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13/07/2003 |
Uma câmera na mão e uma canção na cabeça
Por
Fernando Paiva
Imagem:
Reprodução

Videoclipes costumam ser filmados com
o objetivo puro e simples de promover uma música. Talvez por isso a maioria dos
videoclipes feitos no mundo sejam uma porcaria, repetindo-se na mesma fórmula
emetevística de cortes rápidos, câmera tremida e nenhum conteúdo. Geralmente são
meros apêndices de músicas. Poucos videoclipes ganham vida própria e se destacam
mais do que as músicas para os quais foram criados. Quando isso acontece, nem
sempre é mérito somente do vídeo: quase sempre a música não é lá essas coisas.
Mais incomum ainda é encontrar um bom videoclipe para uma boa música. É nessa
categoria que se encaixam os vídeos feitos por Dimitri BR para suas próprias
canções. Eles são tão interessantes quanto as próprias músicas, chegando ao
ponto de deixar o público na dúvida: será que a música foi feita para o vídeo?
Dimitri BR é um cancionista brasileiro. Ele tem dezenas de músicas
compostas nos últimos anos. Cada uma melhor que a outra. Algumas ele empresta
para a sua banda "oficial", o "3a1". Outras tantas estão
guardadas no fundo de sua cabeça e agora, de mês em mês, estão se tornando
públicas através do seu mais novo projeto: botar no dia 1º de cada mês um novo
videoclipe no YouTube. Foram lançados quatro até agora, cada um melhor que o
outro. São vídeos caseiros, feitos com câmeras de baixíssima qualidade, a
maioria sem edição, em plano sequência, e com o áudio da música registrado ao
vivo. "Sou a favor do faça você mesmo e do use o que você tem", descreve Dimitri.
"São vídeos lo-fi. Sou a favor do lo-fi em todas as esferas da vida. Acho a
perfeição enfadonha, infantil. Me lembra assepsia", complementa. Nas filmagens
conta com a ajuda de Ana Sol, produtora do 3a1, que quebra o galho como
câmera-woman. Ela é o braço direito de Dimitri nesse projeto – aliás, seu braço
faz uma ponta, sem querer, no vídeo da música "Deixa solto".
A semelhança aos princípios do Dogma 95 é evidente, mas não é o que torna
esses vídeos atraentes. Não é o lo-fi pelo lo-fi. São vídeos criativos e com um
sentido bem amarrado com a letra da música. São como canções em formato de
vídeo, poder-se-ia dizer. Além disso, Dimitri tem carisma e sabe se expressar
corporalmente – apesar de seus quase 2 metros da altura. Ele fez teatro no
Tablado, o que explica muita coisa. "Descobri que prefiro interpretar músicas em
vez de textos", esclarece.
Outra faceta curiosa de Dimitri que de alguma forma transparece nas
composições é a sua multidisciplinaridade. Ele já fez de tudo um pouco em arte.
No teatro, foi de contrarregra a dramaturgo, passando por palhaço. "Só não fiz
iluminação nem figurino", resume. Na música, passeia tranquilamente da MPB ao
Rock, tendo feito até música sertaneja e samba-enredo. Para completar, Dimitri
tem como hobby criar jogos de tabuleiros. Isso mesmo. Em plena era de
videogames, o cara cria jogos de tabuleiro. E são bons!
Diante dessa variedade de interesses, suas letras tratam de temas
igualmente díspares, mas sempre com bom humor e inteligência. Em "A carne é
fraca", fala sobre vegetarianismo com um leve (mas respeitoso) tom irônico. Em
"Deixa solto", critica a obsessão da mídia com a vida amorosa das celebridades,
ao mesmo tempo em que levanta a bandeira dos direitos dos homossexuais. "Eu não
consigo me vender direito" brinca com a condição do artista, ou a dele próprio.
Por fim, "Que chato (ladainha tridimensional)" é (pasmem!) inspirada em conversas
sobre física quântica que tinha com uma ex-namorada que estudava o assunto.
Sobre os vídeos em si, melhor não falar mais nada. Assistam e tirem suas
conclusões. Sugiro ver em ordem cronológica, para acompanhar a evolução. E fico
aqui aguardando o próximo dia 1!

Ver os vídeos???

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