A Bossa Nova, movimento surgido no âmbito da Música Popular
Brasileira no final dos anos 50, completou sessenta anos em 2008. Em
significativa medida, diversos dos elementos trazidos pela Bossa Nova para o
cenário da MPB continuam sendo atuais e fazem sentir os seus efeitos na produção
contemporânea, o que aponta não apenas para a sua fundamental importância sob o
aspecto histórico, mas também por sua vitalidade e atualidade. No Rio Grande do
Sul, a influência da Bossa Nova também foi expressiva nos anos 60, havendo
diversos músicos que aderiram ao estilo, à época, ou sofreram a sua influência,
e os reflexos desta influência ainda podem ser sentidos na cena atual.
O distanciamento temporal de que podemos ora nos valer ajuda na possibilidade da
construção de uma visão de maior alcance sobre o que foi e representou a Bossa
Nova no cenário mais geral da Música Popular Brasileira, permitindo que se façam
outros “balanços da Bossa”, além da famosa e consistente análise de Augusto de
Campos. Ocorre que algumas das descrições que se encontra sobre o que veio a ser
e representar tal movimento merecem algumas ressalvas, sem embargo de sua
propriedade e pertinácia. Com efeito, em livros, textos e matérias de imprensa
que a abordam, a Bossa Nova geralmente é descrita como um movimento musical em
que cantore(a)s, compositore(a)s e instrumentistas levaram a efeito uma
verdadeira revolução no cenário da Música Popular Brasileira do final dos anos
50, e ao longo dos anos 60, retirando a nossa canção de uma ambiência noturna,
de um romantismo opressivo, deprimente, exagerado e brega, para aproximá-la da
luz do dia, do sol, da praia, do mar, de um novo romantismo mais alegre, solto,
enfim, como se fosse o instrumento de uma espécie de “purificação” ou
“reabilitação” (à semelhança, metaforicamente falando, de uma “desintoxicação”,
tal como oferecem as clínicas especializadas) para a canção brasileira. Vale
dizer, para alguns, a Bossa Nova surgiu para representar o papel de “antídoto”
contra o “mal” que o samba-canção, o tango e o bolero estariam causando para a
nossa música, uma vez que tais estilos, portadores de um sentimentalismo
“pesado”, desbragado, contavam então com grande prestígio no cenário da MPB.
Em nosso entender, não é que esta descrição seja incorreta ou inválida, pois em
grande medida ela é realmente pertinente. Contudo, reputamos que tal tipo de
visão não é suficiente para contemplar a grande diversidade de estilos e
influências verificadas no cenário da Bossa Nova, e que chegam a causar um certo
paroxismo frente a tal conceituação. De fato, a realidade é que diversas
manifestações e propostas relacionadas, de uma forma ou outra, à Bossa Nova, e
que se refletiram nas composições dos autores e em interpretações de cantores,
cantoras e instrumentistas, encontram-se quase que no limite do paradoxo em
relação à descrição referida. Realmente, reputamos que, se é bem verdade que
este tipo de visão realçou ao apreciador de música contemporâneo a importância
que a Bossa Nova teve em nossa música popular, contrastando-a com outros estilos
musicais então vicejantes no cenário da MPB, deixa de ressalvar algumas
sutilezas que merecem ser realçadas, sob pena de não se compreender por completo
a substância do movimento. Efetivamente, a “demonização” do samba-canção que tal
visão enceta (ainda que algumas vezes seja manifestada de forma camuflada), é
inclusive incoerente com grande parte da produção bossa-novista, uma vez que o
samba-canção não pode deixar de ser considerado como um dos elementos mater da
construção do novo estilo. Assim, mesmo que consideremos que o contraste e o
embate entre o samba-canção “dor-de-cotovelo” sirvam hoje como recurso de estilo
para realçar as novidades trazidas pela Bossa Nova, de outro lado, pode levar ao
entendimento equivocado de que estes eram os dois únicos estilos musicais
presentes no cenário brasileiro do final dos anos 50 e nos anos 60, e, pior
ainda, que eram de todo incompatíveis.
É notório que a Bossa Nova se constituiu, em sua espinha dorsal, e em sua
configuração primeira, da junção do samba-canção com o cool jazz americano,
tendo como figuras centrais, em sua formatação, João Gilberto, Tom Jobim e
Vinícius de Morais.
João Gilberto trouxe como contribuições principais o seu jeito suave, balançado
e introspectivo de cantar, aliado a uma nova batida de violão, que “simplificou”
o jeito de tocar o samba; contudo, embora tenha simplificado o jeito de cantar e
tocar, o cantor baiano construiu um paradoxo, ao fazer a junção dos dois
elementos. De fato, ao fazê-lo, João criou uma sofisticação enorme e uma grande
dificuldade, pois a dicotomia entre o ritmo do que era tocado e do que era
cantado trouxe não poucas exigências ao intérprete e ao ouvinte, causando um
estranhamento, a ponto de alguns acharem que ele era, de fato, “desafinado”,
como dizia a música de Tom Jobim/Newton Mendonça, por ele gravada. Vinícius de
Morais, como poeta ligado ao modernismo, também deu uma grande contribuição,
ajudando a realçar a importância das letras em nosso cancioneiro popular. Tom
Jobim, por outro lado, como um dos maiores compositores da música popular
mundial nascidos no século 20, emprestou o seu talento para a criação de
melodias memoráveis, mas, muito especialmente, trouxe como contribuição à Música
Popular Brasileira a disseminação da harmonia dissonante utilizada no âmbito do
jazz e da música erudita, que não era tão recorrente no repertório brasileiro de
então (sem embargo da complexidade de estilos instrumentalmente requintados, em
voga até a metade do século vinte, como é o caso do chorinho, do foxtrot e do
samba-boogie, com evidentes influências jazzísticas). A simplificação dos
arranjos instrumentais, sem despi-los de sofisticação, também deve ser creditada
como um dos grandes feitos do “maestro soberano”.
A estes ícones basilares da Bossa Nova, evidentemente, assomou-se um grande
número de talentosos compositore(a)s, cantore(a)s e instrumentistas, que, cada
qual a seu modo, enriqueceu em muito o estilo, criando um universo sonoro que,
muito ao largo de ser monolítico, enceta enorme diversidade.
Contudo, se atentarmos bem para o conjunto da obra dos compositore(a)s, cantore(a)s
e instrumentistas, veremos que significativa parte de sua produção destoa, em
alguma ordem, da conceitualização recorrente da Bossa Nova a que nos referimos.
