
Márcio Linck é historiador e ambientalista, e pela Frente Popular
(PT) foi candidato a vereador de São Leopoldo (RS) nas duas
últimas eleições, 2004 e 2008, não conseguindo atingir o número
necessário de votos, totalizando 1148 na primeira e 861 na
segunda.
Nasceu e se criou à beira do Rio dos Sinos, já que sua família
adquiriu com seu bisavô a tradição da olaria, trabalho relacionado
à argila, fabricação de tijolos e telhas. A vivência nos banhados
o despertou, desde cedo, uma sensibilidade para as questões
ligadas aos recursos naturais, à biodiversidade do Rio dos Sinos.
Atualmente, é ativista ambiental, contribuindo com a Pró-Animal de
São Leopoldo e o GAE (Grupo pela Abolição do Especismo de Porto
Alegre). Ministra palestras, participa de debates, exibe
documentários e escreve artigos esporádicos para a imprensa local
(VS e NH, do Grupo Sinos) e imprensa nacional (Revista dos
Vegetarianos). É autor do livro "Para além do ambientalismo - Uma
história em duas décadas", pela editora Oikos.
A seguir, o bate papo tido com ele num final de tarde de 2008,
entre uma e outra iguaria vegetariana servida pelo Restaurante
Harmonia, situado na Rua Grande (Independência), em São Leopoldo.
ø ø ø
Dissonância -
Que idade tu tinhas quando começastes o interesse
por Ecologia?
Márcio Linck -
Eu comecei a militar com 19 anos. Em 1986, entrei
para a Upan (União Protetora do Ambiente Natural). Aí desde lá não
saí mais. Tive a percepção de que algumas áreas estavam sendo
degradadas, não do ponto de vista da sustentabilidade, mas da
destruição destes locais, em função do aumento da urbanização, seja a formal, governamental, com projetos habitacionais, seja a
urbanização irregular. Sem falar na falta de consciência das
autoridades, que sempre consideraram os banhados como criadores de
mosquitos, não com a função em si que é de controlar a vazão das
águas, fazer a filtragem dos poluentes, fazer parte da cadeia
reprodutiva da fauna, dos peixes... Paralelo a isto também tem a
questão da luta em favor dos animais, foi praticamente automático.
Colaborei com a Alpa no seu início, mas minha atuação maior sempre
foi na Upan, com a questão dos animais sempre muito forte também.
Dissonância -
Como consideras a cultura ambiental no Vale dos
Sinos?
Márcio Linck -
O Vale dos Sinos tem uma questão histórica muito
forte, um pioneirismo. Seja pelo Henrique Luiz Roessler, que
começou a militar nos anos 30 e a escrever crônicas no Correio do
Povo, que resultaram no livro "O Rio Grande do Sul e a Ecologia".
Foi um profeta do seu tempo, criou a primeira ONG brasileira, em
1955, a UPN (União Protetora da Natureza). Ele trabalhava na
Capatazia da Capitania dos Portos, e como funcionário público,
foi denunciado por madeireiros e passarinheiros da época em que o
Estatuto do Servidor Público não permitia que alguém trabalhasse
gratuitamente. Então ele criou a UPN para justificar um trabalho
de fato.
Também temos o
Padre Balduíno Rambo, o Clemente Steffens, outro
fundador da Upan, professor da Unisinos e que trabalhou com
plantas e ervas também muito tempo, entre outros. Se fizermos uma
pesquisa, já na época da chegada dos imigrantes alemães aqui, em
1824, o Presidente da Província, que seria o governador, o José
Feliciano Fernandes Pinheiro, o Visconde de São Leopoldo, deu
recomendações de preservação dos recursos hídricos, das matas
nativas, a indicação para que a cidade não fosse fundada em cima
dos banhados, e sim na parte mais alta, numa área que era bem
maior que hoje, se transformando em outros municípios vizinhos.
Todas essas recomendações já têm uma consciência bem interessante.
E a Upan se insere neste processo como uma entidade que deu continuidade
ao trabalho de Henrique Roessler. Nos anos 80, teve o surgimento
no vale do Movimento Roessler, em homenagem ao ambientalista, e
que fez várias ações conjuntas com a Upan.
