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13/07/2003 |
Anorexia nervosa na pós-modernidade:
o que há por trás da
busca pelo ideal estético instituído pela cultura
Por
Natália Alves
Imagens:
Reprodução/www
A anorexia nervosa tem sido muito discutida na atualidade, e
os casos de mulheres acometidas pelo transtorno são cada vez mais freqüentes,
desafiando inúmeros estudiosos do assunto e proporcionando às pessoas um
questionamento maior a respeito da influência do contexto pós-moderno no
comportamento da sociedade.
Segundo o Código Internacional de Doenças (DSM-IV),
um dos critérios-diagnósticos que caracteriza a anorexia seria: “distúrbio no
modo como a forma ou o peso corporal são experenciados, influência indevida da
forma ou do peso corporal na auto-avaliação, ou a negação da seriedade do peso
corporal baixo”. (Robell, 1997, p. 23). É também de grande relevância atentar
para o fato de que o transtorno, em 90% dos casos, ocorre em mulheres. Esse dado
representa um fator importante para a compreensão ulterior da patologia.
Tal critério acima citado faz com que se pense um pouco mais sobre a
maneira como algumas mulheres estão enxergando e entendendo seus próprios
corpos; leva a se inferir que talvez exista uma espécie de falha na
representação que determinadas mulheres fazem de seus próprios corpos.
Seria praticamente inviável desenvolver um estudo a respeito do
transtorno sem falar de cultura, pós-modernidade e mídia. Pode-se dizer que a
sociedade atual encontra-se envolta em um emaranhado de influências que, muitas
vezes, exercem papéis negativos sobre o imaginário das pessoas. O mundo ocidental
pós-moderno é cercado de propagandas persuasivas, de modelos de perfeição a
serem seguidos, de modelos de comportamento muitas vezes impostos de maneira
sutil através da televisão, de revistas, entre outros. A cultura de massa exerce
uma função persuasiva e muitas pessoas percebem-se envolvidas na lógica desse
sistema tarde demais para que possam se livrar de idéias impostas por essa
cultura, que se impregnaram em seus pensamentos, e que, de alguma forma, se
refletem em suas ações.
O contexto pós-moderno caracteriza-se pela excessiva valorização do belo,
da tão sonhada “perfeição”, da imposição pela busca de corpos esculturais e
esguios. As pessoas são cercadas por outdoors e propagandas que estampam fotos
de manequins magros, que esbanjam beleza e parecem transparecer um sentimento de
poder e autoconfiança.
A mídia superestima o magro como se esta condição fosse a única saída
para uma vida feliz, cheia de sucesso e grandes conquistas tanto amorosas quanto
profissionais. A televisão dissemina a imagem do padrão ideal, do ideal de
beleza e o que se percebe é que esses meios de comunicação de massa parecem
exercer uma influência tão forte no imaginário coletivo que basta se veicular
algum tipo de idéia ou modelo a ser seguido que, em pouco tempo, numa espécie de
“persuasão em massa”, grande parcela da sociedade parte em busca de alcançar
aquilo que a mídia veiculou. E essa busca tem sido motivo de grande interesse
por muitos estudiosos do assunto, pois muitas vezes ela se torna absolutamente
obsessiva e passa a ser um dos principais objetivos que rege a vida de
determinada pessoa.
Naomi Wolf, em seu livro O mito da beleza (1992), faz uma afirmação
interessante a respeito das imagens de beleza que são impostas às mulheres:
“Quanto mais numerosos foram os obstáculos legais e materiais vencidos pelas
mulheres, mais rígidas, pesadas e cruéis foram as imagens da beleza feminina a
nós impostas”. E também diz que: “estamos em meio a uma violenta reação contra o
feminismo que emprega imagens da beleza feminina como uma arma política contra a
evolução da mulher...” E que está sendo promovida uma “neurose de massa que
recorreu aos alimentos para privar as mulheres de sua sensação de controle”.