Há que se esclarecer, de pronto, que o samba-canção não necessariamente era
utilizado como veículo para a destilação de queixas e de males amorosos, de
relacionamentos fracassados, de traições, enfim, de todo tipo de infortúnios
afetivos, embora esta tonalidade fosse realmente a mais encontrada. Sem embargo,
existe um elevado número de sambas-canções que tem leveza, e que são alegres e
“positivos”. O mais notório deles, certamente, é o clássico “Copacabana” (Alberto Ribeiro/João de Barro ou Braguinha). Em verdade, a denominação
“samba-canção” decorreu, em grande medida, da necessidade mercadológica de
estabelecer-se uma distinção entre o samba mais “lento” e com o samba
carnavalesco. Assim, o samba que fosse mais dolente, menos ligeiro, era
classificado pelas gravadoras, pelos autores, pelos intérpretes e pela crítica
musical como samba-canção. É bom lembrar que, até ao menos o final dos anos 60
(mas também, eventualmente, nos anos 70), havia o hábito das gravadoras de
definir nos discos brasileiros qual o estilo a que pertencia cada faixa. Assim,
as músicas, nos rótulos e capas dos discos, após o título, geralmente vinham
acompanhadas da indicação do seu estilo: samba de carnaval, samba-canção,
foxtrot, choro, baião, xote, etc. (até canções típicas da Bossa Nova, nos
primeiros discos contendo gravações do estilo, foram denominadas como “samba
bossa nova”, simplesmente “samba”, ou mesmo como “samba-canção”). No contexto da
Música Popular Brasileira anterior à Bossa Nova, a alegria e a leveza presentes
em muitas composições do novo estilo não traziam um elemento totalmente
estranho. Ou seja, o próprio conceito hodiernamente associado ao “samba-canção”,
a rigor, merece uma clivagem. De outro lado, faz-se necessário ressaltar que, se
o samba-canção aparentado com o bolero e o tango tinha grande expressão no
mercado musical nacional dos anos 50, faziam sucesso também naquele cenário
diversas manifestações “pra cima”, tais como o baião e os ritmos nortistas, o
samba dito “de morro” e as marchinhas carnavalescas (que até meados dos anos 60
mantinham grande vitalidade enquanto gênero), o então nascente rock (com os
originais em inglês e as versões em português, que logo deram ensejo a
composições próprias do roqueiros brasileiros, desaguando posteriormente na
formatação da Jovem Guarda), dentre outros. Isto sem contar com outros ritmos
vindos de fora do país, que ocupavam boa parte da programação das rádios, ainda
que mais dispersos e de forma diluída (calipso, cha cha cha, rumba, guarânia,
jazz, foxtrot, boogie-woogie, salsa, etc). Se contrastarmos a Bossa Nova com
estes outros ritmos e estilos, veremos que a alegria nela encetada era até de
cunho moderado. Aliás, cumpre dizer aqui que, em termos de “paradas de sucesso”,
a Bossa Nova, em que pese tenha ocupado um espaço razoável no mercado
fonográfico musical brasileiro, não chegou a ser, ao menos de forma regular, o
estilo musical de maior vendagem, e que obteve os maiores resultados comerciais,
mesmo em seu período “clássico”. Com efeito, em termos comerciais, a Bossa Nova
obteve resultados mais positivos no mercado norte-americano, inclusive em relação
ao mercado nacional interno. Tanto é assim que a grande maioria de seus
expoentes radicou-se nos EUA e outros países próximos àquele mercado, de forma
definitiva ou em temporadas de variada duração, por encontrarem grande acolhida
naquela seara.
Outrossim, se bem atentarmos ao conteúdo de inúmeras canções bossa-novistas,
veremos que o romantismo triste que se verifica em diversos sambas-canção -
contra os quais, segundo alguns, a Bossa Nova viria justamente como “antídoto”,
como anteriormente aludimos - não deixa de remanescer como elemento básico da
composição, embora muitas vezes amainado. O que parece haver como distinção mais
evidente, entre muitas canções “tristes” da Bossa Nova e o samba-canção “abolerado”,
não está, em muitos casos, tanto nas letras e melodias, mas sim na interpretação
do cantor ou da cantora - que na Bossa era mais sutil, com a voz reduzida em
volume e dramaticidade (embora nem sempre, é bom ressalvar) - e nos arranjos
menos dramáticos e “carregados” instrumentalmente, permeados que eram pelas
harmonias dissonantes. Até mesmo os insuspeitos Menescal e Bôscoli, paradigmas
da Bossa Nova ensolarada e praieira (cujo maior clássico é o emblemático “O
Barquinho”), criaram canções de grande melancolia, como, por exemplo, “Branca
Paz” e “Lágrima Primeira”, gravadas por Lúcio Alves, em seu disco “Balançamba” –
lançado pela gravadora Elenco, de Aloysio de Oliveira, um selo que funcionava
como uma espécie de ponta-de-lança da produção bossa-novista. A também luminosa
dupla Marcos e Paulo Sérgio Valle, capaz de produzir canções da mais
incontestável leveza, como o clássico “Samba de Verão”, criou, ao mesmo tempo,
peças de grande tristeza e melancolia, como “Preciso Aprender a Ser Só”. Isto
para não falar em Tom Jobim, que, além de canções solares como “Garota de
Ipanema” e “Samba do Avião”, também produziu, sozinho ou com seus diversos
parceiros, canções verdadeiramente lúgubres, como “Demais” (com Aloysio de
Oliveira) e “Se É Por Falta de Adeus” (com Dolores Duran), de um romantismo
dilacerante, que fundamentalmente se diferenciam em suas gravações do
samba-canção “dor-de-cotovelo” muito mais nos arranjos e na forma de interpretar
- com uma ligeira menor “octanagem” - do que tanto na melodia e na letra.
De
fato, estas músicas, elaboradas por compositores da primeira linha da Bossa
Nova, poderiam perfeitamente ser interpretadas por um Nelson Gonçalves (que
realmente gravou a mencionada canção dos irmãos Valle, em seu disco “Auto
Retrato”, além de muitas outras de compositores da Bossa), Orlando Dias, Anísio
Silva, e outros cantores clássicos do samba-canção “sofrido”, que não estariam
de todo fora de seu elemento. Com efeito, tanto isto é realidade, que inúmeros
cantores e cantoras de sucesso nos anos 50 e 60, intimamente ligados à estética
do samba-canção influenciado pelo bolero e pelo tango, ou mesmo outros que não
se dedicavam especificamente a um único estilo, passaram a gravar as canções dos
compositores vinculados à Bossa Nova, adaptando-as, em certa medida, ao seu
próprio estilo mais enfático, ao mesmo tempo em que procuravam dosar, na medida
do possível, a própria grandiloqüência. Poderíamos apontar como exemplo cantoras
tais como Hebe Camargo e Luely Figueiró. A grande paradigma desta comunicação
entre os estilos, a apontar a fragilidade da visão “antagonista” e “excludente”
entre a Bossa Nova e o samba-canção, referida antes, foi Maysa: “impunemente”, a
grande cantora misturava, em seus discos, a Bossa Nova, o bolero, o samba-canção
“exagerado”, clássicos do jazz e da música francesa, e inúmeras outras coisas,
muitas vezes “dramatizando” e “carregando” bastante na interpretação, na
comparação com o tratamento usual que as canções bossa-novistas recebiam por
parte das cantoras mais umbilicalmente vinculadas “originalmente” ao estilo,
tais como Nara Leão, Wanda Sá e Sílvia Telles, por exemplo. O mais interessante
é que Maysa não pode ser considerada como um elemento estranho à Bossa Nova: ao
contrário, a sua “adesão” ao movimento foi muito comemorada pelos compositores
bossa-novistas, orgulhosos com as gravações que fazia de suas músicas, segundo os
cronistas mais autorizados no assunto.
De fato, consoante pode-se constatar, em termos de lírica e poesia, grande parte
das canções bossa-novistas “tristes” estão no intermezzo entre a estética mais
dilacerada do samba-canção “dor-de-cotovelo”, e um novo romantismo, um pouco
mais leve, mas não “depuradas” de todo em sua melancolia. Em muitos casos, não
seria absurdo dizer que tais músicas estão muito mais aproximadas daquela
estética “ultrapassada” do que longe dela. Nesta medida, o que se desenha é que
a revolução trazida pela Bossa Nova não representou um brusco e irreconciliável
rompimento com a tradição musical brasileira e com a criação que lhe era
contemporânea, guardando, ainda, diversos pontos de contato, sem embargo de suas
particularidades. Prova disso é que alguns sambas-canção do estilo
“tradicional”, como “Saia do Caminho”, de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy, ainda
que contenham uma letra mais pessimista, funcionam perfeitamente sob a
formatação da Bossa Nova. Aliás, esta aproximação com a tradição musical
pré-Bossa Nova vem sendo feita magistralmente pelo próprio João Gilberto, e
também por cantores do quilate de Zé Renato, Ney Matogrosso, Jussara Silveira,
Adriana Marques, dentre muitos outros, apontando para a inexistência da
“incompatibilidade” aludida. O mais correto, em nosso entender, seria
identificar a Bossa Nova como uma complexa iniciativa coletiva de reapropriação,
reprocessamento e releitura de diversos elementos presentes no contexto musical
brasileiro em que surgiu, somados a outros que adicionou à “mistura”, mas sem
haver um rompimento absoluto com outras estéticas em voga. Neste passo, é muito
importante a lição de Carlos Lyra, manifestada em diversas de suas entrevistas,
no sentido de que na formatação da Bossa Nova também foram muito influentes o
bolero (de Lucho Gatica, entre outros) e a canção italiana, dentre outros
elementos. Com efeito, Carlinhos lembra muito pertinentemente que: “A Bossa Nova
não é só samba, como costuma se falar; o Tom Jobim, por exemplo, fazia muita
modinha e chorinho. A Bossa Nova é samba, mas também é modinha, chorinho,
rancho, baião e bolero”.
