Texto:
Dimetrius Ferreira
Leandro Menezes
Renata Marques
Rafael F.
Imagens:
Danilo Guanabara

Em tempos de leis de incentivo à
cultura, quando não se consegue apoio na continuidade de um projeto, o que
fazer? “Se readaptar, oras!”. Dessa maneira, foi realizada a terceira edição
do Festival DoSol: enxuga daqui, encolhe dali, e assim se manteve o espírito
da festa com o brilho reforçado pela força de vontade aliada à coragem de
arriscar.
O Festival DoSol cumpriu o prometido: 47 bandas, 26 horas
de música,
descontração e muito rock and roll. E se há males que vêm para o bem, o
formato da nova edição encaixou perfeitamente no porte do Festival. De
maneira inteligente, os shows foram distribuídos para duas casas: Armazém
Hall (palco maior) e DoSol Rock Bar (palco menor), o que deu um clima mais
intimista ao evento, onde circularam 4.500 mil pessoas, em média, nos três
dias. O que fez falta foi um espaço alternativo melhor, como nas edições
passadas, onde as bandas pudessem dispor o
“merchan”
e assim fazer girar o
“mercado
financeiro independente”,
onde bottons, camisetas, cd's e adesivos são tão valorizados.
Se por um lado houve linearidade por parte da organização do evento, sem
tumultos e com horários e ordens de apresentações respeitadas, a sonoridade
musical foi diversa e frenética, destaque para o sábado, com 20 bandas
tarde-noite adentro. Surpresa ou coincidência, a maioria das bandas que
tocaram no Festival era formada por
“power
trios”.
É um sinal de que a velha fórmula “baixo+guitarra+bateria” continua sendo a
essência da coisa. Entre tantas apresentações no Festival é até difícil não
ter preferências ou apontar destaques...
1º dia
Sexta-feira 20h começa pontualmente o festival DoSol. Sem mais delongas,
iniciam as atividades duas bandas da nova safra rock and roll da cidade, Brand New Hate, mandando um som energético com pitadas
rock [pop] britânica, e o Baby Please, com seu
rock and roll descompromissado. A noite estava só esquentando quando sobe ao
palco os paraibanos do MotherHell, destruindo tudo
com seus riffs setentistas e uma potência sonora que fez lembrar o Motorhead.
Dando seqüência às atividades sonoras, sobe ao
palco os locais do Vitrola, tocando as canções dançantes do seu recente
disco. Colocou a galera pra balançar ao som do bom e
velho rock and blues. Nesse meio tempo quem segurou a galera foi o Monophone
[CE],
com um pop’n’roll em português bem executado, e
o Peixe Coco [RN], com as guitarras sempre criativas de Caio Vitoriano. O
público já lotava o local quando o Distro [RN] mandou
o seu rock garageiro influenciado pelo post hardcore dos anos 90. Energia e
fluição de bons riffs. A noite ganhou mais
empolgação quando The Sinks [RN] subiu ao palco tocando canções do seu recém
lançado ep “Ignored”, que poderia estar em
qualquer prateleira de alguma loja perdida em Seattle. Aproveitando o clima
overdrive vem o Cascadura [BA], com seu rock
vibrante mais que sincero, de quem já está na estrada há muito tempo. Munido
de boas letras e ótimos riffs, o Cascadura é a
prova da resistência [e persistência] em empunhar uma guitarra e fazer
barulho até o ouvido sangrar.

Dando uma amansada nos amplificadores, o Volver [PE] executou boas canções,
embalando a galera com sua sonoridade “Jovem
Guarda”. Chegada a vez do Vamoz!, o power trio pernambucano de guitarras
endiabradas demonstrou no palco o seu já conhecido e
sempre visceral rock duro. Set rápido, intenso, mesclando músicas do velho e
do novo álbum, sinceramente: Rock duro e alto... FYA BABY!!!
Depois da paulada do Cascadura e do Vamoz!, ficou difícil para o Moptop [RJ]
empolgar os mais exigentes. Apresentação morna e
funcional. Quando aqueles mais sonolentos cochilavam pelos cantos, com
certeza, acordaram assustados com as cordas nervosas
do Bugs [RN]. Velha conhecida do público e figura presente nos grandes
festivais independentes, a banda tocou as canções mais
que envenenadas do seu mais novo álbum: Exílio. Resumindo: Rock cru e
esfumaçado. A maratona da primeira noite chega ao fim,
com o público aguardando os gaúchos do Cachorro Grande, que executaram um
show contagiante e que ficou a contento dos
presentes.
2º dia
Por volta das 15:30h, começa a maratona do segundo dia de Festival na Rua
Chile, no bairro da Ribeira. Quem teve energia e
disposição pra levantar da cama e chegar cedo presenciou a apresentação dos
potiguares do Toy Gunz e do Lótus, seguido pelos
paulistanos do Seks Collin.
Com o público ainda pequeno, o Fliperama [RN] mandou seu punk rock bubblegum
sem medo de ser feliz, para um público jovial e
cheio de energia. O tempo parecia passar rápido quando o Joseph K? [CE]
subiu ao palco, destilando seu rock apimentado com
uma pegada bem pop. Entre uma cerveja e outra, é a vez dos mineiros do Enne.
Guitarras altas e pesadas fizeram lembrar bastante
do tempo e da sonoridade de seus conterrâneos do Diesel [Udora]. Agradou o suficiente e esquentou os ouvidos para a
apresentação do Arquivo [RN], que mandou seu rock punk de harmonias
dissonantes e sensibilidade rítmica de quem conhece do
assunto.
Correndo de um lado para o outro, entre os dois palcos, começa sem muita
pausa o Stellabella [RJ]. Este power trio carioca
tentou mas não conseguiu convencer muito o público, apesar das boas canções
de uma levada pop/distorcida. E por falar em
distorção, o Red Run [CE] fez uma apresentação redondinha, com uma pegada
overdrive bem anos 90, prontos pra sair da garagem
e ganhar os palcos do Brasil. Dando seqüência, chega a vez do Allface [RN]
que, com seu punk rock melódico, fez a galera
cantar junto e o público juvenil se emocionar.
Sem choro nem vela é chegada a hora do Rockefellers [GO], com pegada hard rock,
riffs e solos infernais, fez o público ir à
loucura e presenciar um dos melhores shows do Festival. Depois da chicotada
sonora dos goianos, duas bandas potiguares, Jane
Fonda e Zero8Quatro, velhas conhecidas do público local, fizeram suas
apresentações dentro do esperado: canções pop cantadas
em coro. Deixando a tietagem de lado, os goianos do Violins fizeram uma
apresentação que exigia atenção do público. Execução
impecável, conduzida com muita emoção [sem ser piegas, claro!], de quem já
está acostumado aos palcos dos grandes festivais.
Já no outro palco, ouvíamos a pegada eletro rock do Lucy and the Popsonics
[DF], do simpático casal que tocou energéticas
canções, transformando o palco do DoSol numa grande festa eletro punk. Sendo
assim, o público já estava endiabrado para ver um
dos shows mais insanos do Brasil.

