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 Subversivos e terroristas no campus (versão 2.0)

                                                  
                                                         

                                                                   
 Por Larissa Oliveira +
 
Camila Vargas +
 
Ricardo Alexandre G.
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 Imagens:
Arfio Mazzei (Sindijor/RS) +
 Portal 3 (Unisinos)
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 Comunicação (Ulbra)
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Diante de tantos envolvidos para a publicação dos três textos abaixo, fica a sensação de que o espírito coletivo dos relatos feitos por Aurélio González, Frei Betto e pelo MST, representado por Raquel Caziraghi e Vicente Willes, tenha impregnado, cada um a sua maneira,  e possibilitado tudo isso.


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 Expressão e vida

Em passagem por São Leopoldo, Frei Betto fala sobre vida, obra e política, elemento fundamental entre as duas parte.

 

Por Larissa Oliveira
 

  De passagem pelo o Estado para palestrar aos alunos de Comunicação Social da Unisinos, no dia 24 de abril, Frei Betto participou, antes, do Bate-papo Jornalístico, promovido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul, no Restaurante Capri, em São Leopoldo. Em meio aos participantes, falou por mais de uma hora sobre política nacional e latino-americana e seu envolvimento com a comunicação.

  A agenda ficou apertada. Vindo direto do Aeroporto Salgado Filho, o encontro, que deveria começar ao meio-dia, ocorreu apenas às 12h40mim, por atraso na chegada do vôo. No local, cerca de 30 pessoas ligadas ao sindicato e a veículos de comunicação da região metropolitana conversaram com o frei.

  Marcado por sua história política - que se confunde em vários pontos com a história política do Brasil -, Frei Betto começou seu discurso com a afirmação de que "ser frade é uma condição de vida".




 


  Sua ligação com São Leopoldo é antiga. A experiência está relatada no livro "Batismo de Sangue", com o qual conta o período em que viveu enquanto estudante seminarista com padres franciscanos (Betto é de formação dominicana) na cidade, durante a ditadura militar. "Na verdade, eu estava contrabandeando gente, mandando perseguidos políticos para o Uruguai a pedido de Marighella", conta. Ele disse que sente pelos franciscanos acabarem tendo se complicado com o governo por sua causa, mas que não se arrepende do que fez.

  Sempre atuando com jornalismo, estreou na extinta revista Realidade em 1967. Escreveu por 12 anos no Estadão e, atualmente, colabora em diversos veículos em todo o Brasil e na América Latina, entre eles, a revista Carta Capital e o jornal Correio Rio-Grandense, de Caxias do Sul. "Escrevo em média seis artigos por mês", conta.

Política

  Frei Betto afirma que o governo Lula sustentou-se por muito tempo no Congresso e nos movimentos sociais. Contudo, desprezou o último, que foi quem o levou ao poder. "Hoje, ele se tornou refém do Congresso, onde o PT é periférico". Critica, também, a estratégia de governabilidade atual, que é a de "se manter no poder", como ele diz, ao invés de se construir um projeto histórico para o país. "O governo se preocupa apenas em manter as coisas como estão", defende.

  Ex-assessor do primeiro mandato de Lula e um dos criadores do programa Fome Zero, ele acredita que governo é diferente de poder, pois o poder transcende a mandatos. "A máquina do Estado brasileiro foi criada para servir à elite. A saída do Brasil passa por reformas fundamentais, como a política e a agrária. Senão, continuaremos como estamos hoje", afirma o homem que vê a solução no reforço dos movimentos sociais e na mudança das estruturas do poder, que chama de "arcaicas". E completa: "O PT e o governo Lula não são mais capazes de realizar isso".

"Entendi trabalhando no Planalto, por que as elites não fazem passeatas: elas têm a chave do poder"

  Contudo, Frei Betto é contundente ao dizer que continua achando Lula o melhor para o Brasil e para a América Latina hoje, como o único com viabilidade de mandato.

  Para o Fome Zero dar certo, o programa supunha uma reforma agrária, o que não aconteceu. Ele diz ter saído do governo pelo o rumo que o programa tomou. "O que seria um programa emancipatório se transformou em compensatório por fins eleitorais". O livro Calendário do Poder fala justamente dessa experiência.

América Latina

  Como não poderia deixar de ser, o tema América Latina foi recorrente durante o Bate-Papo. Sobre vitória do amigo Fernando Lugo para a presidência do Paraguai - Frei Betto esteve recentemente no país no anúncio da vitória - ele declara que não há como prever como será seu governo. "É muito cedo para saber, principalmente por não sabermos ainda qual será sua representabilidade no Congresso, já que as eleições congressistas ainda não ocorreram".