Realmente, é importante assinalar que, em que pese a Bossa Nova tenha se
constituído como um novo ritmo, diante da “batida diferente” consolidada por
João Gilberto, os compositores ligados ao movimento não deixaram de criar
canções em diversos outros estilos, os quais foram apropriados e assomados ao
novo destilo, e, muitas vezes, “repaginados”. Assim, muitas das músicas
compostas pelos compositores bossa-novistas ritmicamente não utilizam a batida
própria deste estilo; os autores adequaram valsas, samba-canção, samba
tradicional, boleros, tangos, à estética mais cool proposta pela bossa, à
harmonia dissonante e aos arranjos menos “carregados”. De fato, na consolidação
da Bossa Nova, não houve o descarte puro e simples da tradição musical
brasileira, ou mesmo a sua rejeição in totum, mas sim a sua adequação e
formatação a uma estética que primava, em sua primeira feição, pela suavidade na
forma de interpretação estética “econômica” que, como se verá, com o
desenvolvimento da carreira dos artistas ligados à Bossa Nova, também seria
tensionada dentro do próprio movimento ao longo dos anos 60 e 70. De outro lado,
vale registrar que a acusação que alguns puristas lançaram contra os artistas
ligados à Bossa Nova, quando de seu surgimento, de haverem permitido que fosse
grande a influência do jazz em sua formatação, tratou-se de um equívoco, uma vez
que a Música Popular Brasileira sempre contou com grande influência da música
européia e americana, em seus mais variados estilos. Com efeito, no contexto da
música brasileira feita antes da Bossa Nova, vamos observar a existência de
incontáveis gravações de versões em português de canções estrangeiras (tango,
bolero, cha cha cha, foxtrot, rumba, música italiana, francesa, alemã,
norte-americana, erudita, e o que mais fosse), além de ser ampla a utilização
destes ritmos “alienígenas” pelos compositores brasileiros. No que diz respeito
ao jazz, este não pode ser apontado como elemento estranho ao nosso universo
sonoro anterior à Bossa Nova, e tampouco novo no âmbito da MPB, porquanto desde
a “Época de Ouro”, sua influência já se fazia sentir, mesclando-se este ritmo ao
samba, ao choro e a diversos outros ritmos. A peculiaridade que se pode apontar
em relação à Bossa Nova, quanto à influência do jazz na MPB no período anterior
ao seu surgimento, é que o estilo jazzístico que ela colocou em evidência foi o
“West Coast”, ou cool, de Chet Baker, Stan Kenton, Gerry Mulligan, Stan Getz,
Dave Brubeck, Shelly Mane, entre outros, ao invés do hot jazz tradicional (dixieland,
charleston, ragtime, e outros estilos), o boogie-woogie, o swing e o foxtrot.
Isto, é bom que se diga, vale muito mais para o período inicial da Bossa Nova,
porque, com o desenvolvimento dos estilos do “samba jazz”, “sambossa” e “sambalanço”,
como prosseguimento da trajetória bossa-novista, o principal elemento de mistura
passou a ser, em muitos casos, o bebop, o que se denota especialmente na música
instrumental dos famosos e incontáveis trios e conjuntos surgidos, como o Zimbo
Trio, o Tamba e o 3-D, e também em cantores e cantoras centrados, em maior ou
menor medida, em um idioma “bebopiano”, como Leny Andrade, Pery Ribeiro, Wilson
Simonal, etc. De fato, mesmo cantores/compositores precursores como Johnny Alf,
e cantores ligados a grupos vocais como Os Cariocas, estão mais próximos deste
campo “bebopiano”, do que propriamente do jeito de interpretar de João Gilberto.
É curial notar que um dos desdobramentos da Bossa Nova, que chegou a ser nomeado
como “Música Popular Moderna”, por exemplo, na contracapa do primeiro disco de
Flora Purim, refletia bem o estilo que se consagrou no famoso “Beco das
Garrafas”, especialmente a partir dos meados dos anos 60, e que era muito mais
balançado, “gritado” e extrovertido que o que costumamos considerar como o
cânone bossa-novista. Aqui surge outra questão a merecer destaque, pois inúmeros
cantores ligados ao movimento eram adeptos de um tipo de canto que, se não
estava próximo ao canto de influência operística, em maior ou menor intensidade,
de diversos cantores “clássicos” anteriores ao seu surgimento (tais como Vicente
Celestino, Francisco Alves, Gastão Formenti, Sílvio Caldas, dentre muitos
outros, cujo estilo enfático já foi amainado bastante por Orlando Silva, por
exemplo, e até “antagonizado” por Mário Reis), tampouco pode ser identificado ao
estilo personalíssimo de João Gilberto. Curiosamente, ao fazermos um balanço do
trabalho de inúmeros intérpretes relacionados à Bossa Nova, veremos que uma
significativa parcela está muito mais próxima do tipo de interpretação de Dick
Farney e Lúcio Alves - considerados cantores “pré-Bossa Nova”, mas que também
não podem faltar em uma análise sobre o movimento -, que, a exemplo do papel
desempenhado por Frank Sinatra na música norte-americana (o qual, por sua vez,
“aproveitou a deixa” de Bing Crosby, que já representou um estilo menos “pesado”
do que o de seus antecessores), completaram a transição entre o estilo de canto
com influência operística e o cool no contexto da MPB, do que propriamente da
abordagem personalíssima do mestre baiano. Basta falarmos em Agostinho dos
Santos, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, Carlos Lyra, entre muitos outros, que
não são tão contidos quanto João, embora tenham também sido influenciados por
ele. Com as cantoras idem: se temos, de um lado, Nara Leão, Astrud Gilberto,
Claudette Soares, Sylvinha Telles, (estas três últimas, apesar de cantarem em um
estilo cool, mantiveram uma certa dose de dramaticidade em sua forma de
interpretar), temos, de outro lado, a já mencionada Maysa, Marisa Gata Mansa,
Ana Lúcia, Alaíde Costa, etc, cantoras que estavam pelo menos em um meio-termo
em relação à interpretação tradicional do samba-canção e aquela proposta por
João Gilberto, isto para não falar em inúmeras outras cantoras (veteranas ou
mesmo novatas) que, em que pese não gravassem exclusivamente o repertório bossa-novista, também fizeram diversas gravações das canções de seus
compositores, especialmente Elizeth Cardoso e Elza Soares, apenas para ficar em
alguns nomes.
