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desde 13/07/2003 |
O Morto
Por
Andréa
C. Migliacci
Imagem:
Reprodução

- Morto?
- Morto!
- Mas morto… Como?
- E eu que sei! Se nem sei quem é o morto!
- Mas ele tá no seu sofá, Ana!
O dia acabava de amanhecer e o sol mal chegava ao hall minúsculo
do apartamento onde as duas mulheres falavam aos sussurros. A sala
se abria aos seus olhos incrédulos e o morto estava instalado
confortavelmente em um dos sofás baixos e modernos. Era óbvio,
pelo estado catastrófico do aposento, que a festa da noite
anterior tivera mais convidados do que o pequeno apartamento
comportava. Copos e restos de salgadinhos por todos os cantos,
cheiro de cerveja derramada e suor de muitos corpos em uma noite
de verão.
- Só o sofá é meu, Denise, não o morto. Aliás nem sei quem é ele.
Você lembra com quem ele veio?
- Lembrar? Não lembro nem com quem Eu vim, depois de tanta
vodka e
ainda mais com você me tirando da cama às 5 da manhã de domingo.
Eu tinha acabado de deitar.
- E quem eu ia chamar? A polícia? Além do mais foi você que me
convenceu a dar essa festa pra inaugurar o apartamento. E vê só
como terminou? Essa sujeira, copo pra todo lado e um morto no meu
sofá.
- Tá bom, eu divido a culpa. Sobre a festa, mas eu saí daqui antes
do morto morrer.
- Como você sabe? Nem eu vi o morto morto. Eu...
- Você o quê? Aha, Ana! Você foi pro quarto com alguém antes da
festa acabar, não é? Eu sabia!!! Foi o Mário?
- Não, e isso não interessa. O que interessa é:
o que eu faço com
esse morto?
- Bom, precisamos nos livrar dele. Vamos deixar ele num banco de
praça e pronto.
- E como a gente faz isso?
- Carregamos como se estivesse bêbado, já vi isso num filme. Nessa
hora não tem ninguém na rua e é só largar o coitado em alguma
praça.
- Tá bom. Vamos nessa.
Carregar o morto era mais difícil do que parecia, mas as duas
conseguiram entrar com ele no elevador. Quando as portas se
abriram no subsolo, deram de cara com o zelador de olhar sonolento
e aparência desleixada.
- Morto?
- Como assim, morto? – Ana perguntou tentando parecer ingênua. -
Ele tá só bêbado.
- Tá não, moça. Esse aí tá morto. Vai
levar pra onde?
- Não sei... – ela entregou resignada.
- Larga em alguma esquina. Logo acham ele.
- Mas, seu Zé, mal estamos conseguindo segurar ele agora. Enfiar
ele no carro e tirar vai ser mais difícil ainda.
- Eu ajudo, deixa só avisar a patroa que vou sair.
Ele se foi e voltou depois de 5 minutos, seguido de uma mulher
baixa e morena que devia ser a patroa.
- Morto, né? Foi na festa que a moça deu? Bebida ou droga?
- Não sei, nem sei quem é ele. – respondeu Ana, sem graça.
- Ahh, esses morto são os pior.
O marido se despediu da esposa e enfiou o morto no carro de Ana,
sem compaixão. Acharam uma praça deserta facilmente e
descarregaram o morto o sentando em um banco. Ficaram os três
olhando para o homem sem perceber que duas velhas senhoras se
aproximavam com seus poodles.
- Ih!!! Morto? – perguntou a mais velha das velhas.
- Claro que tá morto, que pergunta besta, Madalena. – respondeu a
mais nova das velhas.
Os três, Ana, Denise e o zelador deram um pulo e encararam as duas
velhas que se aproximaram do morto sem hesitação.
- Morto arrumadinho... Tava numa festa, é? Foi drogas ou sexo?
– disse a mais velha.
- Tá na cara que foi sexo, é sempre sexo esses dias. Com qual das
duas foi? – perguntou a mais nova, olhando de Ana para Denise.
- Nenhuma, nem sabemos quem é o morto. Ele amanheceu
morto, só isso. – Denise começou a perder a calma. – Olha,
precisamos ir...
As duas senhoras deram de ombros e continuaram a investigar o
defunto, enquanto os três se viravam para voltar ao carro. Uma
viatura da polícia estava parada, bem atrás do carro de Ana, e
dois policiais saltavam olhando para eles. Aproximaram-se
conversando, com copos de café nas mãos e andar cansado.
- Morto é? – perguntou o mais baixo.
- Mortinho. – respondeu a mais velha das velhas.
- Mas falaram que não foi sexo. – disse a mais nova delas.
- Deve ter sido drogas, então. – disse o mais alto dos policiais.
- Não tem cara de drogado, só de safado. Ainda acho que foi sexo.
– disse a mais nova das velhas.
- Já disse que não foi sexo. – gritou Ana, irritada.
- A senhora conhece o morto? – perguntou o mais alto dos
policiais.
- Nunca vi o morto vivo, se o senhor quer saber.
- E vocês, conheciam o morto? – perguntou o mais baixo olhando
para Denise e o zelador, que acenaram um rápido não.
- Então é melhor que a gente chame o rabecão pra levar o pacote.
Alguém quer acompanhar o defunto? – ofereceu o mais baixo.
Os três recusaram e as duas senhoras também, com certa tristeza,
já que tinham que passear com seus cães. Os policiais, alto e
baixo, deram de ombros e foram para o carro chamar o rabecão. Ana,
Denise e o zelador foram andando bem devagar até o carro,
esperando pelo momento em que os mandariam parar, mas ninguém o
fez. Entraram no carro e partiram, dando a volta na praça devagar
como se não tivessem pressa. Os policiais acenaram adeus e as duas
velhas, agora sentadas flanqueando o morto, também.
Na garagem do edifício a esposa do zelador os esperava e desejou
um bom dia “pras moças”, enquanto arrastava o marido para trocar a
lâmpada da cozinha e reclamava que a máquina de lavar tinha pifado
de novo.
Ana e Denise voltaram para o apartamento e ficaram paradas no
hall, olhando uma para a outra sem entender o que havia se passado
nas últimas horas e como haviam saído de tudo sem um arranhão.
Talvez seja assim com mortos anônimos, fica óbvio para todos que
ninguém é culpado, sendo assim, só nos restam perguntas prosaicas e
de interesse geral. “Foi bebida, drogas ou sexo?”.
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