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Quando algo não tem nome, se apresenta
apenas como uma sensação de mal-estar
indefinível. Naomi Wolf, em seu livro 'O
mito da beleza', mencionava que certas
coisas na sociedade passam despercebidas
pois não há quem as denuncie. E a
denúncia é sempre uma espécie de grito em
meio ao silêncio de uma humanidade
acostumada.
Um escritor brasileiro, pouco conhecido,
tem feito este papel de maneira
brilhante, com um bom toque de humor
ácido, que o cotidiano merece.
Ezio Flavio Bazzo é um escritor
diferente, pois seus livros são
encontrados na Internet, feitos de
maneira quase artesanal e publicados de
forma independente. Não há como traçar um
estilo para suas obras, e deve ser esta a
razão de não se tocar em seu nome nos
centros literários. Cada livro é único,
composto de mil estórias e confissões de
viagens, mostrando de forma brilhante o
ser humano da maneira como ele é. Uma
biblioteca dentro de cada livro. Um
acervo de milhares de notas de rodapé
geniais.
Apesar de parecer triste à primeira
leitura, ao se conhecer a obra do
escritor, tem-se a idéia de uma forma
bela de descrever a vida, reconhecendo a
miséria humana e aceitando-a como parte
do aprendizado, para quem tem a percepção
da realidade.
Os livros são como uma espécie de
literatura livre, onde não há compromisso
com regras gramaticais, formalidades ou
mesmo com o leitor. Há apenas a vontade
de escrever. Portanto, aquele que leu
apenas um livro de Ezio Flavio Bazzo não
sabe o que são seus livros.
E muita gente não continua a ler, pois vê
a si próprio neles.
Desde 'Ecce Bestia', que trata do assunto
muito bem camuflado pela sociedade que é
a exploração de animais para o sexo, mais
comum do que se imagina, ou se quer
imaginar. Ou 'A lógica dos devassos', que
provoca a discussão sobre a pedofilia, um
problema cercado de preconceitos entre os
próprios pesquisadores do assunto. Ou
'Manifesto aberto à estupidez humana',
espelho fiel da humanidade e do homem, um
dos melhores livros que já li na minha
vida.
A relação que temos com os escritores
sempre é envolta em mistério, pois não
conhecemos o autor das palavras que
lemos. Muitos escritores estão mortos ou
simplesmente moram do outro lado do
planeta e nem sempre apreciam dialogar
com os leitores. O máximo que acontece é
o lamentável show de autógrafos. Mas este
escritor é vivo. Tem um endereço de
e-mail, responde aos leitores. Envia
textos inéditos, manda presentes
(livros!), está mais próximo do leitor e
nos mostra, através deste comportamento,
uma forma de ser muito bonita e diferente
do aparente pessimismo que muitos vêem em
seus livros.
Pois o livro 'Toaletes e Guilhotinas'
fala de dois assuntos aparentemente
divergentes, mas que têm muito em comum:
a merda e a guilhotina. Além de um humor
muito interessante, sobre a forma como
lidamos com os excrementos, há a denúncia
de que a humanidade possui em algum lugar
de seus genes ou de sua psique um
espírito sanguinário, que se empenha em
construir mecanismos cada vez mais
sofisticados para provocar o sofrimento
alheio.
Sobre os animais, Bazzo escreve: "é desse
fígado adulterado e canceroso que o patê
(Foie Gras - em português: fígado gordo)
da burguesia é feito. Oxalá lhe provoque
pelo menos uma cirrose incurável ou uma
hepatite para vingar o martírio dos
gansos. Quem visita uma dessas granjas
fica impressionado com o desespero dos
animais, que passam praticamente a vida
toda sem sentir o gosto da comida. - E os
ecologistas? Perguntei-lhe. - Não fazem
nada. Pois o Foie Gras é para a França
quase uma questão de Estado! O mesmo que
o petróleo para os árabes e que o ópio
para os birmaneses. A mim, esta pasta
nojenta só revolta as tripas!".
Sobre as execuções na guilhotina e a
comparação com a morte de porcos, ele
diz: "quem nasceu e cresceu no campo nem
precisa ter boa memória para lembrar das
execuções matinais, semanais e
rigorosamente macabras. Os gritos de
desespero do animal, um panelão com água
fervente, o verdugo afiando a faca e três
ou quatro vizinhos tomando chimarrão,
fumando charuto ou simplesmente
assistindo a execução. Fazendo um
retrospecto desses tempos e desses
porcocídios me dou conta de que o matador
nunca é uma pessoa comum e que existem
sujeitos que 'sabem mais' do que os
outros no métier da morte. Lembro-me
perfeitamente bem das mãos grotescas do
homem que enfiava a lâmina na direção do
coração dos porcos, e que eu estava
sempre do lado dos suínos, torcendo para
que eles, num último ataque de desespero,
conseguissem devorar a mão ou pelo menos
o joelho dos matadores.