Outrossim, há que se ter um certo cuidado ao anunciar proposições tais como a de
que, após o surgimento da forma de cantar representada por João Gilberto, o
canto de origem “empostada” (de filiação operística, em maior ou menor medida)
ou de “alto volume” tenha sido banido, ou mesmo, passado a ser minoritário no
âmbito da MPB. De fato, a circunstância de João Gilberto ter apontado uma forma
de cantar que exigia menos dotes vocais em termos de extensão e potência, não
quer dizer que cantores inspirados, em maior ou menor grau, no estilo mais
“possante” praticado pela maioria dos cantores pré-Bossa Nova, tenham deixado de
surgir, ou que os “veteranos” pré-Bossa Nova não mais fizessem sucesso. O canto
bossa-novista, sem dúvida, é uma decorrência e surge, enquanto possibilidade, da
difusão do uso e da melhor qualidade dos microfones, que foram evoluindo ao
longo do século 20, o que especialmente passou a ocorrer a partir da
consolidação do processo da gravação elétrica. Se na “Época de Ouro” da MPB a
grande maioria dos cantores era de filiação “operística”, e que tentavam adequar
tal tradição às condições da música popular - sendo esta, portanto, a estética a
mais usual -, isto não impediu de todo que o canto mais coloquial e leve
encontrasse seus adeptos, e que estes fizessem também muito sucesso, tal como
ocorreu com Mário Reis e Carmen Miranda, por exemplo, mas inclusive com
compositores que também cantavam, como Lamartine Babo e Noel Rosa. Com o
surgimento da Bossa Nova, a “balança” passou a ter mais equilíbrio,
“emparelhando”, em termos de adeptos, as duas abordagens. Mas, repise-se, a
Bossa Nova não representou a “morte” daquele estilo de cantar mais usual antes
de seu surgimento. A forma de cantar, no cenário musical pós-Bossa, é bom que se
diga, passou a apresentar inúmeras variações, praticamente de interprete a
intérprete. Isto decorreu de diversos fatos: os cantores da “Época de Ouro”
ainda faziam bastante sucesso comercial contemporaneamente ao surgimento e à
consolidação da Bossa Nova, embora, em grande medida, tenham passado a ser
considerados ultrapassados por parte da crítica especializada; inúmeros cantores
“afilhados” do estilo “antigo” também surgiram, na trilha da Jovem Guarda e da
música “romântica”, tais como Wanderley Cardoso, Jerry Adriani, Altemar Dutra,
Nelson Ned, Moacir Franco, Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo, dentre outros; além
disto, com o advento do rock no cenário musical brasileiro, um canto
eventualmente menos empostado, mas igualmente vigoroso, estridente e volumoso
fez-se sentir, contrastando com o estilo cool proposto pela Bossa Nova,
podendo-se apontar, neste sentido, Eduardo Araújo, Silvinha, Ronnie Von, etc
(ao mesmo tempo, é bom ressaltar que a Bossa Nova também influenciou o rock
brasileiro encarnado pela Jovem Guarda, o que se denota facilmente observando a
maneira de cantar de Roberto e Erasmo Carlos, Leno e Lilian, etc., o que também
houve em relação aos tropicalistas). Este “embate” entre o canto cool e hard,
aliás, não aconteceu apenas no Brasil, mas em todo o cenário da música popular
ocidental. Efetivamente, o surgimento de microfones melhores e a aprimoração da
gravação elétrica trouxeram este tipo de questão ao campo da música popular
feita no mundo ocidental em geral. Mas até hoje, em conclusão, é certo que
podemos observar a existência de diversas formas de cantar no âmbito da música
popular internacional, a apontar que as possibilidades trazidas pelo microfone e
a gravação elétrica não redundaram na extinção do canto mais vigoroso neste
âmbito.
Quanto à temática das letras, conforme já pontuamos, vemos no horizonte da Bossa
Nova também uma grande variedade de assuntos, além de um humor afetivo que é
capaz de oscilar de um a outro extremo, a contrastar com a idéia de que a Bossa
Nova se resume ao “amor, ao sorriso e à flor”. Inclusive a política passou a
integrar esta gama de interesses, trazida à baila pela parcela de artistas
“engajados”, que acrescentaram ao universo da Bossa Nova a denúncia de nossas
vicissitudes sociais, temas que geralmente eram mais encontrados no âmbito da
música nordestina e do samba, no rastro do golpe militar de 1964. E a
aproximação rítmica com o samba tradicional e os ritmos nordestinos, como
sabemos também foi levada a efeito por diversos expoentes da “segunda geração”
da Bossa Nova, como Edu Lobo, Chico Buarque, Geraldo Vandré, o que aumentou o já
alto grau de misturas e de elementos estéticos que se agregaram ao estilo. Como
veremos a seguir, o mesmo processo deu-se, em certa medida, com a Bossa Nova
feita por compositores gaúchos, que passou também pelas diversas facetas
apresentadas pelo movimento em geral. Assim, ainda que de forma pontual,
procuramos apontar a grande complexidade e multiplicidade de que se revestiu o
movimento bossa-novista, a desaconselhar conclusões monolíticas acerca de seus
fundamentos.
No que diz respeito aos gaúchos, o estilo bossanovístico trouxe significativa
influência para a música urbana. Mas representou também um papel importante em
relação à música gaúcha de viés folclórico e tradicional, como veremos.
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De início, cumpre lembrar a já mitológica passagem de João Gilberto pela
capital gaúcha (assinalada por Ruy Castro no seu clássico livro “Chega de
Saudade”), que aqui se radicou durante um período a convite de Luís Telles, seu
amigo do conjunto vocal Quitandinha Serenaders (o nome faz alusão ao famoso
cassino/hotel Quitandinha, de Petrópolis/RJ), que era integrado por três
gaúchos e mais Luís Bonfá (grande violonista, craque da Bossa Nova e há muito
tempo radicado nos EUA). João Gilberto morou no Hotel Majestic, travando contato
com o poeta Mário Quintana (hoje o imóvel abriga a Casa de Cultura Mário
Quintana, mantida pelo Governo do RS). E deu canjas por aqui, por exemplo, no
Clube da Chave, de Hamilton Chaves (um dos fundadores do Clube dos Compositores
Gaúchos). Segundo Ruy Castro, o tempo que João Gilberto passou por aqui serviu
para ajudá-lo a ordenar suas idéias, antes de sua volta triunfal à então capital
federal, que culminou com a formatação do estilo através de sua “batida
diferente”;

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O Conjunto Farroupilha - Formado por Tasso Bangel, Estrela Dalva, Iná Bangel e
Danilo Vidal -, embora seja mais conhecido por seu trabalho de divulgação de
canções do folclore e do tradicionalismo gaúcho, em um segundo momento “tirou a
pilcha” e, trajando roupas “urbanas”, passou a centrar foco também na Bossa
Nova, chegando a fazer a primeira gravação oficial em disco do clássico “Samba de
uma nota só”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, a segunda de “Dindi”, a quarta de “A
Felicidade”, além de registrar “Por causa de você”. De fato, o conjunto vocal
gaúcho, que se transferiu para São Paulo em 1956, agregou-se à onda de conjuntos
vocais que vicejavam em torno da Bossa Nova, e gravou inúmeras canções da Bossa
Nova em seus LP's, dando uma importante contribuição na divulgação do então novo
ritmo. Na década de 80, o clássico baixista da Bossa, Sabá, ex-Jongo Trio e Som
Três, chegou a integrar o conjunto;
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A cantora gaúcha Luely Figueiró, que também gravou, no final dos anos 50,
alguns clássicos da música tradicional dos pampas, trajava um vestido de prenda
na capa de um dos seus discos, mas não se fez de rogada para registrar na mesma
bolacha algumas pérolas do repertório de Tito Madi, etc, recém “saídas do
forno”. Também foi uma das primeiras intérpretes a gravar canções clássicas de
Tom Jobim, como “A Felicidade”. A canção “O Nosso Amor” foi “estreada” por ela em
disco de 1959. Ingressou na Rádio Gaúcha em 1953, tendo sido eleita Rainha do
Rádio do RS. Em 1957 mudou-se para São Paulo, contratada pela Rádio e Televisão
Record, atuando também na TV Tupi. Em 1958 foi eleita a Rainha dos Músicos de
São Paulo, pelo Sindicato dos Músicos Profissionais. Uma bela morena, Luely foi
umas das “certinhas do Stanislaw” Ponte Preta, famoso cronista carioca, e também
uma atriz com grande filmografia no cinema nacional. Além disso, atualmente é
escritora/astróloga;
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De fundamental importância para a propagação do repertório da Bossa Nova no RS
também foram os conjuntos melódicos. Estes conjuntos, formados por estudantes
universitários e/ou músicos da noite, não se dedicavam especificamente à Bossa
Nova ou a um outro ritmo. Sua proposta era tocar música romântica, especialmente
para embalar os casais de namorados em bailes e reuniões dançantes, tendo ficado
famosos os que eram realizados no Salão de Festas da Reitoria da UFRGS, e em
diversos clubes sociais pelo Estado afora. Assim, estas formações, surgidas a
partir de meados dos anos 50, que representaram um enxugamento em número de
integrantes em relação às orquestras, então dominantes no mercado de bailes,
interpretavam a música brasileira e internacional das paradas de sucesso, em
versões cool e suaves. Vários destes conjuntos eram primordialmente
instrumentais, mas também passaram a incluir crooners. O mais notório destes
conjuntos é o de Norberto Baldauf, que teve uma trajetória discográfica também
expressiva, além de animar milhares de bailes e festas, e cuja trajetória foi
espetacularmente resgatada em livro do jornalista Marcello Campos. Nestas
bolachas lançadas pelo grupo, e pelos demais conjuntos que chegaram a gravar, há
várias gravações de canções da Bossa Nova, num formato semelhante ao emprestado
às canções pelos músicos do cool jazz.
