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O Psicólogo


                                                  
                                                         

                                                                                                    Por Ricardo Caulfield
                                                                                                   Imagem: Reprodução


                                                     


  Robertinho avisou a Joca: o Jorge vai perder o pênalti! Ambos arregalaram os olhos em direção à tela de TV, em que passava o jogo. Mas, antes da cobrança, uma aposta:

  - Ele vai perder!

  - Não vai. Ele nunca perde pênalti. Aposto o que quiser.

  - Se ele fizer, te dou todas as minhas figurinhas. Se ele perder, eu vou fazer o que quiser contigo.

  - Tá – Joca não tinha a menor dúvida de que o craque ia converter a oportunidade. Os meninos esperaram:

  "Jorge ajeitou a bola... Tomou distância... Ele bate forte... PRA FORA! POR CIMA DO GOL DE RICARDO!"

  Robertinho, do alto de seus 12 anos, puxou Joca pela orelha, em direção à cozinha: "Venha!" Era o pagamento da aposta, que seria imediato.

  Em seguida, pegou a mão de seu amigo e colocou na tábua em que se corta queijo. E avisou:

  - Você perdeu a aposta, vai perder três dedos da mão direita!

  - Não! – o menino de 10 anos não esperava uma prenda tão pesada.

  - Você vai ter que aceitar! – avisava Joca, sadicamente, que havia escolhido a punição de olho no campeonato de botão que ia se organizar na rua: Robertinho sempre ganhava dele. Mas, sem alguns dedos, não dava nem para segurar a palheta. Joca tentou correr, mas Robertinho trancou a porta. Delineava-se uma briga quando a dona da casa chegou:

  - Que bagunça é essa, meninos? – perguntou Edna, que era mãe do Joca.

  - Joca perdeu a aposta e não quer pagar!
 
  - Verdade, Joca?
 
  - Mãe, ele quer arrancar os meus dedinhos!
 
  - Era essa a punição para quem perdesse?
 
  - Se Robertinho perdesse, ia me dar as figurinhas.
 
  E como você perdeu, vai perder os dedos. É isso?
 
  - É – responderam os meninos.

  - Aposta é aposta, Joca. Se você não desenvolver sua fibra, será um frouxo. Uma vergonha para a família – decidiu Edna, já segurando a mão do filho para que o primogênito do vizinho efetuasse a "operação". O garoto gritava. Mas antes que acontecesse o pagamento da aposta, Cesinha, o pai, chegou em casa. E todos tiveram que explicar a história novamente. Cesinha coçou a cabeça e pensou. No silêncio, dava para ouvir, da cozinha, a narração do jogo. Faltava cerca de 10 minutos para terminar a partida. Então o homem teve uma idéia:

  - Eu aposto que vai ocorrer outro pênalti, e dessa vez, o Jorginho vai converter. Se eu ganhar a aposta, Robertinho, você libera o Joca. Se eu perder a aposta, pode cortar a mão inteira dele.

  - Feito! – aceitou Robertinho, agora certo de que não haveria a menor chance de Joca voltar a vencê-lo no botão, sem a mão.

  A família e Robertinho sentaram-se em frente ao sofá e acompanharam os minutos finais da partida. Aos 40, Luiz invadiu a área e chutou por cima do travessão. Aos 44, Luiz recebeu livre novamente, driblou o goleiro, mas levou uma rasteira muito da cara-de-pau do zagueiro (que devia tentar a sorte no judô). Penalidade máxima. Jorge pegou a bola. Ia cobrar novamente.

  "Lá vai o craque da camisa 10... Correu... Chutou... GOOOOOOOOLLLL!!!" Joca chorou, nervoso e aliviado.

  À noite, Cesinha conversou seriamente com Edna.

  - Graças a Deus, aquele jogo era videoteipe do jogo de ontem, e eu tive aquela idéia salvadora. Você, não sei onde tem a cabeça! Meu filho ia ficar sem os dedos! Você lembra do meu apelido de juventude? "César Dedos Leves". Até hoje há quem me chame assim. Então, o filho de César Dedos Leves ia ficar sem os dedos!?!? Como ele vai apertar o gatilho de um revólver, se não tiver os dedos??? E por você, isto teria acontecido! – a essa última frase, seguiu-se um pequeno murro do homem em direção ao rosto da mulher. Ela caiu, o nariz sangrando. O homem ainda chutou-lhe as pernas, três vezes. Foi quando Joca surgiu chorando e gritando pela mãe.

  Aquilo era a gota d'água! Chorar duas vezes no mesmo dia não era coisa que um homem ou, pela idade do guri, projeto de homem, deve fazer. Cesinha sentiu-se enojado. Aquele garoto ia se tornar uma moça se continuasse assim! Decidido, o homem deu uns telefonemas e levou o menino para um de seus pontos de encontro, onde funcionavam seus negócios. Lá dentro havia outros quatro homens, que se espantaram ao ver que César levou o filho.

  - Lembra aquele serviço que eu disse que queria fazer pessoalmente? – perguntou Cesinha a um dos caras mal encarados que ali estavam.

  - Certo, certo. Tá lá dentro esperando por você – explicou o sujeito, e quem visse a cena perceberia que o pai do Joca era o manda-chuva ali. Pai e filho entraram no quarto indicado.

  Ali estava um homem acorrentado, a roupa suja de sangue em vários pontos. O pobre diabo estava vendado.

  - Este homem é uma das piores escórias da Terra. Quero que você faça o serviço – disse César, colocando uma pistola na mão do filho. O garoto olhou o homem, segurou a arma, olhou o homem novamente. Em seguida, largou a pistola no chão, saindo do quarto, em disparada. César ficou puto. O prisioneiro sorria, mesmo vendado, ele sabia que alguém havia adiado sua execução. Mas o sorriso durou pouco, logo uma bala certeira espalhou seus miolos pelas paredes cinzentas do cômodo. O filho decepcionou César, a execução foi uma forma de "aliviar o estresse".

  Saindo do quarto, o pai encontrou o filho abraçado a um dos homens. O garoto tinha os olhos vermelhos de choro. Novamente.

  - Você está chorando por causa daquele traste que eu matei? Você sabe o que ele fez com o Tio Joe? – o criminoso pegou o filho pelo braço e o levou até um outro aposento.

  A visão de grandes pedaços sangrentos de carne chocou o menino, que desmaiou instantaneamente. Dessa vez, o pai não se irritou. Logo em seguida, entrou Bill, um dos homens que havia presenciado a cena toda, acompanhado dos demais, e perguntou:

  - Meu Deus! Eu pensei que o Tio Joe estivesse na Flórida! – e desmaiou também. César e os outros homens caíram na gargalhada. Bill era muito alienado. Todos ali sabiam que aquela carne havia sido comprada no açougue para o churrasco de confraternização do fim de mês. E o que Cesinha havia dito sobre aquele filé ser Tio Joe, era apenas uma maneira de ir tornando o garoto menos vulnerável às visões que sua futura profissão lhe aguarda.


 

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