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13/07/2003 |
Alegoria
náutica
Por
S. Quimas
Imagem:
Reprodução

Desde criança tenho uma profunda
admiração pelo mar. Aliás, por mim viveria o restante de minha vida ouvindo o
marulho das águas em alguma praia do Nordeste Brasileiro. O mar me fascina a
tal ponto que uma das minhas aspirações mais forte - e talvez mais louca - é
permanecer dentro de uma tempestade, a beira de um abismo e ver o bater das
ondas encapeladas nos rochedos abaixo de mim.
Contudo, não é exatamente sobre o mar em si que desejo escrever, mas sobre as
embarcações que lhe navegam, de um navio, uma alegoria náutica, não um barco
qualquer.
Este transatlântico de dimensões colossais se chama Mundo e ele navega em um
mar muito especial denominado Espaço Sideral. Sua velocidade de cruzeiro é de
muitos milhares de nós. Ele possui uma cabine de comando e acomodações de
primeira classe, classe turística e para a tripulação. Possui também porões,
que dizem ser infestados por ratos. Há outros setores neste navio, como
cozinhas, lojas, salões, etc.
No comando, o capitão e os navegadores controlam o curso da embarcação e a
administração do navio. São eles que determinam a rota, fazendo com que o leme
dirija o navio para o objetivo que determinam. Em toda a história desta
embarcação foram criadas oportunidades para que o Mundo chegasse a portos mais
auspiciosos, porém há muita divergência entre os tripulantes que dominam a
cabine de comando. As suas contendas são tão ferozes que chegam a bater-se
entre si e muitas vezes a se matarem. Acabam, com isto, comprometendo o bom
curso da viagem e atingindo a todos os passageiros da nave, transformando-a em
um barco de guerra que se auto-destrói.
Não toleram amotinados, que são rapidamente contidos pelos marinheiros
responsáveis pela segurança do navio. Estes marinheiros deveriam preservar a
integridade dos embarcados, mas acabam sendo destacados para reprimir os que
fazem voz contrária às decisões do comando.
Os oficiais de bordo não ligam se agem em prejuízo daqueles que com eles
navegam e nem se as suas decisões precipitam o declínio do navio. Suas
decisões são para eles sagradas e não se admite controvérsias. Afinal, pensam,
não são eles superiores a todos, então por que ouvir a outras vozes? Por que
dar crédito a quem não tem o poder de comando? São irredutíveis.
Geralmente, aqueles que são promovidos dentro da tripulação e alçam ao
comando, mas que discordam dos mais graduados, são também eliminados, ou
recebem sanções que lhes dificultam as ações e lhes impedem o progresso.
Os oficiais superiores vivem confabulando e muitas vezes dão aparência que vão
decidir em favor do restante dos embarcados, mas no fundo só decidem em prol
de si mesmos e espargem migalhas em benefício destes últimos.
Em conivência com as decisões tomadas pelo comando e regalados em seus
banquetes com o que de melhor pode haver, estão os passageiros da primeira
classe. Estes se submetem solicitamente ao jugo do comando e partilham com ele
suas decisões, se influenciado mutuamente. São eles os perpetuadores e
mantenedores das regras que dirigem as ações do comando.
Esta classe não freqüenta o convés das demais e muitas vezes ignoram os
clamores e burburinho que vêm de baixo, tendo-os como próprios de gente sem
formação e insensata.
Adoram desfilar ostentando suas riquezas e esnobando a quem não pertença a seu
seleto grupo. Consomem e desperdiçam muito, pois não relevam a finitude dos
recursos de bordo, já que a sua posição e poder financeiro lhes entorpecem as
mentes. São amnésicos em relação aos problemas alheios. Mais certamente,
egoístas.
Também são dados a colecionar títulos honoríficos e dão importância exacerbada
aos nomes de família e posses. Só toleram das outras classes aqueles que lhes
servem. Uma questão que no momento não tem melhor solução, mas que deverá ser
sublimada pelos avanços da informática e da robótica.
A classe turística é a menos confortável, pois as cabines são estreitas e o
serviço menos cuidado devido à superlotação. Os passageiros desta classe
operam como formigas e raramente desfrutam de bom lazer. Suas vestes se
assemelham a uniformes, pois somente compram roupas produzidas em massa.
Exclusividade é um verbete desconhecido destes passageiros.
São mais vulneráveis, já que sua alimentação nem sempre é a mais adequada,
portanto adoecem com mais facilidade. No convés da classe turística, poucas
são as enfermarias e o atendimento torna-se precário. Os médicos, além de
insuficientes, ganham uma fração infinitesimal do que ganham aqueles que
atendem no convés superior. Assim, devido à remuneração inferior e à
quantidade temerária de pacientes, trabalham aborrecidos e têm um tempo exíguo
para o atendimento.
O trabalho dos passageiros da classe turística é que dá sustentação à primeira
classe e ao seu hedonismo. Apesar de embarcados no mesmo navio, não lhes é
dado acesso ao outro convés senão para que dêem suporte aos passageiros
superiores.
A parte mais obscura do navio são seus porões. Neles viajam todo o tipo de
clandestino. São infestados por ratos e outras criaturas que comprometem o
ambiente, tornando extremamente insalubre e impróprio.
Os clandestinos são conhecidos por todos, mas vilmente ignorados. Assim, reina
nos porões a violência, a doença e a fome. Eles são os parias da embarcação e
vivem submetidos à sombra constante, sem qualquer acesso às luzes dos conveses
acima.
São numerosos e deles se comenta muito, mas nenhuma providência se toma em
relação a restaurar-lhes a dignidade.
Numa descrição sucinta, assim é o nosso navio Mundo. Uma nave cheia de
desigualdades e extremos. Entretanto, descuidando-se de sua navegação,
infringindo-lhe sucessivas avarias e tratando com descaso os seus passageiros,
vê-lo-emos ir a pique. E, neste dia, junto com ele, o comando, a primeira
classe, a turística, os clandestinos e todas as outras criaturas do porão.
Nada e ninguém se salvarão.
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