Um bom paralelo entre o som feito por
estes grupos pode ser estabelecido com o trabalho de João Donato e seu Conjunto
(no primeiro disco lançado), e com o grupo de Valdir Calmon. Estas gravações de
músicas da Bossa Nova foram importantes para divulgar o estilo no RS, devido à
grande popularidade que detinham estes conjuntos melódicos junto ao público
ouvinte. Ademais, vários dos instrumentistas e cantores de alto quilate ligados
a tais conjuntos tinham formação jazzística e bossa-novística, sendo bons
exemplos neste sentido o pianista Adão Pinheiro (que era do Flamboyant, que
também gravou um LP), Geraldo Flach (que era do conjunto de Renato), Mutinho
(também do Flamboyant), Carlos Calcanhotto (baterista, pai da cantora Adriana),
Nilton e Wilson Baraldo, Canela, Argos Montenegro (pai do baterista Zé
Montenegro), Nenê, Mamão, Edgar Pozzer, Sabino Loguércio, Léo Belloni, etc. De
fato, os conjuntos melódicos reuniam muitos “cobras”, entre instrumentistas e
cantores de grande fundamento. Elis Regina chegou a apresentar-se em bailes com
algumas destas formações. Além do conjunto de Baldauf e o Flamboyant, inúmeros
grupos formaram-se pela capital e pelo estado afora, tais como Renato e seu
Conjunto, Flamingo, Conjunto João Roberto, Primo e seu Conjunto, dentre muitos
outros. Até o saxofonista/escritor Luis Fernando Veríssimo e o
baterista/humorista Renato Pereira estavam nesta onda dos conjuntos melódicos.
Foi neste esquema dos conjuntos melódicos que surgiram dois instrumentistas
gaúchos que obtiveram grande reputação nacional e internacional, gravando discos
no Brasil, e se radicando inclusive nos EUA. Manfredo Fest e Breno Sauer, dois
grandes pianistas, tinham seus conjuntos melódicos e, reunindo sempre ótimos
instrumentistas, lograram registrar LP's lançados ainda no Brasil nos anos 60
que hoje são “caçados” como verdadeiras relíquias pelos colecionadores em todo
mundo, e objeto de relançamento em CD por selos britânicos e americanos, isto
sem falar em seus discos gravados e lançados no exterior, alguns que inclusive
não chegaram por aqui. Sua atuação no centro do país, agregando-se aos
principais artistas ligados à Bossa Nova, mesmo antes de se radicarem na América
do Norte, gravando discos e participando de shows, garante-lhes um expressivo
espaço no panteão dos grandes deste estilo;
#
A Bossa Nova no RS, assim como no centro do país, também teve aqui seu viés
universitário, com mostras e festivais competitivos, reunindo instrumentistas,
cantores e compositores. Merece especial destaque, na divulgação do estilo, o Arquisamba, mostra de Bossa Nova organizada pelo pessoal do DAFA (Arquitetura da
UFRGS). O primeiro Arquisamba, realizado em 1965, no Salão de Atos da Reitoria
da UFRGS, trouxe para Porto Alegre Baden Powell, Sylvia Telles, Edu Lobo, Tamba
Trio e Aloysio de Oliveira; em 1966, quando o show foi realizado no cinema
Cacique, vieram Chico Buarque, Nara Leão, Quarteto em Cy e Bossa Jazz Trio; o
terceiro show, em 1967, também realizado neste cinema, contou com Oscar Castro
Neves, Quarteto em Cy, MPB4, Sidney Miller, Vinícius de Moraes e os gaúchos do
Adão Pinheiro Trio; o quarto, promovido em abril de 1968, teve Baden Powell, Edu
Lopo, Gracinha Leporace, Oscar Castro Neves Trio, Quarteto em Cy, Sidney Miller
e Stanislaw Ponte Preta.
Dos Arquisamba, o pessoal do DAFA partiu para a organização dos famosos
Festivais da Arquitetura, realizados na modalidade que estava então consagrada
no centro do país, com eliminatórias classificatórias, premiação, transmissão da
TV e da Rádio Gaúcha... Enfim, eram festivais de cunho competitivo,
apresentados no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS. O evento foi denominado como
“Festival Universitário da Música Popular Brasileira”, e teve duas edições. O
Festival de 1968 teve feição bossa-novista, e contou com artistas do centro do
país, além de vários gaúchos. Vieram para Porto Alegre Paulinho Tapajós, Arthur
Verocai, Beth Carvalho e Eduardo Conde, dentre outros. Foi lançado pela
gravadora Philips um LP contendo as treze músicas finalistas, que foi gravado no
Rio, sendo que os compositores e cantores daqui não participaram da gravação. Foram convidados para o registro sonoro artistas/cantores que estavam
despontando no centro do país. Das canções finalistas/classificadas, que constam
do LP, nove eram de gaúchos: “Você, Por Telegrama” (de Laís Marques, cantada por
Joyce); “Quem Vem Lá” (também de Laís, cantada por Sônia Lemos); “A Caminho de
Casa” (outra de Laís, intepretada por Magda); “Samba do Cotidiano” (de César
Dorfman, cantada por Paulo Marquez); “Jogo de Viola” (primeiro lugar no
festival, de João Alberto Soares e Paulinho do Pinho, cantada por Edu Lobo e
Lucelena, que viria a ser a Lucina da dupla Luli e Lucina); “Canto do Encontro”
(de Wanderley Falkenberg, cantada pelo “Momento 4”, do qual participava Zé
Rodrix); “Canção do Entardecer” (também de Wanderley, cantada por Lucelena);
“Fantasia Urbana” (de César Dorfman, cantada por Mércia); “Sim ou Não” (de Raul Ellwanger, cantada por Junaldo). Dos artistas “de fora”, cujas canções foram
gravadas no LP, cumpre salientar “Domingo Antigo”, de Arthur Verocai e Arnoldo
Medeiros, gravada no LP por Gal Costa.
