Porque eu odeio pessoas de gosto eclético

                                                                      
 Por Priscila Vanzin
 
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Reprodução
                                                                                               

                                                                                                       
                 


  Depois de um longo período ignorando por completo o conteúdo dos jornais locais, hoje finalmente me dispus a pegar um desses, perdido em algum canto da casa. Alias, só consegui perceber de que jornal se tratava ao retirar a primeira folha que o envolvia. Era uma capa em branco, porém ao abri-la, percebi que se tratava de um pôster com jogadores de futebol, acima da foto, letras garrafais que indicavam alguma recente conquista - a propósito, em meio a crise econômica, catástrofes ambientais em terras vizinhas e problemas de todas as ordens, me espanta a quantidade de “campeões de tudo” que tenho visto por aí -, mas voltando ao assunto principal desse desabafo todo...

  Ao conseguir ter acesso ao conteúdo do jornal, levei um baita susto logo na primeira página: a manchete dizia “a febre do sertanejo universitário”. Como assim??? Eu moro em Porto Alegre - a capital mais pseudo-intelectual do país, famosa por suas bandas de rock e seu desdém por todo o lixo de massa produzido no resto do território nacional (Ok,é mentira! Sei que parte do lixo acaba escoando para cá, mas já que o movimento separatista não passa de doce ilusão, deixa eu acreditar nisso pelo menos!). Achando aquilo tudo muito esquisito - e torcendo pra ter lido errado -, resolvi conferir. Em resumo: estou chocada até agora!


  É fato: dizem que o som realmente “está bombando”. A reportagem traz inclusive a opinião de alguns jovens a respeito do assunto -, ao lado dos respectivos nomes tem a indicação das instituições de ensino que freqüentam, se pode dizer que provavelmente a gurizada teve acesso à boa dose de informação cultural (se fizeram uso disso, já é outra história).

  Dos cinco, um se autodenomina “eclético”, os outros quatro dão fortes indícios de que não possuem preferência, gosto ou conhecimento sobre coisa alguma. Aliás, se existe um ponto de convergência entre as opiniões é a grande importância que dão para o que “vai bombar no verão”.

  Já tenho observado há algum tempo: gente sem opinião sempre diz ter “gosto eclético”. Eu disse gosto? Que gosto?

  Essa nova geração é um reflexo dos novos valores da sociedade atual - sem preconceitos, sem discriminação, ligada nas tendências de massa, prefere não criticar gostos alheios... Personalidade? Para que serve mesmo? Afinal, a vida é mesmo um moranguinho, não? Escolher alguma coisa pra gostar e conhecer: “Muita mão!”. O lance agora é gostar de tudo (sem conhecer nada). Depois que se escolhe por qual time se nutrirá um fanatismo doentio, nosso papel na vida já está garantido. O resto é efêmero: o que se adora hoje, amanhã já não é tendência e, depois de amanhã, impossível lembrar até mesmo que existiu.

  Sendo politicamente incorreta e totalmente fora dos padrões atuais de comportamento, aqui vai minha confissão:

  - Sou preconceituosa, sim!

  E para mostrar quanto é gigante o meu preconceito, ao invés de “chinelear” as minorias, vou me ater unicamente a criticar maiorias. Aí vai:

  Odeio todas as vertentes musicais que terminam com a palavra “universitário” (essa é a maneira mais baixa que a mídia encontrou pra legitimar música ruim). Odeio novela. Odeio futebol e não torço pra time nenhum. Odeio o verbo “bombar” em todas suas conjugações, e, aproveitando o tema: “mim” não tem capacidade para conjugar verbo algum. Odeio a Sandy e não possuo curiosidade alguma em relação à sua rotina conjugal. Odeio cantoras de axé. Meu ódio a pagodeiros mereceria outro texto inteiro (e talvez maior). Odeio catchup. Odeio blockbusters. Odeio o Papai Noel. Odeio o surrealismo-do-bom-comportamento de Malhação. Aliás, odeio a Globo. Odeio tomar chimarrão no parque. Odeio festas que têm “folia” no nome. Odeio carnaval, é óbvio. Odeio meninas que se chamam de “flor”. Odeio gente repetitiva e por isso paro por aqui.

  E para não ficar fora de moda, termino esse texto lançando uma nova frase-feita: “Ah, meu ódio é bem eclético...”.

  E para não ficar fora de moda, termino esse texto lançando uma nova frase-feita: “Ah, meu ódio é bem eclético...”.

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