado de influências que, muitas vezes, exercem papéis negativos sobre o imaginário das pessoas. O mundo ocidental pós-moderno é cercado de propagandas persuasivas, de modelos de perfeição a serem seguidos, de modelos de comportamento muitas vezes impostos de maneira sutil através da televisão, de revistas, entre outros. A cultura de massa exerce uma função persuasiva e muitas pessoas percebem-se envolvidas na lógica desse sistema tarde demais para que possam se livrar de idéias impostas por essa cultura, que se impregnaram em seus pensamentos, e que, de alguma forma, se refletem em suas ações.

  O contexto pós-moderno caracteriza-se pela excessiva valorização do belo, da tão sonhada “perfeição”, da imposição pela busca de corpos esculturais e esguios. As pessoas são cercadas por outdoors e propagandas que estampam fotos de manequins magros, que esbanjam beleza e parecem transparecer um sentimento de poder e autoconfiança.

  A mídia superestima o magro como se esta condição fosse a única saída para uma vida feliz, cheia de sucesso e grandes conquistas tanto amorosas quanto profissionais. A televisão dissemina a imagem do padrão ideal, do ideal de beleza e o que se percebe é que esses meios de comunicação de massa parecem exercer uma influência tão forte no imaginário coletivo que basta se veicular algum tipo de idéia ou modelo a ser seguido que, em pouco tempo, numa espécie de “persuasão em massa”, grande parcela da sociedade parte em busca de alcançar aquilo que a mídia veiculou. E essa busca tem sido motivo de grande interesse por muitos estudiosos do assunto, pois muitas vezes ela se torna absolutamente obsessiva e passa a ser um dos principais objetivos que rege a vida de determinada pessoa.


  Naomi Wolf, em seu livro O mito da beleza (1992), faz uma afirmação interessante a respeito das imagens de beleza que são impostas às mulheres: “Quanto mais numerosos foram os obstáculos legais e materiais vencidos pelas mulheres, mais rígidas, pesadas e cruéis foram as imagens da beleza feminina a nós impostas”. E também diz que: “estamos em meio a uma violenta reação contra o feminismo que emprega imagens da beleza feminina como uma arma política contra a evolução da mulher...” E que está sendo promovida uma “neurose de massa que recorreu aos alimentos para privar as mulheres de sua sensação de controle”.

  A autora Suzanne Robell também faz referência à anorexia utilizando o exemplo do movimento feminista:


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Acredito que o feminismo foi, e ainda é, importante, mas como é possível que, após ter queimado seus sutiãs em praça pública e usado confortáveis batas indianas, as mulheres estejam ainda presas a uma fantasia que não lhes dá descanso? O espartilho que nossas bisavós usavam trazemos agora no interior de nós mesmas. O medo intenso de engordar diz respeito a muitas de nós. As anoréxicas expressam os efeitos colaterais do feminismo, ainda que façam parte de um grupo seleto da sociedade (...) desafiam-nos a uma compreensão mais madura do feminino e do lugar que a mulher ocupa no mundo."

                                                                                             (ROBELL, 1997, p. 15)

  

                          



  E é através dessas imagens impostas, dessa beleza que deve ser a todo custo conquistada, desse corpo magro e belo que as mulheres devem alcançar, que se manifestam os conhecidos transtornos alimentares. As anoréxicas são “produtos de seu tempo e sua cultura”. (Robell, 1997).

  A respeito dessa influência cultural a autora Júlia Kristeva (2002) fez a seguinte reflexão: “(...) confrontada com a ditadura da magreza, dos padrões severos, cruéis e particularmente ambivalentes da moralidade alimentar de hoje, e com a proibição do envelhecer, há espaço para a subjetividade?”

  O que se pode pensar até o momento é que além de sofrerem uma forte influência cultural, ou melhor dizendo, do contexto em que estão inseridas, as inúmeras mulheres que são acometidas por distúrbios de alimentação podem estar dando sinais de que existe algo além dessa imposição muitas vezes vivida de forma intensa e dolorida.

  A anorexia pode significar algo além do que se infere a respeito. A patologia tida por muitos autores como “distúrbio na percepção da imagem corporal” tem desafiado inúmeros estudiosos do assunto e em seu artigo: O mundo objetal anoréxico e a violência bulímica em meninas adolescentes, a autora Marina Ramalho Miranda descreve a anoréxica da seguinte maneira: “ Uma boca que pouco come, um psiquismo que pouco elabora”.

  A partir disso, pode-se inferir que a anorexia envolve uma série de outros fatores além do “não comer”. A mesma autora também diz da anorexia utilizando a seguinte frase: “Magra, de carne, de idéias, boca fechada para a comida, mente fechada a reflexões. Corpo que mostra os ossos, que desnuda a dor, que expõe o que não é para ser visto: o sinistro”.

  Talvez a anorexia não esteja recebendo a devida atenção. Muitas anoréxicas parecem estar pedindo socorro. Uma das pacientes atendidas pela autora acima citada já pronunciou a seguinte fala: “Todos dizem para eu comer. Minha mãe diz o dia todo: coma, coma, ninguém percebe que eu vou entrar em estado de coma!”.

  A anorexia é tida como uma patologia inconsciente. Geralmente, as mulheres acometidas pelo transtorno não percebem sua magreza excessiva e muitas vezes chegam a acreditar estarem acima de seu peso normal. Muitas delas sabem que existe algo não consonante, que existe algo que as faz apresentar certa dificuldade em lidar com o mundo que as cerca, porém elas não conseguem discernir com exatidão a causa disso.