Nas eliminatórias e finais, constaram canções como: “Por causa sua” (Mauro Kwitko/Paulo
Pompeu, que ganhou o Festival do Colégio Bom Conselho de 1968, mas “não levou”,
pois os autores eram universitários; o prêmio ficou mesmo com o conjunto
Musikkorps, com a canção “Com Clarissa”), “Zé do 13” (Raul Ellwanger, acompanhado
de Os Redondos), “De Rodeio” (Geraldo Flach, cantada por Maria de Lourdes, que foi
“iniciada” no violão por João Gilberto, em 1954), “Canto do Encontro” (cantada
por Jussara e Marli) e “Rancho do Amor Momento” (interpretada por Lucinha, do
Grupo Manifesto, do RJ), ambas de Wanderley Falkenberg, “Rosinha Rose” (João
Alberto Soares, cantada por Paulo Roberto), “Quem Vem Lá” (Laís Aquino Marques),
“Boa Nova” (Maria de Lourdes Flach, apresentada por Renato e seu Conjunto);
“Fantasia Urbana” (César Dorfman), dentre outras. “Jogo de Viola”, que venceu o
festival, foi interpretada no certame por Érika Norimar e Sabino Loguércio.
No II Festival da Arquitetura, de 1969, do qual também participaram
universitários de todo o país, e grandes nomes como Joyce, Nana Caymmi, Paulinho
Tapajós, Danilo Caymmi, Zé Rodrix, etc., foram mostradas canções como “Último
Adeus” (Geraldo Flach), “Pelas Estradas do Meu Sonho” (Paulo Dorfman), “Redemoinho”
(Geraldo Flach e João Alberto Soares), “Girança” (Renato César Filho e Telmo
Kothlar, cantada por Eliana Chaves, ou Nana Chaves/Ellwanger), “Canto para Duas
Incertezas” (Carlos Barzcht), dentre outros. Mas esta segunda edição foi dominada
pela Tropicália, que venceu com “Por Favor Sucesso” (Carlinhos Hartlieb com
acompanhamento do Liverpool - ver nosso texto sobre o
Tropicalismo gaúcho);
#
O Festival Sulbrasileiro da Canção, que teve três edições (67/68/69), e que
era transmitido pela TV Gaúcha, também foi palco privilegiado para a divulgação
do trabalho dos compositores, instrumentistas e intérpretes gaúchos ligados à
Bossa Nova. Este festival era de caráter aberto, participando compositores dos
mais variados estilos. Girou em torno do samba-canção, da marcha rancho, da
toada, do samba tradicional e da Bossa Nova, mas na última edição também teve um
pouco da Tropicália. Inclusive Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves
participaram, e até o carioca Zé Keti concorreu no primeiro, realizado em 1967.
Este certame foi vencido pela gaúcha Rosa Maria, com a interpretação de Vera
Beatriz para a música “Cantiga da Menina”. Luiz Mauro, com “Marcha Para Um Novo
Amor”, ficou com o terceiro lugar. Alguns dos destaques foram “Batucada” e
“Canto de Chegar”, ambas de João Palmeiro e Ivaldo Roque, interpretadas pelo
“Canta Povo”; “Razão de Ventar”, de Cláudio Siega; “Vai em Frente” (Ney Christ),
com Renato e seu Conjunto; Maria da Conceição (Victor Graeff Jr.). Desta edição
foi editado um LP pela gravadora gaúcha CSB Discos, dirigida pelo cantor Rubens
Santos, parceiro de Lupicínio Rodrigues (este LP é uma das “jóias da coroa” de
nossa coleção, e vamos fazer um especial rodando o seu conteúdo no programa
“Paralelo 30”, na
Rádio Buzina do Gasômetro.
Em 1968, o Festival teve canções como: “Carroceiro” (Mutinho); “Amanhã de manhã” e
“O
Gaúcho” (esta classificada para o festival da TV Excelsior, o “Brasil Canta no
Rio”); “Tempo de Partir” (Sérgio Napp); “Samba da Borges” (João Palmeiro/Mutinho);
“Censura Contra Senso” (Bayard Seganfredo); “Jogo de Viola” (Paulinho do Pinho e
João Alberto Soares); “Viva a Paz” (Ivaldo Roque/Manoel Chotguis); “Eu e Você”,
“Fim
de Madrugada”, “Meu Olhar” (Luiz Mauro); “Paz no Mundo” (Ney Christ); “Toadinha” (César
Dorfman, apresentada por Sonia e Carmen); “Distância” (Luiz Marcírio Machado e
Ivan Fetter); “Strip tease” (Sérgio Reis). Embora a grande quantidade e qualidade
das canções bossa-novistas, o festival foi vencido pelo genial sambista da “velha
guarda” Túlio Piva, com seu indefectível “Pandeiro de Prata”.
Em 1969, última edição do festival, concorreram canções como: “Em Porto Alegre”
(João Palmeiro/Paulinho do Pinho); “Nossa Manhã de Amor” e “Chica Maria” (Luiz Mauro,
esta última foi a primeira colocada); “Lua Amarela”, “Noite Branca” e “Outra Vez”
(César Dorfman); “Viandante” (Sérgio Napp); “Ontem, Hoje e Sempre” (Raul Ellwanger/Telmo
Kothlar); “Mamamita” (Homero Lopes Filho); “Menina Flor” (Ney Christ, cantada por
Luiz Mauro); “Memórias” (Paulo Dorfman/Sérgio Napp).
Grandes intérpretes ficaram encarregados de apresentar as músicas, quando não
eram cantadas pelos próprios compositores, tais como Edgar Pozzer, Érika Norimar,
Sepé Tiaraju de los Santos, Lucia Maria, Paulo Roberto, Sabino Loguércio, Vera
Beatriz, Trio Mayagô, Trio Arpege, dentre muitos outros;
#
Elis Regina - Embora seja apontada por alguns como portadora da verdadeira
antítese do canto bossa-novístico, conforme já destacamos, em verdade insere-se
na grande diversidade de estilos dos cantores que se dedicaram a interpretar e
gravar as canções da Bossa Nova. Cantora de grandes recursos e de enorme
versatilidade, soube dar o tom certo exigido pelas canções da Bossa que
registrou em sua infindável discografia, sendo de destacar, naturalmente, o
antológico LP que gravou em conjunto com Tom Jobim, já nos anos 70, registrando
diversas canções do mestre, dentre elas, a indefectível “Águas de Março”. Ainda
antes de estourar nacionalmente com “Arrastão”, desfraldando a bandeira da Bossa
engajada, Elis registrou o trabalho de diversos compositores gaúchos em seus
primeiros discos, sendo que dentre eles havia vários bossa-novistas, tais como
Luiz Mauro, Mutinho, João Palmeiro, Geraldo Flach (em parceria com o carioca
Arthur Verocai, na canção “Novo Rumo”), e Sérgio Napp;
#
Geraldo Flach: Um dos mais consagrados pianistas do RS e grande nome de nossa
música instrumental, além de reconhecido compositor, iniciou sua trajetória
precocemente, aos 14 anos. Ingressou no conjunto de baile de Renato, nos anos
60, e, com um trio (ele ao piano, mais baixo e bateria), apresentou um programa
na TV Piratini, participando também do programa “O Piano em Destaque”, na Rádio
Difusora. Em 1964, foi premiado como o melhor solista do II Festival de Jazz e
Bossa Nova, realizado em Tramandaí, e produzido pelo radialista e apresentador
Glênio Reis. Enveredando pela composição, formou diversas parcerias, e
participou de diversos festivais em nível local e nacional, tais como o I
Festival Universitário de MPB (Festival da Arquitetura de 1968); I Festival
Universitário da Guanabara, em 1968, com "Um Novo Rumo", em parceria com o
carioca Arthur Verocai, que foi gravada por Elis Regina; II Festival
Universitário da MPB (O segundo festival da Arquitetura); III Festival
Universitário da Guanabara, em 1970; MPB 80 (Rede Globo de Televisão, em 1981);
Grito de Alerta (Porto Alegre/1982), com "Quintana", parceria com João Alberto
Soares, tirando o primeiro lugar, com interpretação de Nei Lisboa; Festival dos
Festivais (Rede Globo/1985), dentre vários outros certames. Integrou a "Frente
Popular Gaúcha de Música Popular" e o movimento "Musica Nossa", no Rio de
Janeiro. Já se apresentou em conjunto com nomes como Ivan Lins, Rosinha de
Valença, Lucinha Lins, Djalma Corrêa, Nana Caymmi, dentre inúmeros outros
