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13/07/2003 |
Subversivos
e terroristas no campus (versão 2.0)
Por
Larissa Oliveira + Camila
Vargas
+ Ricardo Alexandre
G.
+
Imagens:
Arfio Mazzei (Sindijor/RS)
+ Portal
3 (Unisinos) +
Comunicação (Ulbra)
+
Diante de
tantos envolvidos para a publicação dos três textos abaixo, fica a sensação de que
o espírito coletivo dos relatos feitos por Aurélio González, Frei Betto e pelo
MST, representado por Raquel Caziraghi e Vicente Willes, tenha impregnado, cada
um a sua maneira, e possibilitado tudo isso.
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Expressão e vida
Em passagem por São Leopoldo, Frei Betto fala sobre vida, obra e política,
elemento fundamental entre as duas parte.
Por Larissa Oliveira
De passagem pelo o Estado para palestrar aos alunos de Comunicação Social da
Unisinos, no dia 24 de abril, Frei Betto participou, antes, do Bate-papo
Jornalístico, promovido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio
Grande do Sul, no Restaurante Capri, em São Leopoldo. Em meio aos participantes,
falou por mais de uma hora sobre política nacional e latino-americana e seu
envolvimento com a comunicação.
A agenda ficou apertada. Vindo direto do Aeroporto Salgado Filho, o encontro,
que deveria começar ao meio-dia, ocorreu apenas às 12h40mim, por atraso na
chegada do vôo. No local, cerca de 30 pessoas ligadas ao sindicato e a veículos
de comunicação da região metropolitana conversaram com o frei.
Marcado por sua história política - que se confunde em vários pontos com a
história política do Brasil -, Frei Betto começou seu discurso com a afirmação
de que "ser frade é uma condição de vida".

Sua ligação com São Leopoldo é antiga. A experiência está relatada no livro
"Batismo de Sangue", com o qual conta o período em que viveu enquanto estudante
seminarista com padres franciscanos (Betto é de formação dominicana) na cidade,
durante a ditadura militar. "Na verdade, eu estava contrabandeando gente,
mandando perseguidos políticos para o Uruguai a pedido de Marighella", conta.
Ele disse que sente pelos franciscanos acabarem tendo se complicado com o
governo por sua causa, mas que não se arrepende do que fez.
Sempre atuando com jornalismo, estreou na extinta revista Realidade em 1967.
Escreveu por 12 anos no Estadão e, atualmente, colabora em diversos veículos em
todo o Brasil e na América Latina, entre eles, a revista Carta Capital e o
jornal Correio Rio-Grandense, de Caxias do Sul. "Escrevo em média seis artigos
por mês", conta.
Política
Frei Betto afirma que o governo Lula sustentou-se por muito tempo no Congresso e
nos movimentos sociais. Contudo, desprezou o último, que foi quem o levou ao
poder. "Hoje, ele se tornou refém do Congresso, onde o PT é periférico".
Critica, também, a estratégia de governabilidade atual, que é a de "se manter no
poder", como ele diz, ao invés de se construir um projeto histórico para o país.
"O governo se preocupa apenas em manter as coisas como estão", defende.
Ex-assessor do primeiro mandato de Lula e um dos criadores do programa
Fome Zero, ele acredita que governo é diferente de poder, pois o poder
transcende a mandatos. "A máquina do Estado brasileiro foi criada para servir à
elite. A saída do Brasil passa por reformas fundamentais, como a política e a
agrária. Senão, continuaremos como estamos hoje", afirma o homem que vê a
solução no reforço dos movimentos sociais e na mudança das estruturas do poder,
que chama de "arcaicas". E completa: "O PT e o governo Lula não são mais capazes
de realizar isso".
"Entendi trabalhando no Planalto, por que as elites não fazem passeatas: elas
têm a chave do poder"
Contudo, Frei Betto é contundente ao dizer que continua achando Lula o melhor
para o Brasil e para a América Latina hoje, como o único com viabilidade de
mandato.
Para o Fome Zero dar certo, o programa supunha uma reforma agrária, o que não
aconteceu. Ele diz ter saído do governo pelo o rumo que o programa tomou. "O que
seria um programa emancipatório se transformou em compensatório por fins
eleitorais". O livro Calendário do Poder fala justamente dessa experiência.
América Latina
Como não poderia deixar de ser, o tema América Latina foi recorrente durante o
Bate-Papo. Sobre vitória do amigo Fernando Lugo para a presidência do Paraguai -
Frei Betto esteve recentemente no país no anúncio da vitória - ele declara que
não há como prever como será seu governo. "É muito cedo para saber,
principalmente por não sabermos ainda qual será sua representabilidade no
Congresso, já que as eleições congressistas ainda não ocorreram".