  Os estudos a respeito analisam a anoréxica como alguém que possui certa dificuldade em se deparar com seu “eu”. A anoréxica demonstra uma busca pela identidade, uma identidade que pode estar perdida e que necessita vir à tona. Muitas delas apresentam uma angústia que não conseguem definir. Algumas relatam “vazio interior”.

  Antes de se prosseguir é de suma importância fazer uma pequena análise a respeito do termo “anorexia”. A palavra vem do termo “orexis”, que significa desejo. O prefixo “A” adicionado proporciona um outro significado à palavra. Anorexia significa, então, negação de desejos.

  A anoréxica também apresenta sinais de que nega, constantemente, desejos que considera inadequados, principalmente nota-se uma negação da sexualidade, dos desejos sexuais.

  O que revela então a anorexia nervosa? De acordo com Marion Woodman (1982), a patologia “nos mostra uma mulher cuja feminilidade está ausente devido à busca de metas masculinas que são uma paródia daquilo que a masculinidade realmente é”.



"
É de fundamental importância frisar que o animus apesar de ser denominado princípio masculino na psicologia junguiana, diz respeito essencialmente à feminilidade e à estruturação da mulher como tal. É na relação com a mãe que a menina começa a se estruturar como mulher. E é na relação dessa mãe como o próprio animus que a menina espelhará seus sentimentos em relação ao pai, primeira imagem masculina, a lhe servir depois como modelo."

                                                                                           
(ROBELL, 1997, p. 118)



 
A partir disso, nota-se a importância da relação mãe e filha para a compreensão do distúrbio. A psicanálise enxerga essa relação como extremamente significativa. “Os investimentos narcísicos da mãe e da filha impedem a troca afetiva e apagam o traço e o reconhecimento do outro”. (MIRANDA, 2004, p. 326).


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A anorexia não é uma doença, mas a única maneira de o sujeito chegar a nascer como um sujeito desejoso, fora do desejo da mãe."

                                  (MANNONI, citado por MIRANDA, 2004, p. 328)



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Fechada psiquicamente na fantasia de uma fusão pré-edípica com a mãe, com ansiedades sem continência sobre sua sexualidade feminina, sua mente dominada por uma figura que é intrusiva e destrutiva, elas não podem nada simbolizar, nem pensar ou usar palavras como tentativas de lidar com o problema."

                                                
(LAWRENCE citado por MIRANDA, 2004, p. 327)



  A psicanálise também enxerga a anoréxica como alguém que apresenta dificuldades de representar o afeto, e Freud descreve as anoréxicas como aquelas em que a sexualidade não se desenvolveu.

  Fica claro que as mulheres anoréxicas possuem seus desejos orais enfraquecidos. Pode-se dizer também de falhas no processo identificatório e luta contra a satisfação dos desejos.


  A anoréxica passa a renunciar constantemente seus desejos e se vê perdida em um mundo que muito oferece, mas que também muito impõe. Seu ego torna-se então vulnerável, e o vazio de que elas tanto se queixam passa a se manifestar no corpo. Esse corpo rejeita toda forma de alimento, nega-o e inicia um processo que muitas vezes pode não ter um caminho de volta. Sua vida psíquica torna-se enfraquecida, a anoréxica rejeita a comida como uma maneira de também rejeitar qualquer tipo de laço afetivo. A dificuldade de se alimentar denuncia uma dificuldade em se estabelecer vínculos, uma dificuldade de se relacionar com o outro.


  Muito ainda se tem a descobrir a respeito do transtorno, que tem lançado inúmeros questionamentos. O que se deve fazer é lançar um olhar mais reflexivo sobre essas mulheres e tentar descobrir o que esses corpos magros, esses ossos à mostra, esses rostos pálidos e franzinos realmente desejam dizer.


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Como bebês-esponjas, que, em épocas arcaicas de sua vida, serviram de receptáculos para emoções brutas e desorganizadas, e dessa maneira tornaram-se refratárias a introjeções, as meninas anoréxicas precisam encontrar uma mente que possa aproximar-se desta porosidade, num ritmo cauteloso, porém persistente, delicado, porém firme, capaz de tocá-las como se tivesse uma flor entre os dedos, ou um cristal muito fino, que, na eventualidade de qualquer movimento brusco, corre o risco de sofrer fraturas e rompimentos."

                                                                                       (MIRANDA, 2004, p. 331)



REFERÊNCIAS:

FREUD, S. Estudos sobre histeria. ESB, 1893-1895, p.63. V. II

KRISTEVA, J. As novas doenças da alma. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

LAWRENCE, M. Morrer de amor: a anoréxica e seus objetos. International Journal of Psychoanalysis. London: Hogarth Press, 2001.

MANNONI, M. Instituição psiquiátrica e psicanálise II-Um caso de anorexia mental. In: O psiquiatra, seu louco e a psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.

MIRANDA, M. O mundo objetal anoréxico e a violência bulímica em meninas adolescentes. Revista Brasileira de Psicanálise. São Paulo, Associação Brasileira de Psicanálise v. 38, n.2, (abr. 2004), p. 309-334.

ROBELL, S. A anorexia nervosa em nossa cultura. São Paulo: Summus, 1997.

WOLF, N. O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

WOODMAN, M. Addiction to perfection- the still unravished bride. Toronto: Inner City Books, 1982.


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