"O Brasil criou uma tradição imperialista em relação à América Latina. Agora, os vizinhos estão cobrando"

  Declarando que o Brasil sempre teve atitudes imperialistas diante de seus vizinhos latino-americanos, Betto citou o caso do atrito entre Evo Morales e a Petrobrás, a única empresa compradora do gás boliviano a reclamar do aumento de preço. "Todos os outros países reconheceram que o preço anterior era explorador".

  Ainda assim, ele se diz um apoiador da política externa do governo Lula, que julga inteligente por voltar a afirmar sua independência em frente aos blocos hegemônicos mundiais. Acredita ser acertada a atitude de se aproximar de países da África, da China e de países árabes, enquanto os Estados Unidos se preocupavam com o conflito no Oriente Médio. "O Itamaraty é uma escola exemplar de diplomacia. Com mecanismo como o Mercosul, o Brasil tem buscado uma reaproximação entre os países sul-americanos".

Imprensa

  Frei Betto avalia que a imprensa brasileira passou por um processo de libertação, mas o jornalismo não. A explicação é que hoje repórteres se guiam pela linha editorial dos patrões e que há uma grande disparidade entre editores-chefe, editor, repórteres e estagiários, muitas vezes explorados.

  Quando trabalhava na revista Realidade, diz que os jornalistas da época não se guiavam pela cabeça do patrão. "Havia grandes brigas nas redações para os repórteres fazerem o jornalismo que achavam correto, até que os anunciantes se juntaram para fazer com que a revista mudasse", lembra.

 



  Sobre a diferença entre a imprensa latino-americana e a brasileira, afirma não conhecer a primeira profundamente, mas tem a impressão de que a brasileira é mais democrática, apesar de estar organizada em algumas grandes empresas. "É mais organizada por se estruturar de forma capilar, talvez por ter mais meios ou mais tradição jornalística", comenta.

  Quanto à editorialização dos veículos, defende que não se deve sacrificar informação por opinião, o que acontece freqüentemente. Ele cita a revista Veja como exemplo deste processo. Por vezes, seus artigos foram publicados no Estadão com um editorial contra o que tinha escrito, mas ainda assim foi publicado.

  Para ele, há uma dificuldade da imprensa brasileira em ser autocrítica e projeta: "Passarão o segundo semestre inteiro analisando como a mídia se comportou no caso Isabella, mas enquanto o caso está fresco é explorado ao máximo. Perdemos o senso da realidade pelo Ibope".

  Frei Betto comenta que no dia seguinte ao assassinato da menina, a Polícia do Rio de Janeiro entrou em uma favela e matou nove jovens e nada foi noticiado. "Cadáver de classe média é mais importante do que um cadáver pobre. E esse ainda, mais grave, morto pelo braço do Estado".


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 Palestrante critica a mídia em seu discurso


Por Camila Vargas


  Cerca de 300 pessoas assistiram à palestra de Frei Betto na noite de quinta-feira, 24, no auditório das Ciências Jurídicas da Unisinos. O público preencheu todos os assentos e o restante se acomodou no chão dos corredores do local.

  Frei Betto foi crítico, engraçado, irônico. Arrancou palmas da platéia. Enfatizou sua visão partidária, sociológica e profissional diante dos acontecimentos mundiais.

  Para dar início ao seu discurso, ele leu um trecho de seu livro "A Arte de Semear Estrelas". Uma critica poética ao hábito da população de assistir ao programa Big Brother Brasil, da Rede Globo.

  Antes de tratar do tema, questionou a platéia: "Para que serve a televisão?". E, em seguida, respondeu à sua indagação, afirmando que a tevê conseguiu hipnotizar o espectador, citando os índices de audiência e de faturamento que um programa como o BBB geram.

  Falou que esse tipo de reality show faz com que as pessoas se mobilizem diante de conteúdos que não apresentam nenhum aproveitamento cultural e que isso representa o caminho que está sendo seguido pelas comunicações.


Erotização

  Frei Betto generalizou. Disse que a televisão infantiliza emocionalmente a programação, criando adultos imaturos e promove a erotização de maneira excessiva em todos os seus conteúdos, inclusive no infantil. "A erotização precoce torna a criança uma pessoa esquizofrênica pelo seu corpo", avaliou.

