|
 |
A hora do assalto
Por
Fernando Paiva
Imagem:
Reprodução/WWF

No último sábado, entre 20h30 e 21h30,
mais de 80 cidades no mundo inteiro, inclusive Rio de Janeiro e São Paulo,
desligaram suas luzes como parte de uma ação de conscientização batizada
como "Hora do Planeta". A idéia partiu de uma ONG chamada WWF, talvez uma
das mais antigas no mundo em atividade pela causa ecológica.
Isso me lembra aquelas passeatas pela paz realizadas no Rio de Janeiro pela
ONG Viva Rio, em que milhares de pessoas marchavam vestidas de branco pelas
ruas da cidade. O que mudou em relação à violência no Rio após essas
passeatas? Nada. A violência só tem aumentado. E o que mudou para o Viva Rio
depois dessas passeatas? Tudo. Ficou mais conhecida. Tornou-se uma marca
forte entre ONG's. É preciso lembrar que existe um monte de ONG's em atividade
no Brasil. Muitas vezes elas procuram fazer (ou dizem que fazem) o que o
Estado não faz. E, para tanto, precisam de dinheiro, que vem em forma de
doações. Para receber doações, é importante ser conhecida. Tenho sérias
dúvidas sobre a eficácia da "Hora do Planeta" em aumentar a conscientização
ecológica do povo brasileiro. Mas que vai aumentar a conscientização sobre a
marca WWF, isso vai. E as doações também vão aumentar. Só a cobertura da
mídia em torno dessa campanha tem um valor inestimável. Jornal Nacional, O
Globo, CBN: diversos veículos importantes caíram nessa e fizeram propaganda
de graça para a WWF.
Minha idéia inicial com esse texto era brincar com essa história de apagar as
luzes por uma hora em cidades com altos índices de violência como Rio e São
Paulo. Fico imaginando os bandidos lendo as notícias e planejando suas
ações: "Hummm, vão apagar as luzes na ponte esteiada entre 20h30 e 21h30?
Vamos para lá, rapaziada!". Mas talvez fosse bobo demais e a piada não
renderia mais do que um ou dois parágrafos.
O assalto mesmo quem faz é a WWF. E não me refiro apenas ao aumento em
doações que ela certamente terá nos próximos meses, mas a uma experiência
que tive semana passada em São Paulo, depois de me hospedar no hotel Tryp,
próximo à Avenida Paulista. Fiquei hospedado por três noites. Consumi duas
águas minerais. Ao fazer o check out, percebi, incrédulo, na conta
apresentada pelo funcionário do hotel, que além das duas águas estavam me
cobrando R$ 3,20 a título de "doação WWF". Questionado sobre que diabos era
aquilo, o atendente, no mais velho estilo "João sem braço", me respondeu:
"Temos um convênio com a WWF. De cada hóspede recolhemos uma pequena doação.
Mas é opcional, claro...". Opcional??? Enfiar isso na conta sem avisar nada
é o jeito mais correto de dar uma opção??? Mandei tirar e imprimir a conta
de novo. Não faço doações para ONG's. Não interessa se é uma ONG para salvar
a Amazônia ou para ajudar criancinhas com câncer. Se eu quero ajudar alguém,
eu ajudo diretamente. Não acredito em ONG's. Muito menos em ONG's que tentam
bater a minha carteira!
É engraçado como alguns hotéis tentam se passar por "ecologicamente
corretos". É praxe hoje em dia, em quase todos os hotéis do mundo, encontrar
um aviso no banheiro informando que só serão lavadas aquelas toalhas
deixadas no chão, pois o hotel se preocupa com o consumo desnecessário de
água, ciente do grave cenário de escassez de água doce no mundo etc etc.
Será mesmo que o gerente do hotel se preocupa com o meio ambiente? Ou será
que está mais preocupado com a conta de água? Onde está a preocupação do
hotel com o meio ambiente no manejo do lixo? Será que usa material reciclado
para confeccionar aqueles bloquinhos de papel? Será que o Tryp doa para o
WWF parte da sua verdadeira receita? Fazer caridade com o chapéu alheio, ou
melhor, ajudar a natureza com a toalha (ou a carteira) dos outros é fácil.
Quero ver é barrar algum rico madeireiro que destrói a Amazônia quando ele
vier se hospedar em São Paulo para fechar negócios!
[
Página Inicial
]
|
|