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desde 13/07/2003

 

 Guillermo Arriaga:

 "Quem lê coisas contestadoras, transcende"
 

Ele palestrou e autografou na 55ª Feira do Livro de Porto Alegre

 


                                               
 Por Aline Ebert
                                                                        
 Imagem: Ricardo Alexandre G.

 

 


 

 
  Enquanto alguém palestra na Feira do Livro de Porto Alegre, uma menina de 20 e poucos caminha pelo evento e procura alguma edição rara, anotada num bloco antigo, de folhas amareladas. Em outro canto, um senhor de camisa e bombachas estampadas com letras, tal qual um livro, circula chamando a atenção pela Alfândega. Três situações distintas. Três vidas que podem vir a se cruzar.

  Assim também são alguns dos criativos roteiros cinematográficos mais conhecidos de Guillermo Arriaga, escritor mexicano que esteve em Porto Alegre dia 31 de outubro de 2009, para lançar o livro Esquadrão Guilhotina (Editora Gryphus) e palestrar na 55ª Feira do Livro da cidade. Por quase 2 horas, falou para algumas dezenas de pessoas atentas. Arriaga tinha muito para falar. Todos estavam bem dispostos a ouvir.

  "Meus pais me ensinaram que pecado é pobreza, e culpa, não fazer nada pela probreza". Ele começou sua apresentação justamente com uma narrativa e ligando isto ao sentido de seus filmes: Amores Brutos (2000), 21 Gramas (2003), Três Enterros (2005), Babel (2006) e O Búfalo da Noite (2007) são alguns deles, repletos de risco, angústia, medo, morte, mas tudo incitando a vida, seu valor.

  Foi fazendo documentários para a televisão, daqueles expressos, com rápida produção, que se aproximou das "discapacidades", cegos, surdos, paraplégicos..., com sonhos, inteligência, tesão, sobretudo incapacitadas pelos outros.
 

O significado dos livros


  Durante uma edição da Flip (Feira Literária Internacional de Paraty), no Rio de Janeiro, Guillermo conheceu um garoto humilde, que veio lhe pedir um autógrafo. Otávio voluntariamente arrecada livros e os leva para alguma das tantas cadeias brasileiras. Com ele, o escritor mexicano aprendeu que os livros no cárcere são a melhor maneira dos presos serem livres. Segundo ele, são experiências como esta que dão sentido ser escritor.

  "Como professores, escritores (e eu acrescento jornalistas), somos arrogantes, mas também existe algo humilde que faz com que possamos transformar algo na sociedade", disse. Lembrou também da capacidade de subversão da literatura: "Na história, já queimaram livros, proibiram nas ditaduras. Livros são uma ameaça pessoal, social e política". E ainda instigou: "quem lê coisas contestadoras, transcende".


Explicando a parceria desfeita


  Casamentos, amizades, pactos. Nem tudo dura para sempre. Questionado duas vezes sobre a parceria desfeita com Alejandro González Iñárritu, diretor de 3 filmes que ele escreveu, acabou falando "sin querer". "Em um filme, não acredito em um By/Por somente após o título. São muitas pessoas que fazem juntas". E justamente Iñárritu teria insistido em se divulgar sozinho, e não só nos cartazes e encartes, no conjunto de trabalhos que eram para ser parcerias. Divergências criativas, dizem alguns sites, mas ali ficou claro que tratou-se de divergências éticas.


Projetos mais recentes e último recado


  The Burning Plane, ainda sem título em português, é seu filme mais recente, finalizado em 2008. Foi indicado ao Leão de Ouro de Veneza no mesmo ano e exibido agora em 2009, no Festival do Rio. No elenco, tem Charlize Theron, Kim Basinger, Jennifer Lawrence, Joaquim de Almeida, John Corbett e José María Yazpik.

  Como recado final, deixou sua percepção de que, diariamente, todos criamos narrativas sofisticadas para contar histórias que nos acontecem. Deveríamos então, para Arriaga, aproveitar este exercício para fazer valer uma vida mais interessante também.
 


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