
Da leitura de diversas publicações (revistas,
livros, sites, blogs, etc.), tenho percebido uma visão – às vezes explícita, às
vezes latente - no sentido de que o Rock brasileiro dos anos 80 do século 20
representou o momento verdadeiramente
culminante deste estilo musical na história e no universo da música popular
brasileira - precedendo às grandes vendagens
também verificadas nos anos 90 e 2000 -, ao passo que o Rock brasileiro dos anos
70 teria se constituído apenas em um esboço
um tanto tosco, embora heróico, da trajetória que o ritmo viria a ter na década
seguinte. Contudo, sem querer negar que o Rock brasileiro nos anos 80 passou a ter uma visibilidade midiática e vendagem
de discos muito superior às verificadas nos
anos 70, além de revelar-se, de um modo geral, como uma produção de grande valor
artístico, acreditamos ser possível lançar
um olhar de maior fôlego sobre a questão, que nos revela o “estouro” oitentista
não apenas como uma decorrência das
iniciativas de diversas “caras novas” no cenário musical, mas também, em certa
medida, como desaguadouro de experiências que
vários músicos/artistas - que também obtiveram sucesso comercial ou prestígio
junto à crítica - vivenciaram nas décadas
anteriores. De outra parte, impende desde já assinalar que, a nosso sentir, a
tentativa de traçar comparações entre fenômenos
extremamente complexos, se pode ter algum atrativo à primeira vista, geralmente
não consegue resistir a uma análise mais
amiúde. Com efeito, não há como comparar validamente dois momentos diversos da
história do Rock nacional, pois cada um teve a
sua especificidade e méritos, além de estar conectado à uma realidade musical
diversa, tanto em termos de mercado nacional,
quanto em relação ao cenário internacional. De fato, parece-nos que iniciativas
neste sentido, embora tentadoras, não trazem
resultados positivos para a real apreensão do que representaram cada uma das
cenas na história da MPB.
Cabe, de pronto, abrir um pequeno parêntese, para abordarmos a problemática
advinda do hábito bastante comum, no âmbito da
música, de utilizar-se as “décadas” como referência. Tal procedimento, se, de um
lado, permite uma comunicação sintética e
quase semiótica entre o enunciante e o ouvinte/leitor, termina constituindo-se
em um entrave quando se tenta compreender de
forma mais aprofundada os fatos ocorridos no campo musical. Realmente, muito
embora isto seja um hábito de resto disseminado
e impregnado na linguagem tanto dos músicos como da mídia especializada e do
público ouvinte, e sirva comumente como marco
apriorístico de uma fala em tal ambiente, a sua adoção não ajuda muito no
sentido de uma melhor apreensão dos fatos. Com
efeito, a adoção desta conduta em muitos casos nos leva a sublimar e omitir o
fato de que a trajetória musical de um artista
tem início em determinado momento, mas o “fim” não necessariamente vai combinar
com o final da década em que ele estreou.
Em verdade, tal tendência conceitual parece ser, ao menos em parte, um reflexo
da curta “vida útil” que a grande indústria
fonográfica, em muitos casos, estabelece com relação a alguns músicos/bandas,
visando à sua maior lucratividade imediata.

Wander
Taffo
É
nítido o fato de que, no mundo pop, grande parte dos artistas/bandas que
conseguem chegar ao “topo” do mercado musical
mantém esta maior visibilidade na mídia (rádio, tv, jornais, revistas, sites
especializados) em um período relativamente
curto de tempo, não mais do que alguns anos, sendo poucos os trabalhos que
conseguem ultrapassar tal “barreira”. De fato, no
âmbito das majors, costuma haver uma exigência quase que constante no sentido de
que o artista/banda lance em seqüência
músicas facilmente vendáveis, sob pena do “degredo, do limbo e da morte”
artísticos. É claro que a expectativa de vendas vai
ser matizada conforme o gênero musical, havendo aqueles artistas/músicos que as
gravadoras mantêm em seu cast pelo prestígio
cultural que os mesmos detêm, o que acontece nitidamente com os segmentos
Erudito, Jazz, Choro, MPB, etc. Este fenômeno da
chamada “obsolescência” artística vem sendo cada vez mais agravado ao longo do
tempo, em face das importantes transformações
e desafios que as novas tecnologias têm lançado ao mercado fonográfico. Na visão
das grandes corporações, o mais desejável é
uma exposição massiva do artista em um curto espaço de tempo, a fim de que ele
fique “estourado” nas rádios, o que costuma
agravar o problema da grande saturação de sua imagem, trazendo como conseqüência
o encurtamento do período em que, aos olhos
da própria indústria e da mídia, vai ser decretada a sua “obsolescência”.
