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 Mais uma noite
 


                                                                   
 Por Sérgio Barboza
                                                            Imagem: Reprodução/Van Gogh




 


  Onde termina a noite e começa a manhã de um novo dia? No exato momento em que você gasta seu último tostão, diriam alguns. Mas o cara ao meu lado diz que é quando a diversão acaba. Então por que ainda estamos aqui? Porque a noite ainda não acabou. Para alguns ela nunca termina, fala o cara ao meu lado. Ontem ainda ele se encontrou com a ex-namorada problemática e maluca e ela lhe disse que ele não valia nem a sujeira debaixo das unhas do cachorro do vizinho dela. Eles se merecem. A loucura procura a loucura. É sempre assim. Sempre será, é o que lhe digo, mas ele não parece acreditar muito, não. É mais uma noite alucinante na cidade. As coisas sempre acontecem do mesmo jeito. E sempre acabamos culpando a noite por nossas escolhas estúpidas. A primeira coisa que fazemos é beber em frente da prefeitura da cidade, falando das mulheres. Sempre elas. E o cara ao meu lado me diz o que elas estão pensando. Estão pensando que estamos com outras mulheres. Homens espertos estariam fazendo isso. É. Acho que sim. Enquanto outros nos pagam cerveja em troca de histórias decadentes, engraçadas, continuamos por aqui. Ele diz que é sempre assim. Logo um amigo comum chega de um velório. O irmão homossexual se suicidou. E o cara briga com o palhaço que está a pedir dinheiro para nós. É sempre assim. As coisas malucas nos perseguem, e sabe o que eu acho, eu acho que agora estamos sozinhos porque ninguém mais acha engraçado essas coisas malucas. O quê? Foi isso mesmo que você ouviu, acho que estamos fazendo de tudo para prolongar nossa miserável adolescência. Nos subúrbios da cidade somos ninguém. Nos bares descolados somos ninguém. E o pior é que ele não se importa. Só o que importa é a falta que uma menina que não vale nada faz. Não há nenhuma crítica aqui. Já passei por isso.
 

  Deixamos para trás o primeiro bar e os primeiros chatos. É quando ele me diz que está pagando seus pecados. Está aguentando o que outros aguentaram com ele. E onde estão esses? Não sei, mas tenho certeza de que estão gordos tomando Natu Nobilis todos os dias. Vamos para um bar frequentado por todo tipo de pessoas. Menos as saudáveis. Todos os que se acham artistas passam por aqui. Quem lhes diz para passar por aqui, senão a história torta da própria cidade? O cara ao meu lado tenta falar comigo sobre dores do coração, mas é impedido por amigos músicos. Querem que ele cante num cd de música experimental. Outro quer que ele faça um curta de ficção filosófica (?). Peço mais um conhaque para que possamos seguir adiante na noite quente e suja da cidade. Noite que já nos provou que é melhor ficarmos em casa durante o tempo que ela dura, mas que nós, como autênticos imbecis boêmios, nunca fazemos. Mas no final o que prevalece são as histórias e não os narradores ou protagonistas delas. Então meu amigo, nem ao menos seremos lembrados. Parece triste demais, mas até que não é. Pensando bem, viver se detonando é bem mais divertido, afinal de contas. E lágrimas todos nós vamos derramar algum dia. O cara ao meu lado concorda. Mas sorrindo me diz que não poderia escolher outra vida. O destino é injusto com várias pessoas, mas com alguns poucos ele é terrivelmente injusto. O cara ao meu lado sabe disso. O cara ao meu lado vive isso. Pedimos mais um conhaque antes de encararmos mais uma viagem de volta pra casa após mais um final de semana bebendo nos bares da cidade.

 

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