"O Brasil criou uma tradição imperialista em relação à América Latina. Agora, os
vizinhos estão cobrando"
Declarando que o Brasil sempre teve atitudes imperialistas diante de seus
vizinhos latino-americanos, Betto citou o caso do atrito entre Evo Morales e a
Petrobrás, a única empresa compradora do gás boliviano a reclamar do aumento de
preço. "Todos os outros países reconheceram que o preço anterior era
explorador".
Ainda assim, ele se diz um apoiador da política externa do governo Lula, que
julga inteligente por voltar a afirmar sua independência em frente aos blocos
hegemônicos mundiais. Acredita ser acertada a atitude de se aproximar de países
da África, da China e de países árabes, enquanto os Estados Unidos se
preocupavam com o conflito no Oriente Médio. "O Itamaraty é uma escola exemplar
de diplomacia. Com mecanismo como o Mercosul, o Brasil tem buscado uma
reaproximação entre os países sul-americanos".
Imprensa
Frei Betto avalia que a imprensa brasileira passou por um processo de
libertação, mas o jornalismo não. A explicação é que hoje repórteres se guiam
pela linha editorial dos patrões e que há uma grande disparidade entre
editores-chefe, editor, repórteres e estagiários, muitas vezes explorados.
Quando trabalhava na revista Realidade, diz que os jornalistas da época não se
guiavam pela cabeça do patrão. "Havia grandes brigas nas redações para os
repórteres fazerem o jornalismo que achavam correto, até que os anunciantes se
juntaram para fazer com que a revista mudasse", lembra.

Sobre a diferença entre a imprensa latino-americana e a brasileira, afirma não
conhecer a primeira profundamente, mas tem a impressão de que a brasileira é
mais democrática, apesar de estar organizada em algumas grandes empresas. "É
mais organizada por se estruturar de forma capilar, talvez por ter mais meios ou
mais tradição jornalística", comenta.
Quanto à editorialização dos veículos, defende que não se deve sacrificar
informação por opinião, o que acontece freqüentemente. Ele cita a revista Veja
como exemplo deste processo. Por vezes, seus artigos foram publicados no Estadão
com um editorial contra o que tinha escrito, mas ainda assim foi publicado.
Para ele, há uma dificuldade da imprensa brasileira em ser autocrítica e
projeta: "Passarão o segundo semestre inteiro analisando como a mídia se
comportou no caso Isabella, mas enquanto o caso está fresco é explorado ao
máximo. Perdemos o senso da realidade pelo Ibope".
Frei Betto comenta que no dia seguinte ao assassinato da menina, a Polícia do
Rio de Janeiro entrou em uma favela e matou nove jovens e nada foi noticiado.
"Cadáver de classe média é mais importante do que um cadáver pobre. E esse
ainda, mais grave, morto pelo braço do Estado".
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Palestrante
critica a mídia em seu discurso
Por
Camila Vargas
Cerca de 300 pessoas assistiram à palestra de Frei Betto na noite de
quinta-feira, 24, no auditório das Ciências Jurídicas da Unisinos. O público
preencheu todos os assentos e o restante se acomodou no chão dos corredores do
local.
Frei Betto foi crítico, engraçado, irônico. Arrancou palmas da platéia.
Enfatizou sua visão partidária, sociológica e profissional diante dos
acontecimentos mundiais.
Para dar início ao seu discurso, ele leu um trecho de seu livro "A Arte de Semear
Estrelas". Uma critica poética ao hábito da população de assistir ao programa Big
Brother Brasil, da Rede Globo.
Antes de tratar do tema, questionou a platéia: "Para que serve a televisão?". E,
em seguida, respondeu à sua indagação, afirmando que a tevê conseguiu hipnotizar
o espectador, citando os índices de audiência e de faturamento que um programa
como o BBB geram.
Falou que esse tipo de reality show faz com que as pessoas se mobilizem diante
de conteúdos que não apresentam nenhum aproveitamento cultural e que isso
representa o caminho que está sendo seguido pelas comunicações.
Erotização
Frei Betto generalizou. Disse que a televisão infantiliza emocionalmente a
programação, criando adultos imaturos e promove a erotização de maneira
excessiva em todos os seus conteúdos, inclusive no infantil. "A erotização
precoce torna a criança uma pessoa esquizofrênica pelo seu corpo", avaliou.
Mesmo sem citar a fonte, Frei Betto usou o termo "showrnalismo" - criado por
José Arbex Jr., autor do livro "Showrnalismo: a notícia como espetáculo" -, para
afirmar o modo como o jornalismo reporta os acontecimentos para o leitor.