E, de
fato, no atual contexto, em que a pirataria
(virtual ou não) grassa, diminuindo consideravelmente as receitas das grandes
gravadoras, verifica-se que tais empresas têm
investido menos em trabalhos que exijam um maior tempo para dar “resultados
concretos”. Embora tal conduta não seja aplicada
de maneira taxativa e inflexível pela indústria em relação a um número
significativo de artistas/bandas, por uma série de
aspectos que são considerados em cada caso específico, é possível verificar a
delineação desta prática em relação a grande
parte dos contratados por gravadoras. Assim, esta curta “vida útil” de uma
considerável parte dos trabalhos musicais e
estilos, em termos de exposição midiática, acaba reforçando a tendência de boa
parte dos elementos envolvidos com as questões
relativas ao mundo da música, de tentar situar o que acontece em termos de
movimentação artística dentro dos marcos de um
período de tempo mais ou menos delimitado. Outro aspecto a considerar, que
parece contribuir para a prática de delimitar a
história musical conforme as décadas, é o de que, em relação às bandas e grupos,
fatores ligados à própria estruturação
interna e ao relacionamento pessoal mantido entre os músicos podem encurtar a
longevidade de uma formação ou um trabalho. No
entanto, e sem embargo, não se pode ignorar que muitos artistas (cantores e
instrumentistas) dão prosseguimento às suas
trajetórias, engendrando novos trabalhos, novas bandas e novas propostas, ainda
que não estando mais tão expostos aos
holofotes. Ou, ainda, pode ocorrer que antes de “estourar” com determinada banda
ou grupo, ou em carreira solo, o artista já tenha uma longa estrada percorrida.
Vale dizer, o caminho musical de um artista normalmente não pode ser
compreendido quando tentamos enquadrá-lo nos estilos predominantes em
determinado período de tempo. Esta “fôrma” que muitas
vezes se cola ao nome de determinado artista (“este é da década de 70, aquele é
da década de 80”...), às vezes de forma até
inconsciente e que já esta internalizada e ínsita em nossas ferramentas
conceituais - embora nos sirva para situar de
maneira econômica e rápida o que pretendemos referir -, geralmente é bastante
limitante e falha, não se revelando hábil à
verdadeira apreensão dos fatos, e muito menos consegue ser fiel à singularidade
de cada trajetória, bem como à evolução
artística do músico. Neste sentido, melhor seria se pudéssemos utilizar a
referência à década aos passos dados pelo artista
naquele período de tempo, sem que, “a priori”, venhamos a atribuir ao mesmo
determinadas características pelo fato de ele ter
começado sua trajetória em determinada época.