  Mesmo sem citar a fonte, Frei Betto usou o termo "showrnalismo" - criado por José Arbex Jr., autor do livro "Showrnalismo: a notícia como espetáculo" -, para afirmar o modo como o jornalismo reporta os acontecimentos para o leitor.

  Como exemplo, citou o caso Isabella. O palestrante chamou a cobertura de "armação de circo", lembrando do aparato montado em frente à 77ª Delegacia, em São Paulo, que abrigou as investigações policiais. Os repórteres tinham à sua disposição cadeiras, toldo e banheiros químicos, além de cordão de isolamento, um público ávido por notícias e um comércio faturando com o "espetáculo".

  Frei Betto não poupou figuras de linguagem para tentar explicar aquele cenário: "A mídia fez tanto alarde que parecia que a Isabella iria ressuscitar e conceder uma coletiva à imprensa", ironizou. A platéia veio abaixo. "O que peço é isonomia na cobertura da mídia", seguiu. "Na mesma época foram assassinados nove trabalhadores nas favelas e a mídia não mostrou nada. Eu não quero que bloqueiem as informações sobre o caso Isabella, mas que haja uma isonomia informativa", pediu.

  Para ele, a sociedade está passando da modernidade para a pós-modernidade e, assim, vivendo a época do neoliberalismo. "As pessoas são apenas consumistas. Está estabelecida uma relação de valores com o comércio, onde a mercadoria é mais importante que a pessoa". E a solução? "Frear o acelerado processo de desumanização da sociedade", responde. Invertendo essa relação mercadoria/pessoa/mercadoria, diz, vai acontecer a descortinação dos reais valores que as pessoas deveriam seguir, como o exemplo de épocas mais antigas.


Questões

  Após a palestra, Frei Betto se submeteu às perguntas feitas por escrito pela platéia. As questões foram escolhidas e divididas por assuntos. A cada resposta, uma posição, obviamente que muitas já de conhecimento de quem o acompanha ao vivo, pela internet ou por um de seus muitos livros.

  Sobre o poder, um dos pontos de sua palestra, disse que ele não modifica as pessoas e sim as revela. "O poder só faz mal para quem tem baixa estima e, conseqüentemente, não sabe viver sem ele", afirmou. E acrescentou: "Se a pessoa não tem uma boa formação de conduta passa a conduzir a liderança como um projeto de eleição, e não como um projeto de nação".


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 Nos porões das... Universidades!


Por
Ricardo Alexandre G.


  Alto lá! Tudo aconteceu às claras, em espaços públicos de duas universidades particulares, só o bordão "nos porões da ditadura" que foi, permita um particípio em moda, reciclado. Fazer o quê, se dois dos "palestrantes" foram ex-procurados  há três, quatro décadas pelos respectivos governos dos seus países? Depois ainda chamaram um desses movimentos de baderneiros e  vagabundos para falar sem filtros a vários estudantes? Sim, um oferecimento de jesuítas e luteranos ao público eclético, portanto, sem essa de tratar os encontros como Internacional Comunista ou versão atualizada do congresso da UNE na Ibiúna (SP) de 1968...

  Subversivas! Há quatro décadas seria assim que a turma do Plano Condor, especificamente do Brasil e do Uruguai, começaria o monólogo com as faculdades de Comunicação Social da Ulbra (Canoas/RS) e  da Unisinos (São Leopoldo/RS), em reconhecimento pelos convites, neste primeiro semestre de 2008, a pessoas como Frei Betto e Aurélio González, ou ao MST, ele mesmo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Sempre direcionados a falar sobre as suas experiências no campo da comunicação... E social!

  Apesar dos trocadilhos com a época de ouro da ditadura no continente sul-americano, os dois que tinham a ver com o tema falaram dele "por tabela". O mineiro Betto, como convidado para o painel "Mídia, Poder e Cidadania", em abril, na Unisinos, desenvolveu a participação a partir da prática do jornalismo e da assessoria especial à Presidência da República, no primeiro mandato do governo Lula.
Mesmo que o Neoliberalismo tenha privatizado a utopia, como ressaltou logo no início, a experiência contada aproxima e tenciona transpor esse obstáculo com franqueza e liberdade de expressão. Igual ao que consta no seu livro "Batismo de Sangue", em meio a páginas e páginas de clandestinidade e perseguição, sintetiza, sem ranços ou heroísmos, que toda a relação desigual e ostensiva do período era "apenas" a profilaxia do poder naquele 1968 de ferro e fogo. Dos episódios relacionados à ALN (Aliança Libertadora Nacional), grupo guerrilheiro ao qual pertenceu, a menção foi sobre a sua função de "traficante de gente", inclusive durante passagem por São Leopoldo, quando traficava companheiros para o Uruguai. Nenhuma cabeça de general foi reivindicada, mas os produtos da mídia não escaparam do olhar certeiro, que assegurou haver sido a década de 60 a mais preocupada com a informação. Do Big Brother Brasil aos shoppings centers, o Neoliberalismo nos quer consumistas, disse que o tempo é de informação-merchandising, num consenso político de opinião posto como realidade pelos conglomerados de empresas jornalísticas, que em poucas mãos impedem a isonomia informativa, a diversidade de espaços midiáticos. Perguntado sobre se o poder muda o indivíduo, assegura que não é bem uma mudança, e sim que o poder revela a baixa estima do seu ocupante: projeto de (re)eleição em detrimento do projeto de nação! Fechou a conta: "onde tiver briga entre rico e pobre, eu estarei sempre do lado do pobre".

