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desde 13/07/2003 |
Viver para contar
Por
Rodrigo Capella
Imagem:
Reprodução

Encontrar os amigos de escola e colocar a conversa em dia é sempre bom e,
ainda, desperta sentimentos únicos. Percebi isso, nessa semana, quando uma
amiga, após uma incansável busca pela Internet, conseguiu reunir os amigos
de colégio e marcou um encontro num barzinho perto da casa dela.
Dez pessoas sentadas frente a frente com o propósito de olhar fotos
antigas, tecer comentários e resgatar histórias engraçadas da vida. Quando
escondiam o apagador da professora era uma gritaria só, todos se divertiam.
Quando corriam pelos corredores, era uma tremenda curtição. É, a vida nos
proporciona momentos inesquecíveis, cabe a nós valorizá-los.
Essa história toda me fez lembrar do livro “Viver para contar”,
autobiografia do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, que se inicia
com um recado ao leitor: “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a
gente recorda, e como recorda para contá-la”. É, e é verdade. Logo nas
primeiras páginas do livro, a mãe do autor pede para que ele a acompanhe até
uma casa antiga, que seria vendida. Nesse momento, a cabeça do prêmio Nobel
se assemelha a uma montanha russa, intercalando momentos reais e flash back,
técnica consagrada no excelente e bem estruturado filme “Cidadão Kane”. É, é
isso aí, o passado modela o futuro e dá os alicerces.
No livro, autor se lembra dos amigos de infância, dos professores, de
quando iniciou no jornalismo ou ainda quando descobriu o que é sexo. “Viver
para contar”, assim como “Cem anos de solidão”, outro clássico de Márquez,
requer atenção. Lápis e bloco de anotação são necessários para guardar
nomes, cenas e acontecimentos importantes. Muitas vezes não se sabe o que é
real ou imaginário, tal como acontece no filme “Uma mente brilhante”.
Mas, essa era a intenção de Gabriel Garcia Márquez. A vida, para ser
vivida com alegria, precisa ser compreendida em detalhes. Somente assim é
que aproveitamos os momentos como se fossem únicos e planejamos cada
segundo, colocando a criatividade em prática, seja ela subjetiva, concreta
ou uma mescla.
Criatividade essa que nunca faltou ao escritor colombiano. Em “Viver para
contar”, ele nos mostra como alguns fatos da vida se coincidem com a
literatura. Seu avô, por exemplo, fabricava peixinho de ouro e no livro há
um personagem que faz o mesmo tipo de trabalho. Além dessa criatividade
acentuada, o que chamava a atenção em Márquez era a sua simplicidade e a
cumplicidade com a literatura e com a própria vida: “Nego-me a me
transformar a literatura em espetáculo, detesto a televisão, os congressos
literários, as conferências e a vida intelectual”.
É, vida e literatura se misturam, vida e literatura são parceiras, são
essenciais e oferecem, ao mesmo tempo, o combustível necessário para
continuarmos vivendo: as recordações, repletas de esperanças e de melhores
momentos. É isso aí, precisamos valorizar a vida e ter fôlego para contá-la
aos filhos, netos, bisnetos e, quem sabe, tataranetos.
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