O que estamos tentando dizer, em outras palavras, no caso concreto em destaque,
é que, se de um lado não se pode negar que
nos anos 80 surgiram inúmeras “caras novas” no cenário e no mercado musical
brasileiro ligadas ao Rock, trazendo novidades
estéticas e criando um novo perfil mercadológico para este segmento, de outro
lado é preciso atentar também para o fato de
que muitos músicos importantes - e que se poderia dizer em certos casos até
decisivos - para o advento da explosão roqueira
havida, vieram de décadas anteriores. É evidente que muitas figuras de proa da
cena roqueira oitentista estavam estreando, ao
menos em termos de grande público, tais como Herbert Vianna, Paula Toller, Léo
Jaime, Cazuza e Frejat, Renato Russo, dentre
muitos outros. Isto é bastante natural, porque cada geração de jovens quer ter
ídolos com a sua “cara”, que incluam a sua
linguagem própria e as gírias, bem como que tratem das dificuldades, alegrias,
tristezas e preocupações, além da questão
sexual, de um modo particular. Na história do Rock sempre houve essa necessidade
de identificação do público adolescente e
jovem com ídolos de idade compatível aos ouvintes. O que, contudo, não significa
que elementos que iniciaram suas carreiras
anteriormente não possam participar da nova cena. Desta forma, pretendemos
demonstrar que a visão de que o Rock brasileiro
dos anos 80 estaria totalmente desvinculado do Rock nacional dos anos 70 não
consegue dar conta da realidade havida como um
todo, uma apreensão mais exata da realidade verificada. Realmente, em nossa
visão, parece ser mais apropriado para
compreender-se o fenômeno do Rock brasileiro dos anos 80 que consideremos não
apenas o seu viés novo e transgressivo no
panorama da MPB, mas também os aspectos que apresentou de continuidade de um
caminho que já estava sendo traçado por um
grande número de excelentes músicos na década anterior, ou antes, ainda, e que
se deu de forma concomitante com o impulso
original trazido pelos novos nomes.
É bem verdade que o espaço para o Rock brasileiro nos anos 70 foi visivelmente
mitigado em relação ao que o ritmo obteve nos
anos 60 (com a Jovem Guarda, especialmente), encontrando dificuldades em termos
de veiculação, vendagens e espaços. Mas é
preciso assinalar que, apesar dos entraves, o Rock desenvolveu-se nesta década,
no mais das vezes, com muito talento e
brilho. Pode-se apontar, como uma das razões para essa diminuição do espaço do
ritmo no mercado musical brasileiro geral à
influência psicodélica e do Rock Progressivo, que, em muitos casos, resultou em
algum abandono, ainda que parcial, do
formato da canção e do single. Realmente, o fato de que as bandas influenciadas
pelo Rock Progressivo, que nos parece
corresponder à tendência mais difundida na cena roqueira nacional, passaram a
elaborar e gravar músicas com duração superior à
então “normal”, além de alterarem muitas vezes a estrutura usual das músicas,
transformando-as em verdadeiras “viagens
sonoras”, em muitos casos fizeram o pessoal das rádios torcer o nariz para o
ritmo, o que, naturalmente, também resultou em
defecção de público. De outro lado, a influência do Hard Rock (que na época era
considerado “Rock Pesado”) em algumas bandas
brasileiras também serviu em parte para “afugentar” o público consumidor de
música pop de feição mais suave. É bem verdade
que, sem embargo disto, muitas bandas e artistas, ao mesmo tempo que faziam
estas alterações na forma das composições e
arranjos, também lançavam músicas mais “normais” aos ouvidos do público médio.
Mas é inegável que esse approach
“não-comercial”, sem dúvida, resultou em um encolhimento mercadológico para o
Rock no Brasil.