Como exemplo, citou o caso Isabella. O palestrante chamou a cobertura de
"armação de circo", lembrando do aparato montado em frente à 77ª Delegacia, em
São Paulo, que abrigou as investigações policiais. Os repórteres tinham à sua
disposição cadeiras, toldo e banheiros químicos, além de cordão de isolamento,
um público ávido por notícias e um comércio faturando com o "espetáculo".
Frei Betto não poupou figuras de linguagem para tentar explicar aquele cenário:
"A mídia fez tanto alarde que parecia que a Isabella iria ressuscitar e conceder
uma coletiva à imprensa", ironizou. A platéia veio abaixo. "O que peço é
isonomia na cobertura da mídia", seguiu. "Na mesma época foram assassinados nove
trabalhadores nas favelas e a mídia não mostrou nada. Eu não quero que bloqueiem
as informações sobre o caso Isabella, mas que haja uma isonomia informativa",
pediu.
Para ele, a sociedade está passando da modernidade para a pós-modernidade e,
assim, vivendo a época do neoliberalismo. "As pessoas são apenas consumistas.
Está estabelecida uma relação de valores com o comércio, onde a mercadoria é
mais importante que a pessoa". E a solução? "Frear o acelerado processo de
desumanização da sociedade", responde. Invertendo essa relação
mercadoria/pessoa/mercadoria, diz, vai acontecer a descortinação dos reais
valores que as pessoas deveriam seguir, como o exemplo de épocas mais
antigas.
Questões
Após a palestra, Frei Betto se submeteu às perguntas feitas por escrito pela
platéia. As questões foram escolhidas e divididas por assuntos. A cada resposta,
uma posição, obviamente que muitas já de conhecimento de quem o acompanha ao
vivo, pela internet ou por um de seus muitos livros.
Sobre o poder, um dos pontos de sua palestra, disse que ele não modifica as
pessoas e sim as revela. "O poder só faz mal para quem tem baixa estima e,
conseqüentemente, não sabe viver sem ele", afirmou. E acrescentou: "Se a pessoa
não tem uma boa formação de conduta passa a conduzir a liderança como um projeto
de eleição, e não como um projeto de nação".
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Nos porões das...
Universidades!
Por
Ricardo
Alexandre G.
Alto lá! Tudo aconteceu às claras, em espaços públicos de duas
universidades particulares, só o bordão "nos porões da ditadura" que foi,
permita um particípio em moda, reciclado. Fazer o quê, se dois dos
"palestrantes" foram ex-procurados há três, quatro décadas pelos respectivos governos
dos seus países? Depois ainda chamaram um desses movimentos de baderneiros e vagabundos
para falar sem filtros a vários estudantes? Sim, um oferecimento de jesuítas e
luteranos ao público eclético, portanto, sem essa de tratar os
encontros como
Internacional Comunista ou versão atualizada do congresso da UNE na Ibiúna (SP) de
1968...
Subversivas! Há quatro décadas seria assim que a turma do Plano Condor,
especificamente do Brasil e do Uruguai, começaria o monólogo com as faculdades
de Comunicação Social da Ulbra (Canoas/RS) e da Unisinos (São
Leopoldo/RS), em reconhecimento pelos convites, neste primeiro semestre de
2008, a pessoas como Frei Betto e Aurélio González, ou ao MST, ele mesmo, o
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Sempre direcionados a falar sobre
as suas experiências no campo da comunicação... E social!
Apesar
dos trocadilhos com a época de ouro da ditadura no continente
sul-americano, os dois que tinham a ver com o tema falaram dele "por tabela". O
mineiro Betto, como convidado para o painel "Mídia, Poder e Cidadania", em
abril, na Unisinos, desenvolveu a participação a partir da prática do jornalismo e
da assessoria especial à Presidência da República, no primeiro mandato do governo
Lula.
Mesmo que o Neoliberalismo tenha privatizado a
utopia, como ressaltou logo no início, a experiência contada
aproxima e tenciona transpor esse obstáculo com franqueza e liberdade de
expressão. Igual ao que consta no seu livro "Batismo de Sangue", em meio a páginas e
páginas de clandestinidade e perseguição, sintetiza, sem ranços ou heroísmos,
que toda a relação desigual e ostensiva do período era "apenas" a profilaxia do poder naquele 1968
de ferro e fogo.