grandes nomes de expressão nacional e local. Um dos mais atuantes músicos do
Estado, Geraldo já lançou diversos LP's e CD's instrumentais, tendo atuado como
representante gaúcho no “Free Jazz Festival”, quando o evento teve Porto Alegre
também como uma de suas sedes. Geraldo também destaca-se como autor de trilhas
sonoras e jingles. Como diretor artístico da gravadora ISAEC, selo totalmente
gaúcho dos anos 70, Geraldo foi o responsável, dentre inúmeros lançamentos, pela
produção do disco (LP duplo) “Música Popular Gaúcha”, um dos mais importantes
registros fonográficos já lançados em todos os tempos em solo gaúcho. Graças a
este empreendimento, diversas canções que se destacaram nos festivais
mencionados foram devidamente registradas, permitindo que a nossa memória
musical não se esvaísse;
#
Adão Pinheiro/Paulo Pinheiro: Pertencentes a uma família musical (além deles,
os outros irmãos, Hélio e Edy - este já falecido -, também são músicos
destacados), os dois pianistas têm uma longa folha de serviços prestados à
música de Porto Alegre. Adão, que fez parte do lendário conjunto Flamboyant,
atualmente é responsável pelas teclas do conjunto Jazz 6, integrado, dentre
outros “cobras”, pelo escritor e saxofonista Luis Fernando Veríssimo, o qual já
lançou alguns CD's, com interpretações de clássicos do jazz e da Bossa Nova. É um
dos principais instrumentistas gaúchos que transita neste universo jazzístico e bossa-novista, e já acompanhou nomes como Wilson Simonal, Elis Regina, Altamiro
Carrilho e Nelson Gonçalves. Paulo Pinheiro, além de pianista, foi proprietário
do legendário bar “Alambique's”, casa que recebeu inúmeros nomes de prestígio da
MPB e da Bossa Nova, tais como Pery Ribeiro, Leni Andrade, Tito Madi e Dick
Farney, e que foram acompanhados pelo anfitrião;
#
Sérgio Napp: No início de sua atividade como compositor, nos anos 60, Napp foi
bastante influenciado pela Bossa Nova, o que refletiu em suas canções da época.
É o caso da canção “Pequeno Sol”, com a qual ganhou o Festival de Novos
Compositores do RS, da TV Piratini; esta música, que foi posteriormente gravada
por Hebe Camargo, obteve a sétima colocação no Festival “Um Milhão Por Uma
Canção”, realizado no Rio de Janeiro. Em 1964, Elis Regina gravou “Meus Olhos”,
Tito Madi registrou “Pra que mentir”, e Marisa Barroso “Vou ficar com você”. Em
1968, participou do II Festival Sulbrasileiro da Canção e do Festival
Internacional da Canção (FIC) com a música “Tempo de Partir”, que foi gravada
por Clara Nunes e Walter Matesco. Em 1969, obteve a quinta colocação no Festival
Sulbrasileiro da Canção com “Memórias”, música feita em parceria com Paulo Dorfman. Nos anos 80, destacaram-se suas composições na seara nativista, feitas
em parceria com Mário Barbará, César Dorfman, Vinicius Brum, dentre vários
outros parceiros, e pelas quais Napp é mais conhecido como letrista.
Individualmente, Napp lançou um LP e três CD's. O último CD, lançado
recentemente, resgata sua fase bossa-novista, com brilhantes interpretações da
cantora Ângela Jobim e arranjos de New;
# Luis
Mauro: Pai do tecladista de jazz/bossa Luis Mauro Filho, Luis Mauro teve duas
canções imortalizadas em disco por Elis Regina: “Mania de Gostar” e “Sem Teu
Amor”. Foi figura destacada nos festivais antes mencionados;
# Mutinho (ou Lupicínio
Rodrigues Sobrinho) foi baterista do conjunto de Toquinho e Vinícius. Com
Toquinho, especialmente, mantém uma parceria musical muito profícua, sendo um
dos autores do clássico “Aquarela”, dentre diversas outras músicas compostas
pela dupla;
#
Ivaldo Roque, exímio violonista popular e clássico, fundou, junto com o
maestro Zé Gomes (pai do baixista André Gomes, do Cheiro de Vida), Darcy Alves e
outros professores, o Clube do Violão, nos anos 60, que funcionava na Galeria
Chaves, que foi um verdadeiro centro de irradiação das harmonias e ritmos da
Bossa Nova para o pessoal que pretendia fazer música e aprofundar-se no
instrumento à época. Posteriormente, foi professor do Palestrina.
Em 1966, foi um dos criadores do grupo “Canta Povo”, de que participou junto com
Giba-Giba, João Palmeiro, Laís Marques, Sílvia, Celso Marques e Mutinho. Na
década de 70, Ivaldo formou, ao lado de Jerônimo Jardim, o grupo Pentagrama
(além dos dois, as cantoras Loma e Yoli, esta também baterista), e Tenison Ramos no
baixo). O Pentagrama foi um dos melhores grupos vocais da história da música
gaúcha, sendo uma verdadeira seleção de craques. Provavelmente tenha sido o
grupo que com maior radicalidade e ousadia procurou fundir o elemento nativo
gaúcho aos avanços melódicos e harmônicos surgidos na MPB a partir da Bossa
Nova. De fato, os arranjos vocais e as harmonias instrumentais são de grande
complexidade, com muitas dissonâncias, dando um efeito de rara beleza na fusão
da estética bossa-novista aos ritmos e à temática próprios à música nativa e
tradicional do RS. Mas, concomitantemente, o grupo também manteve um viés
urbano, em decorrência da ampla atuação de seus membros em diversas frentes,
dentre elas, a noite porto-alegrense e o ambiente das escolas de samba;
#
João Palmeiro, além de haver integrado o Canta Povo, é compositor de diversas
canções no estilo da Bossa Nova, tais como “Outono” (em parceria com Ivaldo Roque)
e “O Orvalho e a Rosa” (em parceria com Mutinho), dentre muitas outras. A sua
bossa “Formiguinha Triste” foi gravada por Elis Regina. Em 2001, num magnífico
trabalho de resgate capitaneado pela cantora/produtora cultural Maria Lúcia, com
direção artística de Toneco, financiado pela Prefeitura de Porto Alegre, foi
editado um CD com músicas do compositor e seus parceiros interpretadas por ele
próprio e um “timaço” de intérpretes e instrumentistas, tais como Glória
Oliveira, Geraldo Flach, Fernando do Ó, Chico Gomes, Beto Bollo, Flora Almeida,
Fátima e Heleno Gimenez, Zé Caradípia, Evaldo Guedes...;
#
Jerônimo Jardim, em sua carreira solo, manteve a “receita” do Pentagrama,
mesclando uma forte influência bossa-novista ao universo da música gaúcha, sem
deixar de cuidar de sua produção MPBista, também de grande qualidade, e que lhe
valeu destaque nacional, especialmente ao vencer um Festival da Rede Globo nos
anos 80, com a música “Purpurina”, em interpretação de Lucinha Lins. Em sua
carreira solo, Jerônimo lançou vários discos (o primeiro LP foi pela ISAEC),
construindo uma obra plural e sólida, valendo-se quase que invariavelmente das
harmonias complexas de filiação bossa-novista. Um grande exemplo, neste sentido,
é a canção “Moda de Sangue”, parceria sua com Ivaldo Roque, que foi registrada
magistralmente por Elis Regina;
#
Raul Ellwanger destacou-se ainda no final da década de 60, participando dos
Festivais da Arquitetura e Sulbrasileiro da Canção. É um dos nomes gaúchos
ligados à “bossa engajada”, e conseguiu um resultado de excelente qualidade em
suas canções mesclando a estética da Bossa aos temas regionais. Devido à sua
militância política, teve que se exilar inicialmente no Chile, o que o impediu
de apresentar a sua canção “O Gaúcho” no Festival da TV Excelsior “O Brasil
Canta no Rio”, de 1968, para o qual se classificou no Festival Sulbrasileiro. A
interpretação ficou a cargo de Homero Lopes Filho, e consta do LP do festival.