Dissonância -
Conte-nos mais sobre a atuação da Upan...
Márcio Linck -
A Upan existe desde julho de 1971 e passou por
várias fases. Inicialmente, o nome era um núcleo em São Leopoldo
da Agapan (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural), com
sede em Porto Alegre. Nos anos 80, especificamente 87 e 88, devido
ao trabalho da entidade em atacar a produção industrial no Vale
dos Sinos, em especial os curtumes do setor coureiro-calçadista,
mudou-se o nome para Upan, para que a mídia não confundisse com a
Agapan de PoA. E também para se resgatar a UPN do Roessler era
difícil, pois existiam membros em vários pontos do RS, e existia
dificuldade em reuni-los. Agora, dos militantes ativos, sou ainda
um dos mais antigos, além do professor João Dauth, fundador. Eu
sou da segunda geração e hoje já passou da terceira.
A Upan tem um papel fundamental na conscientização na região e até
de soluções de alguns problemas ambientais. Vou dar um exemplo: quando em 1986 e 87 a Upan começou a fazer a defesa da
recuperação da bacia do Rio dos Sinos, conseguiu-se o
comprometimento dos curtumes para tratamento primário e secundário
para afluentes, que até então não havia. Foi uma guerra tremenda e
conseguimos. Até outros setores depois, alimentícios, metalurgia e
siderurgia, começaram a tratar em função disso. Os lixões das
cidades do Vale dos Sinos e regiões próximas, incluindo São
Leopoldo, Sapucaia, Esteio, Portão, Estância Velha, Campo Bom,
Taquara, Sapiranga e Parobé, eram todos próximos ao Rio dos Sinos,
ou em banhados ou em córregos que desembocariam no Rio dos Sinos.
Com o tempo isso foi mudando.
Também tem a questão da usina de lixo, uma das primeiras no RS,
por cobrança da Upan. Em São Leopoldo, tivemos a segunda
Secretaria de Meio Ambiente do Estado, primeira foi em Porto
Alegre. Foi uma exigência da Upan junto ao poder público
municipal. Outros pontos foram atacados, como estudos que geraram
uma publicação sobre os banhados do Rio dos Sinos, já que estes
foram prejudicados com a construção dos diques (sistema de
proteção contra cheias), mas que separa banhados do rio.
Dissonância -
Qual tua opinião sobre a atual popularização do tema sustentabilidade? Vês efeitos?
Márcio Linck -
A sustentabilidade tem que ser colocada mais em
prática, pois se fala muito nisso, mas se pratica pouco. Até
pessoas que cursam graduações como Biologia e Geologia às vezes
não têm conhecimento aprofundado sobre o que está provocando a
perda de biodiversidade. Vou dar um exemplo: a pecuária é
insustentável. No nível que se está a produção de carne, no futuro
terão que avançar para áreas como a Floresta Amazônica. Existe uma
série de componentes que se agregam a isso, gases, efeito estufa,
queimadas, contaminação dos recursos hídricos e grande utilização
também dos recursos hídricos para produção da carne, grandes
espaços de terra com cultivo de cereais que não é para a
alimentação humana, mas do gado para abate... Isso é
insustentável. É um exemplo entre tantos, sem falar de outras
questões, de outras áreas...
Dissonância -
Uma matéria do Jornal da Record denunciou diversas ONG's
presentes na Amazônia para exploração, biopirataria... Eram cerca de
22 mil em 2002 e hoje são mais de 200 mil, 40% só na Amazônia. O
que refletes sobre isto?
Márcio Linck -
De uns anos para cá, o termo ONG teve uma
veiculação até política, ou seja, muitas foram criadas por líderes
políticos para contemplar parceiros de partidos que não podiam ter
cargos nos governos, se criando uma forma "terceirizada" de
acomodar muitas pessoas, direcionar recursos e também desviar, em
alguns casos. E na Amazônia há esse interesse pela biodiversidade
que ela oferece, de conhecimento para se explorar, seja no sentido
positivo (cura de muitas doenças) quanto no negativo, com a
extração de riquezas do subsolo, por exemplo. Com certeza muitas ONG's são de fachada, sem o intuito de lutar pela questão da
preservação.