Depois, assistia a carnificina e a
retirada do coração mutilado, que o
carniceiro exibia orgulhoso à 'platéia',
exatamente como os verdugos faziam aqui,
com a cabeça dos guilhotinados. Portanto,
e por mais lírico que possa parecer,
estou profundamente convicto de que uma
civilização e uma sociedade que é contra
a pena de morte para os homens, mas que
segue matando todas as outras espécies
para se alimentar, para vender seus
chifres, seus dentes, sua pele, sua
banha, seus hormônios etc, é uma
civilização e uma sociedade, narcisista,
chauvinista e hipócrita que, cedo ou
tarde (mais cedo do que tarde),
destroçará e comerá a si própria".
E sobre a curiosa imagem de um livro de
Jerry Rubin, que traz entre outras fotos
a de uma mulher nua carregando uma cabeça
de porco numa baixela: "vou me dando
conta de como é impressionante o estágio
de indiferença em que nos encontramos.
Como é possível viver no meio de uma
chacina e de um genocídio animal desses
sem desesperar-se? Frangos, porcos,
vacas, peixes, patos, rãs, camarões,
coelhos, faisões, ovelhas, nenhuma
espécie escapa à fome sanguinária dos
homens, desses barrigudos inúteis que
saem dos restaurantes de Montmartre
palitando os dentes e arrotando".
O comentário sobre uma gravura onde
aparece um homem matando outro homem com
um machado, e um homem com um cavalo
observando a cena: "gosto dessa imagem,
porque nela o ponto crucial de crueldade
não está na lâmina do machado, nem nos
lábios do homem que pratica a violência,
mas curiosamente no olho do cavalo,
dirigido de maneira ambivalente e
fulminante para o sujeito que está
prestes a ser assassinado. Esse eqüino
estaria indignado ou apenas gozando com o
massacre* e com a ruína de seu dono? O
que impressiona realmente, é a rapidez
com que se passou do machado à guilhotina
e desta à cadeira elétrica, fato que
evidencia o quanto o espírito assassino
está incrustado nos séculos, nos punhos e
no palavreado da espécie mais predadora
que o planeta já teve notícias.
E o melhor de todos é o comentário
abaixo, de uma imagem de abatedouro de
cavalos:
"Mercado de Paris, 1900 - Abatedouro de cavalos
Sem nenhum tipo de deboche, olhem
atentamente para a boca, as narinas, as orelhas e o corpo inteiro do cavalo:
ele emana mais (luz) e mais simpatia que todos os (matadores) que o
distraem, que lhe tapam os olhos e que no momento seguinte arremessarão
contra sua cabeça o golpe da marreta. Diante de uma dessas cenas, quem é que
em sã consciência, consegue seguir confiando nos homens? Acreditando em suas
leis? Dormindo a seu lado? Apesar de toda a demagogia humanista, não resta
dúvidas de que os crimes cometidos nos abatedouros contra as aves, os
porcos, as vacas e outros animais, é o mesmo que se comete sobre o
cadafalso, nas cadeiras elétricas, nos postes e nos paredões contra os
homens. A única aparente diferença está na racionalização que se desenvolveu
sobre o assunto e na necessidade doentia e criminosa da humanidade em seguir
massacrando as outras espécies".
*
Etimologicamente a palavra massacre vem
do latim, macecre, um termo que está
sempre ligado aos açougues e às
carnificinas".

Seus livros podem ser encontrados no site:
http://home.yawl.com.br/hp/eziob

Bibliografia consultada:
. Wolf, Naomi.
O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres/
Ed. Rocco, 1992. 439p.;
. Rubin, Jerry. DO IT - Scénarios de la
Révolution: Introduction par Eldridge
Cleaver/Ed. Seuil. Página 141;
. Bazzo, Ezio Flavio. Toaletes e
guilhotinas, uma epistemologia da merda e
da vingança/Brasília: Ed. LGE, 2008. 420
p. Primeira edição em 1995. Citações
deste artigo nas páginas: 95, 128, 171, 208 e 306;
. Bazzo, Ezio Flavio. A arte de cuspir (ou
a dialética dos porcos)/Brasília: Lilith publicadora e Cia, 1994;
. Bazzo, Ezio Flavio. Manifesto aberto à
estupidez humana/Brasília: Ed. LGE,
2007. 143p. Primeira edição em 1977/78,
publicado em castelhano no México em 1979;
. Bazzo, Ezio Flavio. Ecce Bestia -
Libertinagem com animais/Brasília: Narcisus publicadora & Cia, 2001. 163p.;
. Bazzo, Ezio Flavio. A lógica dos
devassos: no circo da pedofilia e da
crueldade/Brasília - Ed. Única. Moloch
Publicadora Ltda, 2004. 159p.
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