O Rock Brasileiro vive um
passeio lunar
Por
Tiago Tellini
Imagens:
Reprodução

Sim. Novamente decolamos, é
claro que pode demorar alguns 10 anos para que este vôo tome proporções nas
estações de rádio das esquinas deste país, ou mesmo nunca apareça e fique
encoberto pelas nuvens da mesmice que vivemos hoje. Até aí, foda-se! Pois é
na esfera subterrânea, sem o pacto sanguinário comercial, onde decolamos
numa viagem de sinais visuais e fonéticos, através dos quais estabelecemos a
comunicação entre o fantástico e o real.
Uns dizem que isto é reflexo
dos anos 80, 70, 60(...). Pouco interessa,
porque o que meus olhos vêem é um reflexo de estrelas com brilhos
próprios,
que respiram, rastejam dentro do túnel que começou a ser cavado com Betinho
& Seu Conjunto, consolidando-se com a popularidade da
Jovem Guarda e com a “acidez” da Tropicália, que soma meio
século de
experiências elétricas, atitudes e imprudências, cozinhando a sopa
que nos
alimenta hoje.
Digo isto porque ultimamente meu caminho, 24 de Maio/Galeria/São João/Paulista/Consolação, me deixa sempre com uma novidade no fone de
ouvido, e o vagão lotado Corinthians-Itaquera segue mais colorido aos riffs
do movimento de bandas como “Os Skywalkers”, “Laranja Freak”,
“Mopho”,
“FuzzFaces”, “Laboratório-SP”, “Los Piratas”,
“Mombojó”,
“Pipodélica”, etc
(...) e, assim, ando embriagado.

Mopho

FuzzFaces

Pipodélica
Algumas destas vão grudando pelo espaço de minhas idéias, conquistando
endereços fixos na minha memória, assim como Av. Momento 68, Praça Graforréia Xilarmônica, Viaduto mundo livre s/a que corta a cidade Mutante
Arnaldo Baptista.
E tenho a sorte de entrar no Caffeine Estúdio com cinco reais e acordar
numa serigrafia sixtie rodeado pelo visual Vintage Mod, deixando escapar o
compasso das idéias, soltando alguns esbarrões de passos duros, suingados,
grudados ao chão, embalados na sujeira dos Migalhas (foto
acima). Digamos, um “Momento Tropitralhista”. Saio fedendo a cigarro com um sorriso de cada lado. Lembrar da primeira vez que ZenMakumba (Skywalkers) girou na minha
vitrola-player foi como voltar aos 8 anos de idade e ver de longe o PlayCenter do banco traseiro de um Voyage 1984 e, com o ingresso na mão,
vendo-o se aproximar, gritar: “Pai, quero andar em todos”!

ZenMacumba,
dos Skywalkers
Acordar num domingo, com aquela companheira dor de cabeça dos Martinis
Coisa e Tal, apertar o play e passear no astral(...). “Nada vai mudar, as
coisas são assim, já nem lembro, nem pensuuuu...” para depois sair
escorregando “Sob o céu de São Paulo” pelo rolamento do skate
nas curvas da
Zona Leste à 300 km/h, como diria o rei Erasmo!
Bem, o que mais posso dizer?
- Desejo isso até para os meus inimigos!
O gostoso é ver o descaso dos meios de comunicação, abrindo
espaço para os
fanzines, e-zines, blogs, que se espalham pelo país afora, fortalecendo
ainda mais a cultura underground do país.
Agradeço também à globalização que ao mesmo tempo que
nos oprime e nos faz
transbordar, toma esse mundo punk cibernético, formando um novo conceito,
uma nova-velha vida ao rock-garagem das periferias, uma auto-reciclagem que
preenche o coração desta juventude carente de perspectivas, de arte, de
diversão, de atenção. É sem dúvida um novo traço, um novo passeio
atmosférico, um novo rumo ao mundo que voltou a ser careta e que está
deixando de ser novamente. Posso dizer que estamos prestes a pisar na Lua
como em 1969.
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