Dissonância -
Pretendes voltar a se candidatar? Quais são teus
principais projetos?
Márcio Linck -
Por enquanto não está nos meus planos. A luta é
desigual, ou seja, as regras, em tese, são as mesmas, mas as
condições entre os candidatos não são. É como uma corrida, onde
alguns estão de bicicletas e outros estão com carro de Fórmula 1!
Quem vai chegar na frente? Além do que, a forma com que alguns
candidatos conseguem votos é um problema. Infelizmente prevalece o
clientelismo, a compra de votos, seja materialmente falando ou com
algum favorzinho daqui e dali! Então para candidatos como eu, que
não se "prostituem" para tentar chegar ao poder, as coisas ficam
mais difíceis. Mas o mais importante é que as lutas continuam,
independente de campanha, pois acredito na força dos movimentos
sociais organizados que fazem política (não partidária) e são
muito mais úteis à sociedade que grande parte dos nosso políticos.
Quanto aos meus projetos, vejo questões importantes como o
tombamento das vertentes dos arroios de São Leopoldo, pela
importância que têm estas fontes que alimentam os afluentes que
vão parar no Rio dos Sinos, a busca pela preservação dos últimos
banhados que ainda restam em São Leopoldo. Também criar um Código
Municipal de Preservação dos Animais, que toque no tema da
vivissecção (não utilização de animais para experimentos
científicos nas escolas e universidades); ampliação do trabalho
que entidades de proteção aos animais fazem; aplicação do projeto
que proíbe ou limita os veículos de tração animal (carroças), com
soluções para quem as usa.
A obrigatoriedade dos prédios em geral (inclusive os públicos para
darem o exemplo) terem captação de água da chuva para abastecer
descargas, limpeza e molhar plantas; uso de papel não colorado,
reciclado, nas repartições públicas e escolas; ampliação da coleta
seletiva, estimulando não apenas a cooperativa de catadores, mas
pensar melhor o consumir os descartáveis, evitar a proliferação de
resíduos.
Também a questão da arborização urbana em São Leopoldo, que é
problemática, ampliação das áreas de preservação como o do Parque
Leopoldina, para o lazer. Tem questões ligadas à saúde preventiva,
introdução do uso de plantas medicinais para tratamentos
alternativos, há espaço, o próprio SUS abre esta possibilidade.
Dissonância -
Como te tornastes vegetariano? Qual tua filosofia
sobre?
Márcio Linck -
Eu sempre gostei muito de animais desde cedo e a
militância na Upan, a convivência com um colega que já era, me
estimulou a tomar esta decisão, para não contribuir com a morte
de um ser que também tem direito à vida, tem seus interesses, da
sua espécie. É toda uma série de questões filosóficas e éticas que
são colocadas, e que hoje agregam várias outras fundamentações
para que alguém tome esta decisão de parar de comer carne, como
questões econômicas e ecológicas, a insustentabilidade da pecuária
para o planeta, a questão de saúde também, mas principalmente pela
questão de respeito à vida.
A gente luta por igualdade e justiça, e isso não deve ser somente
para a espécie humana, mas para todos os seres. Não temos o
direito de acharmos que somos a espécie que deve dominar as
demais. Chegamos bem depois que todas as outras.
Com esse princípio da igualdade de interesses básicos inerentes às
espécies, como direito à liberdade, direito de locomover-se,
direito de reproduzir-se, o direito de comer o alimento que é
natural da sua espécie, então são necessidades vitais.
E essas necessidades básicas não devem estar abaixo de
preferências. Comer carne se torna uma preferência, como tantas
opções que o ser humano tem do ponto de vista de escolher o seu
alimento, acaba tirando o direito de outro em função do que acha
ser o seu. Temos que romper com essa visão utilitarista dos
animais, que é uma escravidão e um preconceito com outra espécie.
Pensamos que os animais existem para nos servir, algo prepotente e
autoritário.

. clique aqui para ver a galeria de imagens
.

[
Página Inicial
]