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13/07/2003 |
Museu Anchietano
Texto + Imagens:
Sérgio Barboza
É em uma tarde fria e úmida que Pedro Ignácio Schmitz me recebe na antiga sede
da Unisinos. O motivo de nossa conversa é um assunto que Padre Ignácio (como o
senhor Schmitz é conhecido) conhece muito bem, afinal, são 45 anos de trabalho
no Instituto Anchietano de Pesquisas. Instituto esse que ocupa cinco andares de
uma parte da antiga sede, sendo que num deles está o Museu Anchietano, que
completa 53 anos em 2009. Desde o ano de 1983 alojado por aqui, o museu, assim como
o próprio instituto, engloba várias ciências complementares ou irmãs. Existe a
parte arqueológica, com seus ossos e utensílios antigos, a Botânica com suas
plantas, a parte de Antropologia e de relíquias religiosas. Além de
objetos de índios tupi-guaranis, existem também coisas de indígenas andinos,
que Padre Ignácio recolheu quando trabalhou por um tempo nos Andes. Padre
Ignácio, um respeitado pesquisador e professor, com mais de cinquenta livros
editados em vários idiomas, lembra sempre que museu também é local de produção,
de comparação e pesquisa. Mais ainda na parte de Arqueologia, que está sempre
recebendo sacos com terra, pedras, ossos e conchas que, após uma triagem
meticulosa, são sistematicamente identificados.
Enquanto coloca um agasalho para me levar até o
museu, Padre Ignácio, com seus cabelos já brancos e amabilidade jesuíta, diz que
esse espaço foi doado pelas irmãs franciscanas, as mesmas que gerem o Colégio
São José. Pelo que se pode ver, o Museu Anchietano é uma de suas grandes
paixões. O brilho nos olhos ao notar tanto o meu interesse quanto o das crianças
e adolescentes que hoje visitam o museu comprova isso. As crianças (duas turmas
do ensino fundamental de uma escola de Sapiranga) são parte das visitas agendadas
por escolas e que acontecem duas a três vezes por semana. No início tímidas,
logo ficam eufóricas e estridentes, olham boquiabertas para as estátuas
missioneiras sob o olhar atento de Padre Ignácio. Essas estátuas, como ele me conta, foram feitas há duzentos anos por índios em ateliês de escultura, com a
supervisão de jesuítas. As crianças conferem tudo com a curiosidade que só elas têm. E que todo jornalista também deve ter, me lembra Padre Ignácio.
Vagner dos Santos, 14 anos, estudante da sétima série de uma das escolas, diz que
adorou o passeio. Além das estátuas, gostou muito dos “ossos dos bichos, do tatu
e da anta”. Ele, junto com seus colegas, após terem olhado e fotografado,
assistem a uma palestra, onde os pequenos sanam as suas dúvidas perguntando tudo
sobre o que viram. Também participam de pequenas brincadeiras, como tentar
adivinhar de que animal é cada crânio exposto. As crianças costumam acertar
quase todos, me segreda Padre Ignácio, e com olhar maroto faz a brincadeira
comigo. Mas o estudante de Jornalismo não se sai bem no teste de Biologia.
Deixamos as crianças para trás, aprendendo e se
divertindo, e vamos para uma outra parte do museu. Tantos professores e
pesquisadores respeitados em suas áreas passaram por esses corredores.
Botânicos, zoólogos, arqueólogos, antropólogos. E Padre Ignácio, que estudou
quase todas essas ciências, humildemente me diz que fez apenas o que pôde. O que
ele gosta mesmo de falar é sobre o museu. Pergunto como o museu se mantém, e ele
responde num tom agradecido, que se mantém graças a Unisinos e a Sociedade
Antônio Vieira. Apesar de poucas pessoas trabalharem no local, já que a Unisinos
e as universidades em geral não dão mais tanto valor à Botânica e à Zoologia.
Depois de me mostrar quase todas as salas de estudo e pesquisa do museu, Padre
Ignácio me leva até o herbário, o maior do Rio Grande do Sul e um dos maiores do
Brasil, onde não ficamos muito tempo devido ao forte cheiro de naftalina. Ali,
100 mil plantas estão guardadas em caixas devidamente catalogadas para consultas
e pesquisas.
Por fim, vamos até a área de Arqueologia, onde
encontramos o pesquisador André Osório Rosa, um biólogo que trabalha estudando
ossos de animais antigos. Ele me fala que para esse tipo de trabalho são
necessários tempo e paciência, muito parecido com o trabalho de um detetive.
André ainda ressalta que não trabalha com ossos de dinossauros, apesar de a
maioria das pessoas pensarem assim, e sim com ossos de animais mais “recentes”, de 2.000, 4.000 anos atrás. Padre Ignácio complementa que o Instituto Anchietano
de Pesquisas não é um centro de Paleontologia, e sim um centro de pesquisas de
várias ciências. Ele também afirma que para se construir e manter um lugar assim
são necessários além de tempo e paciência, muito conhecimento. Ao sairmos do
Instituto, passando por armários antigos cheios de livros mais antigos ainda,
Padre Ignácio repete seu rosário de grande amante de museus e saberes. “Isso
aqui não é um depósito, é um centro de pesquisas. Estamos sempre trabalhando,
produzindo, mostrando”. É isso aí, senhor Schmitz, o saber não deve nunca ficar
estagnado e preso em porões e mosteiros. As crianças que hoje tiveram uma bela
aula de história, e todos nós, agradecemos.

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