De fato, pode-se dizer que o Rock brasileiro feito nos anos 70, de uma maneira geral, expressou muito mais o
tipo de som que os músicos estavam a fim de
fazer, ainda que em prejuízo dos resultados mercadológicos das bandas. Apesar
disto, o que manteve a cena viva e pujante foi
justamente o fato de que, mais claramente do que havia ocorrido nos anos 60,
verificou-se uma segmentação de público, que fez
surgir o “público fielmente roqueiro”, normalmente constituído de muitos “fãs de
carteirinha” das bandas e artistas, que
estavam mais a fim de “curtir o som” feito ao vivo, e, para tanto, lotava, não
raro, os teatros em que eram realizados os
“concertos”. De maneira que o Rock brasileiro, nos anos 70, se não ocupou o
espaço de maior destaque no cenário musical –
exceção deve ser feita a alguns artistas, tais como Rita Lee, Raul Seixas e
Guilherme Arantes, entre outros -, encontrou a
viabilidade mínima necessária para manter a chama acesa. Curiosamente, foram
muitos elementos ligados à Jovem Guarda que,
amainadas e diluídas suas influências roqueiras, mantiveram-se em certos casos
com destaque no mercado, centrando foco no
segmento popular escudados pelas baladas românticas, enquanto alguns outros,
também oriundos do Iê-Iê-Iê (especialmente o
pessoal d'Os Incríveis, n'O Som Nosso de Cada Dia e no Casa das Máquinas, mas
também os próprios Mutantes, entre outros),
seguiram o caminho do Rock Progressivo. Erasmo Carlos, ao que parece, foi a
figura que melhor fez a “ponte” entre estes dois
caminhos tomados por parte do pessoal ligado à Jovem Guarda, atuando nas duas
vertentes.
Retomando-se o foco de nossa análise, cumpre assinalar que, conforme já
adiantamos, muitos elementos importantes do Rock
nacional dos anos 80 iniciaram sua trajetória musical antes de tal marco. Por
exemplo, e apenas para referir alguns nomes,
Lobão (que chegou a integrar a Blitz, antes de começar sua carreira solo),
Ritchie e Lulu Santos, três nomes fundamentais do
chamado “Rock Brasil dos 80”, integraram o grupo de Rock Progressivo Vímana, nos
anos 70. Ritchie também integrou outro grupo
progressivo muito importante que foi A Barca do Sol, e, ainda, a banda
Scaladácida. Lulu também integrou as bandas Cave Man,
Albatroz, Veludo e Pomoja. Ricardo Gaspa, baixista do Ira, começou tocando na
banda Mescla, nos anos 70, e Nasi e Edgar
Scandurra participaram da banda Subúrbio. O Herva Doce era liderado por Renato
Ladeira, que começou sua carreira ainda nos
anos 60, no conjunto The Bubbles, ou A Bolha, e passou também pela banda gaúcha
Bixo da Seda, pelo Aeroblues e pela
Scaladácida; Marcelo Sussekind também pertenceu à Bolha, à Scaladácida e ao
Aeroblues; Paul de Castro integrou os grupos
Tradicional Blues, Mutantes e Veludo. A banda Tilt contou com Piska, que foi
d'Os Incríveis, e Sérgio Della Mônica, ex-Tutti-Frutti. O Metrô, nos anos 70, atuava como o grupo de Rock Progressivo Gota
Suspensa. A banda KGB contava com Willie (o mesmo
do Tutti-Frutti e do Rádio Táxi) e Rui Motta (ex-Mutantes). A banda Valéria e
Alma de Borracha contava com Elias Mizrahi,
ex-Veludo. Bruno Fortunato, guitarrista do Kid Abelha, já era um músico bem
atuante na cena carioca setentista. Arnaldo
Brandão, do Hanói-Hanói e do Brylho, também foi membro de A Bolha, além de
participar das bandas Asfalto, Porque Sim, Banda Atômica e Brilho da Cidade (o Brylho, do super hit “Noite do Prazer”, aliás, já
atuava desde os anos 70 como Brilho da
Cidade). Bebeco Garcia e Edinho Galhardi, dos Garotos da Rua, integraram os
grupos setentistas gaúchos Farinha do Bruxo e A
Barra do Porto. Wander Taffo, guitarrista do Rádio Táxi, integrou nos anos 70 as
bandas Memphis, Made In Brazil, Secos e
Molhados e Joelho de Porco; Lee Marcucci, baixista da banda, tocou no
legendário Tutti-Frutti, ao lado de Rita Lee, e
também nas bandas Coqueiro Verde e Lisergia; Gel Fernandes, o baterista, por sua
vez, tocou em uma das formações de Os
Incríveis (estes vêm da Jovem Guarda). Antonio Pedro, baixista da Blitz, fez
parte dos progressivos a Fenda, Veludo, Os
Mutantes e Unziôtro (com Lulu Santos e Arnaldo Baptista, projeto que não teve
seqüência). O Yahoo, por sua vez, contava com
Robertinho de Recife (que começou tocando na banda Os Fabulosos, em Pernambuco)
e Zé Henrique (dos Analfabitles, banda ligada
à Jovem Guarda). Aliás, os Analfabitles também se bifurcaram, nos 80, nas bandas
Analfarrock e Câmara Indiscreta. Celso Blues
Boy, por sua vez, participou, nos anos 70, das bandas cariocas Flamboyant,
Legião Estrangeira e Aeroblues. Dudu França, nome
que surgiu forte no início dos anos 80, participou do Memphis, nos 70. Flávio
Venturini (ex-Turbulentos) e Sérgio Magrão (ex-Joint Stock Co.), antes de formarem o 14 Bis, participaram de O Terço, e Hely
Rodrigues e Vermelho integraram o Bendegó.