Dos episódios relacionados à
ALN (Aliança Libertadora Nacional), grupo guerrilheiro ao qual pertenceu, a
menção foi sobre a sua função de "traficante de gente", inclusive durante
passagem por São Leopoldo, quando traficava companheiros para o Uruguai. Nenhuma cabeça de general foi reivindicada, mas os produtos da mídia não
escaparam do olhar certeiro, que assegurou haver sido a década de 60 a mais
preocupada com a informação. Do Big Brother Brasil aos shoppings centers, o
Neoliberalismo nos quer consumistas, disse que o tempo é de informação-merchandising, num
consenso político de opinião posto como realidade pelos conglomerados de
empresas jornalísticas, que em poucas mãos impedem a isonomia informativa, a
diversidade de espaços midiáticos. Perguntado sobre se o poder muda o indivíduo,
assegura que não é bem uma mudança, e sim que o poder revela a baixa estima do
seu ocupante: projeto de (re)eleição em detrimento do projeto de nação! Fechou a conta: "onde tiver briga entre rico e pobre, eu estarei sempre do lado do
pobre".
O fotojornalista Aurélio González, marroquino de
nascença, uruguaio desde 1952 por causa da interferência do ditador espanhol
Franco no Marrocos, protagonizou a
aula
inaugural dos cursos
de Comunicação Social, História e Ciência Política da
Ulbra,
em março, e relatou as histórias
fantásticas que o cercam. Como se não fosse suficiente atravessar oceanos distantes numa velha barcaça e recomeçar a vida numa cultura diferente, no caso
a latino-americana, para quem vem da Ásia, o que dizer de reencontrar, em 2006, as latas com milhares de
fotogramas escondidos na década de 70, quando saía
fugido da República Oriental do Uruguai? Sim, todo o seu acervo fotográfico
ficou entre frestas e tubulações de ar do antigo prédio, que também abrigava a
redação do El Popular, jornal para o qual trabalhava, comunista nos "moldes"
da época. Cativante por natureza, não usou o pau de arara verbal uma vez sequer
ao citar a repressão institucionalizada da qual foi vítima. Pelo contrário,
dizia, convicto e orgulhoso, que mantém o espírito libertário, como sobreviveu nos
países em que morou até retornar para o Uruguai, após o fim do regime militar.
Indagado sobre o formato de pensões a vítimas da ditadura cisplatina,
ele destacou que não é como aqui, por ser uma nação pequenina, cuja economia
não suportava decisões milionárias. Um contador de
histórias nato, com faro de fotojornalista ironicamente aguçado, pois conseguiu
registrar, sobreviver e mostrar aos presentes no teatro da universidade a imagem do agente
do governo,
eventual algoz, segundos antes do disparo em plena via pública de Montevidéu e
com endereço certo: o próprio, Señor González. Sete vidas e puro carisma que
proporcionaram uma biografia no território da Celeste Olímpica, escrita por
María Esther Gilio e lançada pela Editora Trilce - Aurélio, El Fotógrafo: La
pasión de vivir.
  
Em junho, chegou a vez do MST acampar na Unisinos, durante a Semana da
Comunicação, que, tal o seminário com o Frei Betto, foi no Auditório do Direito e fazia parte da celebração dos 35 anos da faculdade de
Comunicação Social. Como outras atividades rolavam simultaneamente nesta Semana,
e conhecer o que o MST tem a falar sobre comunicação não abre mercado, o público
foi menor. Raquel Caziraghi, da assessoria de imprensa do movimento, e Vicente
Willes, campesino, foram os designados para a difícil missão, uma vez que ali
entre os espectadores os anseios não flertavam com descobertas, mais com a
ressonância de conceitos ruminados por parcela considerável da mídia visando o bem comum. Ligado
o achômetro incriminador, sequer interessava a prática de Willes nos
assentamentos ou o porquê da não publicação das pautas enviadas pelo movimento
social à imprensa, apenas "De onde vem o dinheiro para os impressos?", "Por que
vocês invadem se é ilegal?"... Não cochilei e vi que ninguém lançava um "Como
faço para contribuir", "Vocês pensam em aumentar a tiragem da revista?", ou um
anfitrião "Por que a reforma agrária não avança no Brasil?", o que fez lembrar
da informação-merchandising do terceiro parágrafo, os efeitos são facilmente
identificáveis.
O combo com estas quatro experiências é pequeno dentro do contexto mais
mercadológico que teórico de boa fatia dos cursos universitários, o que não
exime de ressaltar as iniciativas especiais. A chance de ser ouvido e provocar o
contraditório com histórias menos hierárquicas e mais sensitivas merece o
registro, pela criatividade dos organizadores, pela trajetória dos convidados,
pela rara curiosidade do público, e claro, para que os envolvidos atravessem
fronteiras.
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