  O fotojornalista Aurélio González, marroquino de nascença, uruguaio desde 1952 por causa da interferência do ditador espanhol Franco no Marrocos, protagonizou a
aula inaugural dos cursos de Comunicação Social, História e Ciência Política da Ulbra, em março, e relatou as histórias fantásticas que o cercam. Como se não fosse suficiente atravessar oceanos distantes numa velha barcaça e recomeçar a vida numa cultura diferente, no caso a latino-americana, para quem vem da Ásia, o que dizer de reencontrar, em 2006, as latas com milhares de  fotogramas escondidos na década de 70, quando saía fugido da República Oriental do Uruguai? Sim, todo o seu acervo fotográfico ficou entre frestas e tubulações de ar do antigo prédio, que também abrigava a redação do El Popular, jornal para o qual trabalhava, comunista nos "moldes" da época. Cativante por natureza, não usou o pau de arara verbal uma vez sequer ao citar a repressão institucionalizada da qual foi vítima. Pelo contrário, dizia, convicto e orgulhoso, que mantém o espírito libertário, como sobreviveu nos países em que morou até retornar para o Uruguai, após o fim do regime militar. Indagado sobre o formato de pensões a vítimas da ditadura cisplatina, ele destacou que não é como aqui, por ser uma nação pequenina, cuja economia não suportava decisões milionárias. Um contador de histórias nato, com faro de fotojornalista ironicamente aguçado, pois conseguiu registrar, sobreviver e mostrar aos presentes no teatro da universidade a imagem do agente do governo, eventual algoz, segundos antes do disparo em plena via pública de Montevidéu e com endereço certo: o próprio, Señor González. Sete vidas e puro carisma que proporcionaram uma biografia no território da Celeste Olímpica, escrita por María Esther Gilio e lançada pela Editora Trilce - Aurélio, El Fotógrafo: La pasión de vivir.




 


  Em junho, chegou a vez do MST acampar na Unisinos, durante a Semana da Comunicação, que, tal o seminário com o Frei Betto, foi no Auditório do Direito e fazia parte da celebração dos 35 anos da faculdade de Comunicação Social. Como outras atividades rolavam simultaneamente nesta Semana, e conhecer o que o MST tem a falar sobre comunicação não abre mercado, o público foi menor. Raquel Caziraghi, da assessoria de imprensa do movimento, e Vicente Willes, campesino, foram os designados para a difícil missão, uma vez que ali entre os espectadores os anseios não flertavam com descobertas, mais com a ressonância de conceitos ruminados por parcela considerável da mídia visando o bem comum. Ligado o achômetro incriminador, sequer interessava a prática de Willes nos assentamentos ou o porquê da não publicação das pautas enviadas pelo movimento social à imprensa, apenas "De onde vem o dinheiro para os impressos?", "Por que vocês invadem se é ilegal?"... Não cochilei e vi que ninguém lançava um "Como faço para contribuir", "Vocês pensam em aumentar a tiragem da revista?", ou um anfitrião "Por que a reforma agrária não avança no Brasil?", o que fez lembrar da informação-merchandising do terceiro parágrafo, os efeitos são facilmente identificáveis.


  O combo com estas quatro experiências é pequeno dentro do contexto mais mercadológico que teórico de boa fatia dos cursos universitários, o que não exime de ressaltar as iniciativas especiais. A chance de ser ouvido e provocar o contraditório com histórias menos hierárquicas e mais sensitivas merece o registro, pela criatividade dos organizadores, pela trajetória dos convidados, pela rara curiosidade do público, e claro, para que os envolvidos atravessem fronteiras.  
 

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