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desde
13/07/2003
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O
Psicólogo
Por
Ricardo Caulfield
Imagem:
Reprodução

Robertinho avisou a
Joca: o Jorge vai perder o pênalti! Ambos arregalaram os olhos em direção à
tela de TV, em que passava o jogo. Mas, antes da cobrança, uma aposta:
- Ele vai perder!
- Não vai. Ele nunca perde pênalti. Aposto o que quiser.
-
Se ele fizer, te dou todas as minhas figurinhas. Se ele perder, eu
vou fazer o que quiser contigo.
-
Tá – Joca não tinha a menor dúvida de que o craque ia converter a
oportunidade. Os meninos esperaram:
"Jorge ajeitou a bola... Tomou distância... Ele bate forte... PRA FORA! POR
CIMA DO GOL DE RICARDO!"
Robertinho, do alto de seus 12 anos, puxou Joca pela orelha, em direção à
cozinha: "Venha!" Era o pagamento da aposta,
que seria imediato.
Em seguida, pegou a mão de seu amigo e colocou na tábua em que se corta
queijo. E avisou:
-
Você perdeu a aposta, vai perder três dedos da mão direita!
- Não! – o menino de 10 anos não esperava uma prenda tão pesada.
- Você vai ter que aceitar! – avisava Joca, sadicamente, que havia
escolhido a punição de olho no campeonato de botão que ia se organizar na
rua: Robertinho sempre ganhava dele. Mas, sem
alguns dedos, não dava nem para segurar a palheta. Joca tentou correr, mas
Robertinho trancou a porta. Delineava-se uma briga
quando a dona da casa chegou:
- Que bagunça é essa, meninos? – perguntou Edna, que era mãe do
Joca.
- Joca perdeu a aposta e não quer pagar!
- Verdade, Joca?
- Mãe, ele quer arrancar os meus dedinhos!
- Era essa a punição para quem perdesse?
- Se Robertinho perdesse, ia me dar as figurinhas.
E como você perdeu, vai perder os dedos. É isso?
- É – responderam os meninos.
- Aposta é aposta, Joca. Se você não desenvolver sua fibra, será um frouxo.
Uma vergonha para a família – decidiu Edna, já
segurando a mão do filho para que o primogênito do vizinho efetuasse a
"operação". O garoto gritava. Mas antes que
acontecesse o pagamento da aposta, Cesinha, o pai, chegou em casa. E todos
tiveram que explicar a história novamente. Cesinha
coçou a cabeça e pensou. No silêncio, dava para ouvir, da cozinha, a
narração do jogo. Faltava cerca de 10 minutos para
terminar a partida. Então o homem teve uma idéia:
- Eu aposto que vai ocorrer outro pênalti, e dessa vez, o Jorginho vai
converter. Se eu ganhar a aposta, Robertinho,
você libera o Joca. Se eu perder a aposta, pode cortar a mão inteira dele.
- Feito! – aceitou Robertinho, agora certo de que não haveria a menor chance
de Joca voltar a vencê-lo no botão, sem a mão.
A família e Robertinho sentaram-se em frente ao sofá e acompanharam os
minutos finais da partida. Aos 40, Luiz invadiu
a área e chutou por cima do travessão. Aos 44, Luiz recebeu livre novamente,
driblou o goleiro, mas levou uma rasteira muito
da cara-de-pau do zagueiro (que devia tentar a sorte no judô). Penalidade
máxima. Jorge pegou a bola. Ia cobrar novamente.
"Lá vai o craque da camisa 10... Correu... Chutou... GOOOOOOOOLLLL!!!" Joca
chorou, nervoso e aliviado.
À noite, Cesinha conversou seriamente com Edna.
- Graças a Deus, aquele jogo era videoteipe do jogo de ontem, e eu tive
aquela idéia salvadora. Você, não sei onde tem a
cabeça! Meu filho ia ficar sem os dedos! Você lembra do meu apelido de
juventude? "César Dedos Leves". Até hoje há quem me
chame assim. Então, o filho de César Dedos Leves ia ficar sem os dedos!?!?
Como ele vai apertar o gatilho de um revólver, se
não tiver os dedos??? E por você, isto teria acontecido! – a essa última
frase, seguiu-se um pequeno murro do homem em direção
ao rosto da mulher. Ela caiu, o nariz sangrando. O homem ainda chutou-lhe as
pernas, três vezes. Foi quando Joca surgiu
chorando e gritando pela mãe.
Aquilo era a gota d'água! Chorar duas vezes no mesmo dia não era coisa que um
homem ou, pela idade do guri, projeto de
homem, deve fazer. Cesinha sentiu-se enojado. Aquele garoto ia se tornar uma
moça se continuasse assim! Decidido, o homem deu
uns telefonemas e levou o menino para um de seus pontos de encontro, onde
funcionavam seus negócios. Lá dentro havia outros
quatro homens, que se espantaram ao ver que César levou o filho.
- Lembra aquele serviço que eu disse que queria fazer pessoalmente? –
perguntou Cesinha a um dos caras mal encarados que ali estavam.
-
Certo, certo. Tá lá dentro esperando por você – explicou o sujeito, e quem
visse a cena perceberia que o pai do Joca era o manda-chuva ali. Pai e
filho entraram no quarto indicado.
Ali estava um homem acorrentado, a roupa suja de sangue em vários pontos. O
pobre diabo estava vendado.
- Este homem é uma das piores escórias da Terra. Quero que você faça o
serviço – disse César, colocando uma pistola na
mão do filho. O garoto olhou o homem, segurou a arma, olhou o homem
novamente. Em seguida, largou a pistola no chão, saindo
do quarto, em disparada. César ficou puto. O prisioneiro sorria, mesmo
vendado, ele sabia que alguém havia adiado sua
execução. Mas o sorriso durou pouco, logo uma bala certeira espalhou seus
miolos pelas paredes cinzentas do cômodo. O filho
decepcionou César, a execução foi uma forma de "aliviar o estresse".
Saindo do quarto, o pai encontrou o filho abraçado a um dos homens. O garoto
tinha os olhos vermelhos de choro.
Novamente.
- Você está chorando por causa daquele traste que eu matei? Você sabe o que
ele fez com o Tio Joe? – o criminoso pegou o
filho pelo braço e o levou até um outro aposento.
A visão de grandes pedaços sangrentos de carne chocou o menino, que desmaiou
instantaneamente. Dessa vez, o pai não se
irritou. Logo em seguida, entrou Bill, um dos homens que havia presenciado a
cena toda, acompanhado dos demais, e perguntou:
- Meu Deus! Eu pensei que o Tio Joe estivesse na Flórida! – e desmaiou
também. César e os outros homens caíram na gargalhada.
Bill era muito alienado. Todos ali sabiam que aquela carne havia sido
comprada no açougue para o churrasco de
confraternização do fim de mês. E o que Cesinha havia dito sobre aquele filé
ser Tio Joe, era apenas uma maneira de ir
tornando o garoto menos vulnerável às visões que sua futura profissão lhe
aguarda.
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