A autora Suzanne Robell também faz referência à anorexia utilizando o
exemplo do movimento feminista:
"Acredito que o feminismo foi, e ainda é, importante, mas como é possível que,
após ter queimado seus sutiãs em praça pública e usado confortáveis batas
indianas, as mulheres estejam ainda presas a uma fantasia que não lhes dá
descanso? O espartilho que nossas bisavós usavam trazemos agora no interior de
nós mesmas. O medo intenso de engordar diz respeito a muitas de nós. As anoréxicas expressam os efeitos colaterais do feminismo, ainda que façam parte
de um grupo seleto da sociedade (...) desafiam-nos a uma compreensão mais madura
do feminino e do lugar que a mulher ocupa no mundo."
(ROBELL, 1997, p. 15)

E é através dessas imagens impostas, dessa beleza
que deve ser a todo custo conquistada, desse corpo magro e belo que as mulheres
devem alcançar, que se manifestam os conhecidos transtornos alimentares. As anoréxicas são “produtos de seu tempo e sua cultura”. (Robell, 1997).
A respeito dessa influência cultural a autora Júlia Kristeva (2002) fez a
seguinte reflexão: “(...) confrontada com a ditadura da magreza, dos padrões
severos, cruéis e particularmente ambivalentes da moralidade alimentar de hoje, e
com a proibição do envelhecer, há espaço para a subjetividade?”
O que se pode pensar até o momento é que além de sofrerem uma forte
influência cultural, ou melhor dizendo, do contexto em que estão inseridas, as
inúmeras mulheres que são acometidas por distúrbios de alimentação podem estar
dando sinais de que existe algo além dessa imposição muitas vezes vivida de
forma intensa e dolorida.
A anorexia pode significar algo além do que se infere a respeito. A
patologia tida por muitos autores como “distúrbio na percepção da imagem
corporal” tem desafiado inúmeros estudiosos do assunto e em seu artigo: O mundo objetal anoréxico e a violência bulímica em meninas adolescentes, a autora
Marina Ramalho Miranda descreve a anoréxica da seguinte maneira: “ Uma boca que
pouco come, um psiquismo que pouco elabora”.
A partir disso, pode-se inferir que a anorexia envolve uma série de outros
fatores além do “não comer”. A mesma autora também diz da anorexia utilizando a
seguinte frase: “Magra, de carne, de idéias, boca fechada para a comida, mente
fechada a reflexões. Corpo que mostra os ossos, que desnuda a dor, que expõe o
que não é para ser visto: o sinistro”.
Talvez a anorexia não esteja recebendo a devida atenção. Muitas
anoréxicas parecem estar pedindo socorro. Uma das pacientes atendidas pela
autora acima citada já pronunciou a seguinte fala: “Todos dizem para eu comer.
Minha mãe diz o dia todo: coma, coma, ninguém percebe que eu vou entrar em
estado de coma!”.
A anorexia é tida como uma patologia inconsciente. Geralmente, as mulheres
acometidas pelo transtorno não percebem sua magreza excessiva e muitas vezes
chegam a acreditar estarem acima de seu peso normal. Muitas delas sabem que
existe algo não consonante, que existe algo que as faz apresentar certa
dificuldade em lidar com o mundo que as cerca, porém elas não conseguem
discernir com exatidão a causa disso.
Os estudos a respeito analisam a anoréxica como alguém que possui certa
dificuldade em se deparar com seu “eu”. A anoréxica demonstra uma busca pela
identidade, uma identidade que pode estar perdida e que necessita vir à tona.
Muitas delas apresentam uma angústia que não conseguem definir. Algumas relatam
“vazio interior”.
Antes de se prosseguir é de suma importância fazer uma pequena análise a
respeito do termo “anorexia”. A palavra vem do termo “orexis”, que significa
desejo. O prefixo “A” adicionado proporciona um outro significado à palavra.
Anorexia significa, então, negação de desejos.
A anoréxica também apresenta sinais de que nega, constantemente, desejos
que considera inadequados, principalmente nota-se uma negação da sexualidade,
dos desejos sexuais.
O que revela então a anorexia nervosa? De acordo com Marion Woodman
(1982), a patologia “nos mostra uma mulher cuja feminilidade está ausente devido
à busca de metas masculinas que são uma paródia daquilo que a masculinidade
realmente é”.
