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 Para quem esperou pelo sol

                                                  
                                                         

                                                                    Por
Ricardo Alexandre G.
 
Imagens:
Michael Paz Frantzeski
 

      
(...) Well, show me the way
To the next whiskey bar
Oh, don't ask why
Oh, don't ask why (...)
trecho de "Alabama Song", The Doors

  Éramos cinco, quase nome de livro, hein? Eu, minha companheira, um amigo e suas duas companhias, pequeno grupo que a pouco fora formado, coisa de encontro na estação... Três mais dois, cinco, talvez uma ameaça ao segurança do Pepsi On Stage, em Porto Alegre (RS), que perdeu de ouvir "Alabama Song" quando moleque e não quis me mostrar o caminho:

  - Boa noite, com licença, poderia me mostrar o caminho? - para poupar de escrever ao leitor que eu queria saber o acesso à casa.

  Pela resposta do mancebo, tentei encontrar uma embriaguez na qual eu não estava, deu uma sensação de ter dito abertamente que ainda agora estava com a mulher e na casa dele... Ou que o meu Português era um dialeto para o nível do guardião, traduzi, peguei o dicionário na cabeça em rápidos segundos, vi má-vontade e preferi não continuar. A inflada nas narinas do The Bodyguard não era um bom cartão de visitas, se repetisse a minha dúvida provavelmente seria um homem não morto, mas hematoma é foda. No show dos Riders on the Storm, metade do time do The Doors, a porta do whiskey bar do Alabama porto-alegrense até estava aberta, porém não bem lubrificada.
 

(...) Your life's complete
Follow me down
Can't you see me growing, get your guns
The time has come (...)

trecho de "Tell All The People", Robby Krieger

 

  O papo do Robby Krieger, logo acima, não agradou nem ao Morrison, na época do "The Soft Parade", de 1969. Segundo as lendas roqueiras, cada um assinou as respectivas composições, sem atribuir à banda, fruto da objeção do Jim a cantar o trecho que quase sobrou pra mim, haja vista a recepção à la Os Imperdoáveis: pegar em armas. Desarmado e sem porquê para perigoso, saí pela tangente, como o Rei Lagarto (e o Leão da Montanha) que não quis cantá-la...

  Os 30 segundos de Desejo de Matar, detalhe que na história eu não era o Charles Bronson, foram suficientes para o trio seguir para um lado e a dupla para outro. Eu não teria a chance de ver "Os Doors do Século XXI" ao lado do Presidente do Tribunal de Nuremberg, de São Leopoldo (RS), uma Turma do Amendoim nos jogos do Palmeiras no Parque Antactica, ou em Português não criptografado, 8 ou 10 que se espraiam em alguns shows e ai das afinações... Pobres notas erradas, júri que nem Krieger deve ter sido salvo...
 

(...) Made the scene from week to week
Day to day, hour to hour
The gate is straight
Deep and wide
Break on through to the other side (...)
trecho de "Break on Through", The Doors


  Atravessamos para o outro lado. O que interessava, ver e ouvir o que discos e mil imagens trouxeram de expectativas quando o espetáculo é de uma grande banda como os Doors/Riders on the Storm, verbetes no dicionário do Rock. Sem preocupação de separá-las, apesar dos desfalques do time, prontamente substituídos num jogo que poderia ter terminado. E esse é o lance, é o que me fez esperar e talvez ser um dos últimos a citar a passagem do quinteto pelo Brasil, juntei na memória o que assisti em
Ainda Muito Loucos (Still Crazy), filme muito interessante e que consagra uma banda que não existiu, a Strange Fruit, vale a curiosidade em torno dele. Bandas que voltam... Mercenários como os Pistols? Metade do time como o Led Zepellin? Perda de tempo, ruim mesmo é a volta dos que não foram, que pegaram carona nestes ventos filmados e antecipados na Inglaterra, final da década de 90. Na era glacial neoliberal, ou se preferir década 2000, saem os covers, entram as reuniões! Dito e feito, só que ninguém contava - mas era óbvio - com o retorno - olhe a volta dos que não foram aí! - dos covers a ocupar a lista de atrações dos bares. No máximo, trabalhos que "reúnem o pessoal" de duas ou três bandas da hora e fazem um som conceitual... :(


(...)
Riders on the storm,
into this house we're born,
into this world we're thrown
like a dog without a bone,
an actor out alone
(...)
trecho de "Riders on the Storm", The Doors


  Com trombetas de Carmina Burana para anunciar a cavalaria, não tem pra ninguém a "parceria" dos californianos com Carl Orff, verdadeiro autor. Aliás, difícil não lembrar do Jim Morrison durante a execução desta música... Ou da estátua cara de pau (de mármore, talvez), num cemitério de Paris, que fecha filmes como "The Doors", de Oliver Stone, e  "The Doors - Live in Europe 1968" e a única tour do então quarteto pela Europa.

  Ty Dennis (bateria), Phil Chen (baixo e camisa à la Grêmio) e Brett Scallions (vocal) juntaram-se a Ray Manzarek (teclados, vocais e doses de cachaça) e Robby Krieger (guitarrista), eles mesmos. Sai "O Fortuna" de Carmina Burana e chega "Love Me Two Times", em ponto, 22 horas, pontualidade para dois jovens senhores... Talvez cinco mil pessoas assistiram à avalancha de êxitos. Os detalhes, que tanto importavam num outro canto "Rock" da cidade, tipo "se é hype ou não é" (blergh!), ao lado do Aeroporto Salgado Filho o céu era de brigadeiro, uma amostra de parte da mística dos Doors. Profissional na batera, baixista oriental que já tocou com Ray Charles, Peter Frampton, Chuck Berry, para citar alguns... Não seria o vocalista, por não ser o Jim, que pagaria a conta; a sua antiga banda, "Fuel", apesar de parecida com mais umas 7 ou 8 do final dos anos 90 e início desta, efetivou Scallions como cavaleiro da tempestade. Tem também uns vídeos que circulam na www nos quais ele canta ao lado de Duff McKagan e Slash, do Guns 'n' Roses, mais para front man que an american prayer.


(...) So when the music's over
When the music's over, yeah
When the music's over
Turn out the lights (...)
trecho de "When The Music's Over", The Doors
 

  Então a música teria que terminar, a tempestade iria dar lugar ao sol, esperado a partir de quando um saudoso amigo, num whiskey bar do interior do Brasil, recinto de tacos de sinuca e testosterona, onde progesterona dificilmente entrava sequer para comprar a caixa de palitos de fósforos que acabou perto do almoço... Saí de lá com o "kit The Doors" semicompleto, quarteto no Hollywood Bowl, discos, VHS, letras traduzidas, toda a preparação involuntária para o 12.04.2008. Após passarem sambinhas encachaçados, maracas xamânicas e covers como "Gloria", do Them de Van Morrison, ou a decantada "Alabama Song (Whisky Bar)", sempre junta de "Back Door Man", as duas do primeiro álbum, de 1967. Sol e fogo acendidos, da épica "Waiting For The Sun" no meio e "Light My Fire", desconstruída na saideira, as portas abriram um déjà vu de primeira viagem... Sem acompanhar a "Spanish Caravan", por favor!

 


Morrison Hotel 2, Paris (Reprodução)

 

  Saiba mais: 
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