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Terceiro momento
Por
Éverton Luiz Cidade
Imagem:
Sérgio Rodriguez

Devia ter sido um
yuppie.
Tenho idade pra isso. E gosto de cocaína. Entre as revistas que cata,
esse que não sou eu, mas tem a minha cara, se prende numa foto em P&B. Ele conhece
a moça, mas não se lembra. Mas, um dia, nunca, a prece toma o lugar da memória.
É preciso fugir a morder uma corda antes já roída.
Dentes, amor, dentes, dentes, amor. Esse aí que não sou e coça o saco e agora
acende um cigarro. Que não lhe pertence, parece ainda insatisfeito. Esse aí, que
tem a minha cara e não sou eu, pensa em cortes. Fundos doloridos, e por isso
prazerosos. Conheço tuas luzes. Comprei casacos usados. Esperei trotes
telefônicos pra ouvir uma voz alheia. As da minha cabeça me entediam. Carretéis
de linha em garrafas plásticas, luzinhas de Natal queimadas, canetas que não
escrevem, ventiladores sem hélice, carcaça apenas carcaça, bermudas que não mais
me servem, cestos de Páscoa vazios, sacolas e mais sacolas de empórios e
supermercados - essa é a minha vida.
Disto me alimento.
Desse não
ter.
Desse não ser.
Desse te chamar.
Desse teu não vir.
Desse teu não estar.
Desse ouvido meio surdo.
Que só ouve fantasmas e o espírito santo. Que não reconhece tua voz, mas sabe
que é a tua voz.
Uma
Coisa
É
Certa: as safadezas que me fizeram cá estão todas. Doendo ainda. Todas
sacanagenzinhas que me aprontaram, cá estão todas.
Fervendo em meu
estômago.
Tudo indica o não. O não me agoura desde quando parido a
muito custo. Quebrando. Vim a esse mundo de infelicidade quebrando ossos.
Esse aí que não sou eu, que agora senta na cama estreita e liga a televisão,
sabe disso. Sabe por que tem a minha raiva e a minha angústia. Tem o meu rancor
criando um câncer preto e sujo espumoso gelatinoso e tal. Ainda é perto o que
nos une. O estômago dilatado, o coração contraído, a alma devastada e lavada em
humilhação. O que me pagavam era melhor que nada.
Dentro dele,
dentro de mim, habitava um anjo calmo e bem vestido. Mãozinhas fofas e
camaradagem. Não tocava harpa, mas cantava canções de amores nunca alcançados em
harmonias quebradas e voz tranqüila. Mas tal anjo foi mudando e começou aos
poucos a andar curvado e cantar aos gritos.
Achar deboche em
tudo. Foi apodrecendo. Definhando. Amarelando os dentes até que caíssem. As
unhas, outrora limpas, bem cuidadas, pintadas com azul celeste, caindo também,
fazendo com os dentes, os cabelos e os cílios uma máscara mortuária que agora
uso em lugares públicos. Não há mais música dentro de mim. Não há mais intenção
de amor dentro de mim. Me tiraram isso com uma facilidade maior do que me
parecia possível, me espancaram com balões de gás num circo. Ataram minhas mãos
e meus pés. Com panfletos comunistas reacionários e movimentos comportamentais
de 1968.
Uma vez, quando fui feliz, eu ousei crer. Uma vez, quando fui feliz, eu
ousei me abrir. Agora, me cabe melhor tal máscara mortuária. Não a uso com
orgulho. A uso por que assim são os atos que se seguem aos fatos. Esse que te
aguarda sair do banho de cabelo molhado, sem calcinhas e com o corpo perfumado,
esse que aí, que tem minha cara e não sou eu, sabe. Sabe por que veste tal
máscara.
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Uma série
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Interlúdio
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Parte 1
***
*
Segundo Texto
*
Lilith Lego |