Esta canção foi incluída no CD “Boa Maré”, lançado em 2004 por Raul, que contém
outra música marcante daquele período, “Rosinha”. Após a queda de Allende, Raul
exilou-se no Uruguai e na Argentina, quando manteve contato estreito com
Vinícius de Moraes, Toquinho, Ferreira Gullar, dentre outros brasileiros
ilustres. Em 1977 retornou ao Brasil, voltando a radicar-se em Porto Alegre, e
conhecendo a partir de então grande sucesso, especialmente por sua canção “Pealo
de Sangue”, um verdadeiro hino porto-alegrense e gaúcho. Suas músicas já foram
gravadas por grandes nomes, tais como Mercedes Sosa e Elis Regina. Para conhecer
mais de sua obra, visite o site
http://www.raulellwanger.com.br;
#
Wanderley Falkenberg: A exemplo de Laís Marques, Wanderley inicialmente esteve
ligado à estética da Bossa Nova, sendo, posteriormente, um dos principais nomes
do Tropicalismo gaúcho. É dele a bela “Canto do Encontro”, registrada no LP do
Festival da Arquitetura pelo “Momento 4”, e de “Canção do Entardecer”, gravada
por Lucina, conforme destacado acima. O mais conhecido clássico de Wanderley é
“Lugarejo”, canção feita em parceria com Giba-Giba;
#
Nenê (Realcino Lima Filho): O baterista Nenê surgiu também no cenário musical
gaúcho nos anos 60, participando de conjuntos melódicos e festivais. É
atualmente um dos grandes nomes da música instrumental brasileira, além de
destacado compositor de canções de inspiração bossa-novista (ele é também
pianista). Já tocou com feras do quilate de Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal,
Paulo Moura, Pau Brasil, e acompanhou Milton Nascimento, Gal Costa, Maria
Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Dick Farney, Ângela Maria, etc. Desde
2001 vem se apresentando com o seu trio em festivais de jazz pelo Brasil e pelo
mundo. Um dos destaques de sua discografia é o LP (relançado em CD) “Minuano”,
em que expõe as suas raízes gaúchas, ao lado de inúmeras referências. Residiu
por 12 anos em Paris;
#
Paulinho do Pinho: Vencedor, em parceria com João Alberto Soares, do Festival
da Arquitetura de 68, com “Jogo de Viola”, gravada por Edu Lobo e Lucina. Grande
violonista, está radicado em Buenos Aires desde o início dos anos 70, tendo
gravado alguns discos pela Philips argentina. Continua em plena atividade
musical na capital portenha;
#
Érika Norimar: Cantora que, a exemplo de Elis Regina, foi revelada no programa
“O Clube do Guri”, de Ary Rego, na Rádio Farroupilha. Destacou-se nos festivais
gaúchos antes mencionados, sendo convidada para gravar pela gravadora
Continental um LP. Além de canções clássicas da Bossa Nova, registrou a
magnífica canção “O Sonho”, de César Dorfman, realmente um dos clássicos da
Bossa Nova gaúcha. Érika registrou na bolacha músicas de Sidney Miller, Danilo
Caymmi, Paulinho Tapajós, Edmundo Souto, Sérgio Bittencourt, Ataulfo Alves, Carlos
Imperial, Irney Reis, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Fernando César e Elisabeth, e
também dos gaúchos Wanderley Falkenberg (Canto do Encontro) e Túlio Piva
(Pandeiro de Prata). Gravou em 69, compactos com as música “Menininha Madrugada”
e “Tempo”, “Você Passa Eu Acho Graça” (Laís Marques), “Jogo de Viola”, “Fala
Moço” e “Antônio Desfilando”. Érika de há muito tempo está radicada no exterior,
tendo passado, dentre outros lugares, pela França, e atualmente mora nos Estados
Unidos, onde dá continuidade à sua exitosa carreira, transitando pelo circuito
jazzístico. Já gravou no exterior vários CD's, um deles com o grupo Brazilian
Explosion;
# César e Paulo Dorfman:
Arquiteto e compositor, César (pai de Lúcio Dorfman,
ex-Engenheiros do Hawaii) foi, ao lado do irmão Paulo Dorfman (pai do tecladista
Michel Dorfman e do baixista Jorge Dorfman, ambos geniais), um destacado
representante da Bossa Nova gaúcha. Integrante do clã musical, ainda, não
podemos esquecer da grande cantora Charlotte Dorfman (mãe de Michel e Jorge),
recentemente falecida. O conjunto Mutirão, que os irmãos mantinham, foi um dos
destaques nos Festivais de Bossa Nova realizados pelo Círculo Social Israelita
nos anos 60 (era integrado também por Renato Axelrud, José Sinowetz, Moisés do
Cavaquinho, Ivaldo Roque, Manoel Chotguis e Alberto Grobocopatel). César
classificou diversas canções suas para os festivais locais mencionados, da qual
se destaca “O Sonho”. Estabelecendo diversas parcerias, tem participado como
compositor desde então de festivais de música da capital e do interior do
estado, figurando uma canção sua inclusive no CD do concurso “Uma Canção para
Porto Alegre”. Paulo Dorfman, maestro, arranjador e pianista, é um dos
principais nomes do jazz e da Bossa gaúchos de todos os tempos, e foi o
organizador da OPPA (Orquestra Popular de Porto Alegre), uma verdadeira “big
band” que reuniu inúmeros instrumentistas jazzistas sulinos.
Além destes nomes, que são apontados como uma mera amostra da influência da
Bossa Nova na música gaúcha contemporânea, impende referir diversos músicos
surgidos nos anos 70, que também se referenciaram, em maior ou menor instância,
na estética em destaque: Fernando Ribeiro (falecido há poucos anos, lançou um LP
pela EMI-Odeon, em 1977, cujas letras eram elaboradas por Arnaldo Sisson e Dedé
Ribeiro, dentre outros), Toneco (exímio violonista em plena atividade em
diversos trabalhos na capital gaúcha, especialmente no “Arrabalero”, de Dudu
Sperb), Maria Lúcia (cantora que vem se dedicando ao resgate da obra de autores
como Wanderley Falkenberg, Giba-Giba, Toneco, etc), Zé Caradípia, Denise Lahude,
Denise Tonon, Mauro Rotenberg, dentre diversos outros nomes. Na cena atual,
vemos a influência da Bossa permear trabalhos como os dos saxofonistas Pedrinho
Figueiredo, Paulo Lata Velha, Cláudio Sander e Luisinho Santos, da pianista e
compositora Bethy Krieger (piano), os grupos Delicatessen, bem como das cantoras
Patrícia Mello, Flora Almeida, Danni Calixto, Marisa Rotenberg, Renata Adegas,
Adriana Calcanhotto, Alessandra Verney, Ângela Jobim, somente para ficar em
alguns nomes, dos compositores e instrumentistas New e Luis Mauro Vianna, dos
cantores Marcelo Delacroix, Paulo Rosa e Márcio Celi, os guitarristas James
Liberato, Jefferson Marx, Alegre Corrêa (radicado na Áustria), Antônio e Gastão
Villeroy (radicados no Rio), dos pianistas e compositores Fernando Corona, Dudu
Trentin, Rafael Vernet, dentre muitos outros.
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