
O Rio viveu um dia de
Canudos. A capital fluminense presenciou na última quarta-feira,
27, a maior operação policial da história do país. Mais de 1,3 mil
“homens da lei” invadiram o morro do Complexo do Alemão. Mataram
pelo menos 19 pessoas e feriram outras tantas. Mas não tinha
nenhum Antônio Conselheiro. E não havia resistência popular armada
alimentada pela fé.
De comum em relação a
Canudos o que havia era o eterno desejo que o Estado tem pelo
controle, custe o que custar. Por falar em custo, se o preço a ser
pago pela manutenção do controle for de vidas de pessoas pobres,
tudo fica mais fácil. Afinal, para essas pessoas a Justiça não
funciona. Elas só têm valor para o Estado quando se aproximam as
eleições.
Fala-se tanto em impunidade dos criminosos... E quanto à impunidade do
Estado? Entra sem bater, atira primeiro e pergunta depois, mata e
enterra como indigente, e daí? Para evitar problemas, os mortos
são sempre classificados como traficantes. O ônus da prova cabe à
família da vítima, não ao Estado assassino, em uma flagrante
inversão das leis desse mesmo Estado.
A política de segurança pública do Rio de Janeiro é um desastre há
décadas. Aqui adotou-se a estratégia do confronto permanente.
Criou-se um círculo vicioso. A polícia mata um, os traficantes
matam dois para revidar, a polícia mata três como vingança e por
aí vai. No meio desse fogo cruzado, quem paga a conta são milhares
de pessoas pobres e honestas que vivem nas favelas. As crianças
dessas comunidades não têm medo de bruxas ou Bicho-Papão. Têm medo
é do Caveirão, o carro blindado da PM que percorre as favelas
atirando a esmo e entoando canções de terror que marcarão para
sempre a vida das crianças do local.
Este ano a violência policial parece ter se intensificado no Rio. Só no
Complexo do Alemão já morreram cerca de 60 pessoas em três meses,
vítimas dos confrontos entre policias e traficantes. Tudo isso a
troco de quê? De uma tentativa de limpar a cidade às vésperas dos
Jogos Pan-Americanos. Matam os traficantes, matam os favelados e
varre-se a pobreza para debaixo do tapete vermelho que se
estenderá às delegações de atletas. Um tapete vermelho de sangue.
Uma vergonha para a cidade, para os cariocas e para o Brasil.
Para quem quiser se
aprofundar no tema, recomendo os seguintes websites:
*
Caveirão Não:
http://www.caveiraonao.org
*
Observatório das favelas –
http://www.observatoriodefavelas.org.br
*
Rio Body Count -
http://www.riobodycount.com.br
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