Guilherme Arantes tocou no Moto Perpétuo, nos anos 70, antes de sair em carreira
solo, sendo que também integrou nos anos 80 a
Gang 90. Aliás, pela Gang passaram Wander Taffo, Luis Paulo Simas e Lobão.
Vinícius Cantuária, que foi um dos fundadores de O Terço, ainda no final dos anos 60, integrou o Bixo da Seda, o
Asfalto, a Orquestra Branca e a Banda Atômica.
O Roupa Nova, nos anos 70, atuava como Os Fanks. A Cor do Som contava com
diversos integrantes dos Novos Baianos, e do
baterista de A Bolha, Gustavo Schroeter, que também integrou o Porque Sim.
Augustinho Licks, guitarrista da segunda
formação dos Engenheiros do Hawaii, também é um músico que já tinha começado sua
carreira nos anos 70, atuando ao lado de Nei
Lisboa. Kid Vinil, do Magazine, integrou no final dos anos 70 o grupo Verminose,
do qual se originou o primeiro; Fábio
Gasparini, guitarrista do Magazine, tocou nos anos 70 com as bandas Sunday, Mona
e Scaladácida; Stopa foi do Ponto e Vírgula,
e Ted Gaz foi do Mona, Scaladácida e Joelho de Porco. João Penca e seus
miquinhos amestrados já atuavam desde os 70, antes de
estourar nos 80. O Sempre Livre contava com Flávia Cavaca, que pertenceu à banda
Paulo Bagunça e a Tropa Maldita. Os RPM’s
Paulo Ricardo e Luiz Schiavon fizeram parte do grupo Aura, nos anos 70. O gaúcho
Zezinho Athanásio, que protagonizou uma das
maiores metamorfoses artísticas de que se tem notícia na história da MPB, nos
anos 70 chegou a ser vencedor, em parceria com
Jerônimo Jardim (autor de “Purpurina”, vencedora do Festival MPB-81, na
interpretação de Lucinha Lins), da Califórnia da
Canção, o mais tradicional festival nativista do RS, na linha de projeção
folclórica, transmutou-se nos 80, após radicar-se
no Rio, em “Joe Euthanásia” ou simplesmente “Joe”, lançando alguns bons discos
de Rock. Alemão Ronaldo e Paolo Casarin, da
Bandaliera, participaram da clássica banda gaúcha Bixo da Seda – Ronaldo também
participou do Taranatiriça -, e Marcinho
Ramos, o guitarrista da Bandaliera, fez parte de O Beco, Rabo de Galo, Coquetel
Molotov e Bandaneon. Rita Lee, que continuou
fazendo sucesso nos anos 80, já era a rainha do Rock brasileiro desde os anos
70, quando, após sair dos Mutantes, passou a
ser acompanhada pelo Tutti-Frutti. A banda gaúcha Os Eles contou com o já
experiente guitarrista Léo Henkin - que tocou
junto com o Dzáhguri e o Saracura, e hoje atua no Papas da Língua.

