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 O Morto
 


                                                                   
 Por Andréa C. Migliacci
                                                            Imagem: Reprodução




 


  - Morto?

  - Morto!

  - Mas morto… Como?

  - E eu que sei! Se nem sei quem é o morto!

  - Mas ele tá no seu sofá, Ana!

  O dia acabava de amanhecer e o sol mal chegava ao hall minúsculo do apartamento onde as duas mulheres falavam aos sussurros. A sala se abria aos seus olhos incrédulos e o morto estava instalado confortavelmente em um dos sofás baixos e modernos. Era óbvio, pelo estado catastrófico do aposento, que a festa da noite anterior tivera mais convidados do que o pequeno apartamento comportava. Copos e restos de salgadinhos por todos os cantos, cheiro de cerveja derramada e suor de muitos corpos em uma noite de verão.

  - Só o sofá é meu, Denise, não o morto. Aliás nem sei quem é ele. Você lembra com quem ele veio?

  - Lembrar? Não lembro nem com quem Eu vim, depois de tanta vodka e ainda mais com você me tirando da cama às 5 da manhã de domingo. Eu tinha acabado de deitar.

  - E quem eu ia chamar? A polícia? Além do mais foi você que me convenceu a dar essa festa pra inaugurar o apartamento. E vê só como terminou? Essa sujeira, copo pra todo lado e um morto no meu sofá.

  - Tá bom, eu divido a culpa. Sobre a festa, mas eu saí daqui antes do morto morrer.

  - Como você sabe? Nem eu vi o morto morto. Eu...

  - Você o quê? Aha, Ana! Você foi pro quarto com alguém antes da festa acabar, não é? Eu sabia!!! Foi o Mário?

  - Não, e isso não interessa. O que interessa é: o que eu faço com esse morto?

  - Bom, precisamos nos livrar dele. Vamos deixar ele num banco de praça e pronto.

  - E como a gente faz isso?

  - Carregamos como se estivesse bêbado, já vi isso num filme. Nessa hora não tem ninguém na rua e é só largar o coitado em alguma praça.

  - Tá bom. Vamos nessa.

  Carregar o morto era mais difícil do que parecia, mas as duas conseguiram entrar com ele no elevador. Quando as portas se abriram no subsolo, deram de cara com o zelador de olhar sonolento e aparência desleixada.

  - Morto?

  - Como assim, morto? – Ana perguntou tentando parecer ingênua. - Ele tá só bêbado.

  - Tá não, moça. Esse aí tá morto. Vai levar pra onde?

  - Não sei... – ela entregou resignada.

  - Larga em alguma esquina. Logo acham ele.

  - Mas, seu Zé, mal estamos conseguindo segurar ele agora. Enfiar ele no carro e tirar vai ser mais difícil ainda.

  - Eu ajudo, deixa só avisar a patroa que vou sair.

  Ele se foi e voltou depois de 5 minutos, seguido de uma mulher baixa e morena que devia ser a patroa.

  - Morto, né? Foi na festa que a moça deu? Bebida ou droga?

  - Não sei, nem sei quem é ele. – respondeu Ana, sem graça.

  - Ahh, esses morto são os pior.

  O marido se despediu da esposa e enfiou o morto no carro de Ana, sem compaixão. Acharam uma praça deserta facilmente e descarregaram o morto o sentando em um banco. Ficaram os três olhando para o homem sem perceber que duas velhas senhoras se aproximavam com seus poodles.

  - Ih!!! Morto? – perguntou a mais velha das velhas.

  - Claro que tá morto, que pergunta besta, Madalena. – respondeu a mais nova das velhas.

  Os três, Ana, Denise e o zelador deram um pulo e encararam as duas velhas que se aproximaram do morto sem hesitação.

  - Morto arrumadinho... Tava numa festa, é? Foi drogas ou sexo? – disse a mais velha.

  - Tá na cara que foi sexo, é sempre sexo esses dias. Com qual das duas foi? – perguntou a mais nova, olhando de Ana para Denise.

  - Nenhuma, nem sabemos quem é o morto. Ele amanheceu morto, só isso. – Denise começou a perder a calma. – Olha, precisamos ir...

  As duas senhoras deram de ombros e continuaram a investigar o defunto, enquanto os três se viravam para voltar ao carro. Uma viatura da polícia estava parada, bem atrás do carro de Ana, e dois policiais saltavam olhando para eles. Aproximaram-se conversando, com copos de café nas mãos e andar cansado.

  - Morto é? – perguntou o mais baixo.

  - Mortinho. – respondeu a mais velha das velhas.

  - Mas falaram que não foi sexo. – disse a mais nova delas.

  - Deve ter sido drogas, então. – disse o mais alto dos policiais.

  - Não tem cara de drogado, só de safado. Ainda acho que foi sexo. – disse a mais nova das velhas.

  - Já disse que não foi sexo. – gritou Ana, irritada.

  - A senhora conhece o morto? – perguntou o mais alto dos policiais.

  - Nunca vi o morto vivo, se o senhor quer saber.

  - E vocês, conheciam o morto? – perguntou o mais baixo olhando para Denise e o zelador, que acenaram um rápido não.

  - Então é melhor que a gente chame o rabecão pra levar o pacote. Alguém quer acompanhar o defunto? – ofereceu o mais baixo.

  Os três recusaram e as duas senhoras também, com certa tristeza, já que tinham que passear com seus cães. Os policiais, alto e baixo, deram de ombros e foram para o carro chamar o rabecão. Ana, Denise e o zelador foram andando bem devagar até o carro, esperando pelo momento em que os mandariam parar, mas ninguém o fez. Entraram no carro e partiram, dando a volta na praça devagar como se não tivessem pressa. Os policiais acenaram adeus e as duas velhas, agora sentadas flanqueando o morto, também.

  Na garagem do edifício a esposa do zelador os esperava e desejou um bom dia “pras moças”, enquanto arrastava o marido para trocar a lâmpada da cozinha e reclamava que a máquina de lavar tinha pifado de novo.

  Ana e Denise voltaram para o apartamento e ficaram paradas no hall, olhando uma para a outra sem entender o que havia se passado nas últimas horas e como haviam saído de tudo sem um arranhão. Talvez seja assim com mortos anônimos, fica óbvio para todos que ninguém é culpado, sendo assim, só nos restam perguntas prosaicas e de interesse geral. “Foi bebida, drogas ou sexo?”.


 

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