Como ser um profissional bem sucedido
e fazer amigos
na firma
Por
Priscila Vanzin
Imagem:
Reprodução/René
Magritte

Uma das coisas mais importantes para a sociedade atual é ter foco na
vida. Para que alguém seja considerado um sujeito bem sucedido, é
necessário saber exatamente qual é a paixão que lhe move, bem como
quais os meios para transformar essa paixão em rendimento
econômico. No meio do caminho, cursos de especialização na área
escolhida são sempre bem-vindos.
Os vencedores têm essa paixão bem definida, ou pelo menos
conseguem se direcionar para um determinado segmento e nele
continuar pelo resto da vida (sem perder tempo se perguntando se
realmente é isso que lhes faz feliz). Essas - as pessoas de foco -
transformam com facilidade seu trabalho em rendimento econômico e
por isso fazem parte do grupo dos bem sucedidos.
Entrar para o clubinho é fácil, não é preciso ser nenhum grande
intelectual, basta não perder tempo com pensamentos pouco
rentáveis, literatura não-técnica, amenidades e muito menos com as
artes eruditas (elas estão fora de moda há tempos). É claro que
esses profissionais precisam estar bem informados, para isso é
recomendável que leiam os cadernos de economia e política do
jornal (se bem que assistir ao noticiário antes da novela já dá
uma boa base para não fazer feio com os colegas da firma).
Quanto melhor definida for a área de interesse, mais facilmente o
sujeito se destacará - ainda que seja totalmente ignorante em
outros segmentos (afinal, ninguém está interessado em saber quem
ganhou o prêmio Pulitzer este ano ou esses outros lances de
filosofia!). Para ter desenvoltura nas conversas extra firma basta
saber quem são os campeões da rodada no Brasileirão ou qual será o
destino do Marconi Ferraço.
Mas, existe também um pequeno grupo de fracassados que não tem
somente uma paixão definida e que perde tempo absorvendo um milhão
de informações desnecessárias que jamais serão convertidas em
rendimento econômico. Esses tolos dificilmente conseguem comprar o
carro do ano e muito menos uma casa de veraneio em Rainha do Mar.
Eles têm sonhos demais, mas nada que possa ser chamado de “plano
de carreira” ou “plano de previdência”, falam muito sobre a vida,
mas jamais pensam em lhe fazer um “seguro”. Esses desvairados só
sabem sonhar, sonham com utopias, criticam o governo e a nova moda
musical, não sabem se adaptar às exigências do mercado e pouco
estão ligando quem é o funcionário destaque do mês.
Vejam só, na casa desses doidos tem um monte de livros, uma
biblioteca gigante mas completamente incoerente, um amontoado de
fantasias escritas por esses autores de nomes pomposos, ou livros
de arte sobre pintores mutilados, mas que não ensinam nada sobre
como melhorar a auto-estima e muito menos dão dicas de como
enriquecer. Onde estarão os manuais técnicos ou o aquele livro
bacana que ensina o segredo para tornar-se um líder servidor?
Ora, mas que tolos, ainda perdem tempo com filmes malucos que
terminam no meio e ninguém entende nada. Não tem explosão, nem
luta, nem super-herói, nem mesmo um desses atores milionários
especialistas em filmes de catástrofe. Todo mundo está careca de
saber que esses europeus não entendem nada de cinema, fazem filmes
que são verdadeiros soníferos e se não bastasse ainda são feios
pra dedéu.
E as músicas que esses sujeitinhos ouvem então, que
coisa mais deprimente! Não consigo imaginar nenhum desses cd's que ninguém
conhece rodando no churrasco de fim de ano. Ao invés de escutarem
canções bacanas e animadas, esses sujeitos só querem saber de
compositores mortos que nem cantar conseguiam, cantores sofrenildos da
Bossa Nova ou bandas esquisitas de drogaditos
malucos. Que coisa mais “pra baixo”! Não conhecem o valor de um
bom pagodinho suingado ou de um axé “pra tirar o pé do chão” e –
pasmem – nunca ouviram a Dança do Créu (que por sinal é excelente
para criar um clima de azaração com as recepcionistas).
Assim fica difícil se enturmar com os camaradas na hora do
cafezinho!
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