O
cachorro não late apenas para espantar baratas ou para intimidar um outro
companheiro peludo. O som de um animal de quatro patas pode dizer muitas
coisas, surpreendendo até mesmo os especialistas no assunto. Calma! Não
fique nervoso e deixe a carteira em cima da mesa. O pulguento não está
interessado em dinheiro, mas sim em comida, brincadeiras e, é claro, muitos
abraços.
As irmãs Debby e Diana, muito bem cuidadas por Thomas Büttcher, deitam-se
no chão, esticam as patas dianteiras e disparam um forte latido sempre que o
guitarrista da banda Bastardz faz alguma apresentação barulhenta em seu
quarto.
“Olho
para elas e tenho a sensação de que não estão gostando do som. É uma pena,
pois eu as adoro muito, trato como se fossem minhas filhas”.
Calma, Thomas, não é bem assim. Debby e Diana podem estar pedindo um pouco
mais de carinho, esclarece a veterinária Carolina Dias Gimenez, da Pet
Center Marginal.
“O
cão é capaz de chamar a atenção do dono sempre que necessário. Mas somente
tendo uma boa convivência com o cachorro é que o proprietário aprende a
linguagem de seu animal de estimação e a comunicação flui naturalmente”.
Mas, vamos adiante. Afinal, a comunicação canina não fica apenas nos
ruídos, garantem os estudiosos. É bastante comum os quadrúpedes usarem uma
parte do corpo, por menor que ela seja, para pedir algo. A Bichon Bolonhês
Brida, por exemplo, encosta o focinho na perna do cineasta Carlos
Reichenbach para dizer que está com vontade de passear.
“Se
eu não atendo aos cutucões de minha pequena e inteligente amiga, ela chora
desesperadamente. Meus três filhos já passaram dos vinte e cinco anos e ela
com certeza se tornou a criança da casa”,
relata o diretor, que se mostra um grande defensor da raça canina. A prova
disso são os números: ele já dividiu o lar com mais de trinta cães, das
diversas raças e tamanhos.
Já a Maltês Preta, de três anos, usa os dentes afiados e lasca uma mordida
no ator Marcelo Médici na tentativa de impedir a ida dele ao trabalho.
“Ela
segura o meu calcanhar com força, mostrando a sua insatisfação. É uma
verdadeira guerra que enfrento dia-a-dia. Mas, quando percebe que vai junto,
Preta se transforma e abana o rabinho para dizer que está feliz”,
dispara o ator, um dos destaques da novela Belíssima, da TV Globo.
Marco Antonio Gioso, professor de veterinária da Universidade de São Paulo
(USP), observa que há exceções.
“Alguns
animais abanam o rabo também quando estão estressados ou para revelar uma
irritação. Não há uma regra para esse tipo de comportamento canino. É
preciso estudar caso a caso”.
Tentar identificar o que o pulguento quer dizer ao abanar o rabo é tão
difícil para o dono de cachorro quanto acertar a mensagem que o peludo passa
ao mexer as orelhas. Tal complexidade motivou o desenvolvimento de estudos e
mais: vem encucando veterinários, que buscam explicar a comunicação canina.
“Cães
não são gente, por isso se comunicam também com as orelhas, levantando-as
para prestar atenção em alguma conversa e abaixando-as para mostrar
submissão ao dono ou a outro cachorro”,
exemplifica Marco, destacando que os quadrúpedes também se comunicam através
dos olhos.
O guitarrista Thomas e o ator Marcelo sabem muito bem disso. “Debby e
Diana lançam olhar de tristeza quando querem um abraço. Elas são corajosas,
pacientes, observadoras, amorosas e mansas, apesar de pertencerem à raça
Pastor Alemão. Com grande freqüência, eu faço uns agrados para retribuir a
dedicação de minhas companheiras”, diz o integrante dos Bastardz.
Marcelo também cede aos encantos de Preta. “Quando eu chego das gravações
da novela, os olhos de jabuticaba de minha amiga mostram que ela quer
brincar. Preta vai até a caixa de brinquedos, escolhe uma bolinha e vem
correndo em minha direção. Tiro o objeto da boca dela e arremesso longe.
Preta traz a bolinha de volta e a brincadeira recomeça. Ela é um ótimo cão
de companhia, mostrando-se, na maioria das vezes, muito dócil e carinhosa”,
elogia o ator, que é membro da Suipa, uma entidade que protege os peludos.
Depois de saber que os cães se comunicam pelo latido, mordida, orelha e
rabo, você deve estar se perguntando: os cães não dão risadas? Os
veterinários consultados pela Romano foram unânimes: não, os peludos
não exibem um sorriso, apesar de abrirem a boca e de colocarem a língua para
fora.
Bom, deixamos os sorrisos de lado e, agora que você aprendeu mais sobre a
linguagem canina, não descuide: o seu companheiro pode reservar algumas
surpresas não muito agradáveis, alerta o veterinário Marco Antonio Gioso.
“Se não forem compreendidos, os cães podem rasgar todo o papel higiênico do
banheiro, destruir o portão da casa, fazer as necessidades em local não
habitual e quebrar algumas coisas”.
P.S.:
Texto publicado na Revista Romano, edição 12
[
Página Inicial
]