Nei
Lisboa

O Brylho
Enfim, há
uma infinidade de exemplos que poderíamos
listar, de artistas que começaram nos anos 70 e prosseguiram o seu caminho nos
anos 80, desempenhando um papel muito
importante na cena dessa década. Assim, como pode-se ver, muito embora diversos
nomes do mainstream do Rock nacional dos anos
80 tenham surgido apenas nesta década, muitos outros nomes importantes desta
cena iniciaram suas trajetórias nos anos 60 ou
70.
Mas além de vários dos artistas-solo ou componentes de bandas da cena oitentista
terem começado a tocar nos anos 60 ou 70, é
necessário assinalar que diversos dos principais produtores musicais e
executivos vinculados às gravadoras que apostaram na
viabilidade comercial do Rock nacional nos 80 foram músicos de bandas nas
décadas anteriores, ou ao menos começaram suas
atividades vinculados à cena roqueira dos 60 ou 70. O produtor Liminha,
considerado um dos grandes responsáveis pelos bons
resultados de estúdio das gravações feitas nos anos 80 por bandas/artistas de
rock, foi baixista dos Mutantes, e, antes
ainda, participou da Companhia Paulista de Rock, dos Lunáticos e dos Baobás.
Marcos Maynard, Sérgio Lopes, Luiz Carlos
Maluly, Marco Bissi e Cláudio Condé, produtores e executivos de gravadoras,
estão relacionados aos conjuntos Memphis e Lee
Jackson, dos anos 70. Ezequiel Neves, jornalista que escreveu na clássica
primeira versão da revista Rolling Stone
brasileira, e que foi produtor do Made in Brazil nos 70, quando passou a
trabalhar na Som Livre foi um grande incentivador
do Barão Vermelho, virando produtor da banda. Renato Corrêa, dos pioneiros Golden Boys, da Jovem Guarda, também atua com
grande destaque como produtor. Isto só para citar alguns nomes. A presença
destes e de outros produtores com intimidade com
o Rock, que passaram a ocupar um espaço muito importante dentro da indústria
fonográfica, foi importante para que acontecesse
o boom oitentista nas proporções verificadas.
Poder-se-ia objetar que os artistas que iniciaram a sua trajetória nos anos 70
“repaginaram” o seu trabalho, em alguns casos
de forma radical, abandonando influências e estilos anteriormente adotados em
seu “layout” nos 80, redirecionando sua
trajetória em torno de outras perspectivas. Neste ínterim, em nosso entender, o
fato de que as influências e estilos se
modificaram ou se diluíram não invalida absolutamente as experiências e o
conhecimento adquiridos por estes artistas na
década anterior. De fato, não deve ser desprezada a trajetória pregressa, que,
sem dúvida, constituiu-se em importante
bagagem pessoal. Assim, entendemos que estes artistas não “zeraram” suas
trajetórias; apenas deram continuidade ao seu
trabalho criativo, sintonizando-se, em maior ou menor nível, e dependendo de
cada caso, com as mudanças que estavam ocorrendo
no Rock em nível mundial. Realmente, parece-nos que somente podemos analisar os
fatos dentro de uma perspectiva
histórico-diacrônica, pois o Rock brasileiro (de resto, como ocorre em todas as
cenas roqueiras pelo mundo afora) sempre foi
tributário, em maior ou menor medida, do que está em voga nos EUA e no Reino
Unido. Além do mais, o fato de o Folk, a Psicodelia (tropicalista ou não), o
Hard e o Progressivo terem representado os
estilos predominantes no Rock brasileiro dos
anos 70, não depõe, absolutamente, em nossa perspectiva, contra a sua qualidade,
mesmo porque estas eram as tendências
predominantes no cenário internacional. Efetivamente, não podemos perder a noção
de que os paradigmas em nível internacional
nos anos 70 eram outros, e o Rock brasileiro da época sofreu seus reflexos, da
mesma forma que as modificações do cenário
internacional, trazidas pelo advento do Punk, da New Wave, do Metal, do
Reggae-Ska, do Tecnopop e do New Romantic
influenciaram os músicos que deram início às suas carreiras nos anos 80. Ora,
estes estilos também repercutiram fortemente
sobre muitos músicos brasileiros já em atividade no começo da década, tal como
aconteceu em outros países, como na Argentina,
apenas para dar um exemplo. Charly García é um caso emblemático: do Sui Generis,
Folk do início dos 70, passou pelos
progressivos Seru Girán e La Máquina de Hacer Pássaros, e quem pode negar que
foi uma figura de proa no cenário do Pop Rock
argentino dos 80? É claro que Charly não sofreu de uma amnésia, de forma a
“limpar o seu winchester” das influências dos
trabalhos anteriores, embora tenha se adaptado ao novo cenário.