Chega a vez do The Honkers [BA]! Insanidade elevada a mil, com direito
às
peripécias e traquinagens de Rodrigo Sputter
[vocal], que subiu nos PA's, nas janelas ao fundo do palco do Armazém Hall,
rolou no chão, cuspiu cerveja, bulinou seu colega
guitarrista, fez o diabo no palco. O Honkers demonstrou que tem potência
rockeira e sabe cativar o público. Precisa mais?
Aproveitando o clima de loucura rocker, o Zeferina Bomba [PB] mostrou para
que veio. Violão eletrozumbificado dos diabos,
vocal nervoso, fez o público se debater durante toda apresentação. Dona
Zeferina nessa noite soltou suas bombas, um viva a
esses paraibanos cabras de pêia. Ficou difícil para o Supergalo [DF]
sustentar a insanidade da noite. Fizeram um show
certinho, com boas canções de uma banda formada por músicos experientes. Já
rolava a madrugada e a maratona chegava na
penúltima volta. Dessa vez, Os Bonnies [RN] mandaram seu rock and roll numa
lapada só. Como sempre: insanos, barulhentos e mal
encarados. Na última volta, quem teve perna pra agüentar viu o show do Rock Rocket [SP] com stage dives no mínimo engraçados
e algumas cervejas cuspidas ao alto.
3º dia
Domingo, último dia. Aqueles que não foram pagar os seus pecados na missa,
tiveram a oportunidade de ver o dia mais infernal
do Festival. Peso, distorção, camisas pretas e guitarras com chifres foram a
tônica do dia de encerramento. Além de um
público muito participante, que formou rodas de pogo nervosas em
praticamente todos os shows. A tarde inicia com uma seleção
de peso potiguar: Traumam, Psicomancia, Ravanes e Comando Etílico. Após as
pratas da casa, destaque para as bandas cariocas Ataque Periférico e
Jason, que fizeram energéticas apresentações.
O desconhecido trio estrangeiro The Nation Blue [AUS], pela primeira vez no
Brasil e em turnê com os cariocas do Jason país a
fora, foi uma boa surpresa. Com a moral de quem abriu shows do Helmet e Foo
Fighters, fizeram uma apresentação insana. Os
vocais gritados, divididos entre Tom Lyngcoln [guitarrista] e Matt Weston
[baixista], lembraram o velho e sempre bom Hot
Water Music ou a menos conhecida Small Brown Bike. Sem contar na
apresentação ora esquizofrênica, ora doentia de Lyngcoln,
com direito a sangue escorrendo na testa e tudo. Das garagens da Austrália
para o mundo, uma banda ótima!
Levante e Expose Your Hate foram, sem sombra de dúvidas, as pratas da casa
mais pesadas. Trocadilhos à parte, quem viu o show
dessas duas bandas, na seqüência, com certeza não saiu arrependido. A
violência sonora tomou de conta da festa e dos tímpanos
da galera. Os da gente estão zunindo até agora, o que não significa que não
gostamos, entenderam?!
Destruindo as últimas caixas de cerveja sobe ao palco o Drunk Driver [RN]
derramando sonoridade drunk rock, rápido e
violento. Fechando em alto estilo, o Matanza [RJ] fez muitos cantarem juntos
e se esbaldarem numa tremenda roda de pogo,
inédita na edição 2007 do Festival DoSol. O cenário final do Festival foi
bonito de se ver, com o Armazém Hall
praticamente lotado, tomado por jovens e adultos entusiastas, em uma
comunhão profana coletiva, o “carismático” Jimmy e sua
corja de beberrões, prendeu todo mundo até o final, com muita conversa fiada
e barulho que divertiu até os mais avessos a
banda.

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http://www.festivaldosol.com .
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