"É de
fundamental importância frisar que o animus apesar de ser denominado princípio
masculino na psicologia junguiana, diz respeito essencialmente à feminilidade e
à estruturação da mulher como tal. É na relação com a mãe que a menina começa a
se estruturar como mulher. E é na relação dessa mãe como o próprio animus que a
menina espelhará seus sentimentos em relação ao pai, primeira imagem masculina,
a lhe servir depois como modelo."
(ROBELL, 1997, p.
118)
A partir disso, nota-se a importância da relação mãe e filha
para a compreensão do distúrbio. A psicanálise enxerga essa relação como
extremamente significativa. “Os investimentos narcísicos da mãe e da filha
impedem a troca afetiva e apagam o traço e o reconhecimento do outro”. (MIRANDA,
2004, p. 326).
"A
anorexia não é uma doença, mas a única maneira de o sujeito chegar a nascer como
um sujeito desejoso, fora do desejo da mãe."
(MANNONI,
citado por MIRANDA, 2004, p. 328)
"Fechada psiquicamente na fantasia de uma fusão pré-edípica com a mãe, com
ansiedades sem continência sobre sua sexualidade feminina, sua mente dominada
por uma figura que é intrusiva e destrutiva, elas não podem nada simbolizar, nem
pensar ou usar palavras como tentativas de lidar com o problema."
(LAWRENCE
citado por MIRANDA, 2004, p. 327)
A psicanálise também enxerga a anoréxica como alguém
que apresenta dificuldades de representar o afeto, e Freud descreve as anoréxicas
como aquelas em que a sexualidade não se desenvolveu.
Fica claro que as mulheres anoréxicas possuem seus desejos orais
enfraquecidos. Pode-se dizer também de falhas no processo identificatório e luta
contra a satisfação dos desejos.
A anoréxica passa a renunciar constantemente seus desejos e se vê perdida
em um mundo que muito oferece, mas que também muito impõe. Seu ego torna-se
então vulnerável, e o vazio de que elas tanto se queixam passa a se manifestar no
corpo. Esse corpo rejeita toda forma de alimento, nega-o e inicia um processo
que muitas vezes pode não ter um caminho de volta. Sua vida psíquica torna-se
enfraquecida, a anoréxica rejeita a comida como uma maneira de também rejeitar
qualquer tipo de laço afetivo. A dificuldade de se alimentar denuncia uma
dificuldade em se estabelecer vínculos, uma dificuldade de se relacionar com o
outro.
Muito ainda se tem a descobrir a respeito do transtorno, que tem lançado
inúmeros questionamentos. O que se deve fazer é lançar um olhar mais reflexivo
sobre essas mulheres e tentar descobrir o que esses corpos magros, esses ossos à
mostra, esses rostos pálidos e franzinos realmente desejam dizer.
"Como bebês-esponjas, que, em épocas arcaicas de sua vida, serviram de
receptáculos para emoções brutas e desorganizadas, e dessa maneira tornaram-se
refratárias a introjeções, as meninas anoréxicas precisam encontrar uma mente
que possa aproximar-se desta porosidade, num ritmo cauteloso, porém persistente,
delicado, porém firme, capaz de tocá-las como se tivesse uma flor entre os
dedos, ou um cristal muito fino, que, na eventualidade de qualquer movimento
brusco, corre o risco de sofrer fraturas e rompimentos."
(MIRANDA, 2004, p. 331)
REFERÊNCIAS:
FREUD, S. Estudos sobre histeria. ESB, 1893-1895, p.63. V. II
KRISTEVA, J. As novas doenças da alma. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.
LAWRENCE, M. Morrer de amor: a anoréxica e seus objetos. International Journal
of Psychoanalysis. London: Hogarth Press, 2001.
MANNONI, M. Instituição psiquiátrica e psicanálise II-Um caso de anorexia
mental. In: O psiquiatra, seu louco e a psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar,
1971.
MIRANDA, M. O mundo objetal anoréxico e a violência bulímica em meninas
adolescentes. Revista Brasileira de Psicanálise. São Paulo, Associação
Brasileira de Psicanálise v. 38, n.2, (abr. 2004), p. 309-334.
ROBELL, S. A anorexia nervosa em nossa cultura. São Paulo: Summus, 1997.
WOLF, N. O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as
mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
WOODMAN, M. Addiction to perfection- the still unravished bride. Toronto: Inner
City Books, 1982.
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