É importante ter presente que havia grande qualidade instrumental e criatividade
melódica no rock brasileiro dos anos 70; em
certo sentido, poder-se-ia falar – não sem o risco do equívoco, em alguns casos,
por certo - que o Rock foi até
“simplificado” nos anos 80 em termos instrumentais e estruturais em relação ao
que era feito na década anterior; isto,
entretanto, não significou absolutamente perda de qualidade, mas apenas uma
diferença de approach, o que deve ser ressaltado.
Comparar as duas cenas, sob este aspecto, não apenas é inócuo, como
absolutamente injusto, já que todas as análises devem
levar em conta não somente os elementos sincrônicos envolvidos, mas
evidentemente a diacronia, a dimensão histórica em que se
desenrolaram os fatos. Ora, o Rock dos anos 70 recebeu influências muito fortes
do Hard e do Progressivo, pois estes eram os
estilos vigentes em nível mundial, ao passo que nos anos 80 a cena teve uma
grande influência do “faça você mesmo” propugnado
pelo Punk, o que inclusive permitiu que músicos com menor domínio instrumental e
musical surgissem. Mas comparar os dois
estilos não traz um bom resultado, pois o que pode ser considerado “sujo” em um
estilo pode funcionar muito bem em outro,
dentro de seu contexto.
De outro lado, cumpre dizer que, se é inegável que a geração 80 do Rock
brasileiro trouxe para o palco principal do cenário
musical grandes compositores e letristas, tais como Renato Russo, Cazuza,
Herbert Vianna, entre muitos outros, também temos
que ter em mente que nos anos 70 igualmente atuaram grandes compositores e
letristas, tais como Rita Lee, Raul Seixas, Paulo
Coelho, etc. E se algumas bandas dos anos 70 apresentavam letras
de baixa qualidade, isto não foi
exclusividade daquela década. O que dizer de uma série de bandas lançadas nos
80, tais como Absyntho, Bom Bom e Dr. Silvana,
em termos de letras? Nesta senda, podemos considerar que na década de 80, em
alguma medida, houve uma comunhão entre alguns
dos novos músicos e outros que já tinham uma trajetória traçada desde os anos
70, no sentido de tornar a cena roqueira
brasileira mais adequada à conjuntura internacional dos “novos tempos”, que
sinalizava na direção de se buscar uma
reaproximação mais significativa com o formato “canção” e o universo pop, tendo
como inspiração especialmente o Punk e a New Wave, em que pesem os mais variados estilos de
Rock adotados. O que, sempre
frisamos, não invalida que diversos nomes que
surgiram nos 80 também tenham tido uma atuação decisiva e inovadora na cena.
Assim, em nossa visão, o Rock brasileiro dos anos 80, para ser bem
compreendido como fenômeno, deve ser visualizado não
apenas sob os inegáveis aspectos de ruptura e revolução em relação à cena
musical até então vigente de que se revestiu, mas
também sob o viés – ainda que apenas em certa medida - de continuidade e
interação com elementos da cena setentista, em que
pese a aparente contradição entre tais assertivas. De fato, concluímos que a
contraposição da cena de uma década com a cena
da década anterior não consegue dar conta, integralmente, da riqueza criativa que
se verificou em ambos os períodos.
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