
Enquanto alguém palestra na Feira do Livro de Porto Alegre, uma
menina de 20 e poucos caminha pelo evento e procura alguma edição rara,
anotada num bloco antigo, de folhas amareladas. Em outro canto, um senhor de
camisa e bombachas estampadas com letras, tal qual um livro, circula
chamando a atenção pela Alfândega. Três situações distintas. Três vidas que
podem vir a se cruzar.
Assim também são alguns dos criativos roteiros cinematográficos mais
conhecidos de Guillermo Arriaga, escritor mexicano que esteve em Porto
Alegre dia 31 de outubro de 2009, para lançar o livro Esquadrão Guilhotina
(Editora Gryphus) e palestrar na 55ª Feira do Livro da cidade. Por quase 2
horas, falou para algumas dezenas de pessoas atentas. Arriaga tinha muito
para falar. Todos estavam bem dispostos a ouvir.
"Meus pais me ensinaram que pecado é pobreza, e culpa, não fazer nada
pela probreza". Ele começou sua apresentação justamente com uma narrativa e
ligando isto ao sentido de seus filmes: Amores Brutos (2000), 21 Gramas
(2003), Três Enterros (2005), Babel (2006) e O Búfalo da Noite (2007) são
alguns deles, repletos de risco, angústia, medo, morte, mas tudo incitando a
vida, seu valor.
Foi fazendo documentários para a televisão, daqueles expressos, com
rápida produção, que se aproximou das "discapacidades", cegos, surdos,
paraplégicos..., com sonhos, inteligência, tesão, sobretudo incapacitadas
pelos outros.
O significado dos livros
Durante uma edição da Flip (Feira Literária Internacional de Paraty), no Rio de
Janeiro, Guillermo conheceu um garoto humilde, que veio lhe pedir um
autógrafo. Otávio voluntariamente arrecada livros e os leva para alguma das
tantas cadeias brasileiras. Com ele, o escritor mexicano aprendeu que os
livros no cárcere são a melhor maneira dos presos serem livres. Segundo ele,
são experiências como esta que dão sentido ser escritor.
"Como professores, escritores (e eu acrescento jornalistas), somos
arrogantes, mas também existe algo humilde que faz com que possamos
transformar algo na sociedade", disse. Lembrou também da capacidade de
subversão da literatura: "Na história, já queimaram livros, proibiram nas
ditaduras. Livros são uma ameaça pessoal, social e política". E ainda
instigou: "quem lê coisas contestadoras, transcende".
Explicando a parceria desfeita
Casamentos, amizades, pactos. Nem tudo dura para sempre. Questionado duas
vezes sobre a parceria desfeita com Alejandro González Iñárritu, diretor de
3 filmes que ele escreveu, acabou falando "sin querer". "Em um filme, não
acredito em um By/Por somente após o título. São muitas pessoas que fazem
juntas". E justamente Iñárritu teria insistido em se divulgar sozinho, e não
só nos cartazes e encartes, no conjunto de trabalhos que eram para ser
parcerias. Divergências criativas, dizem alguns sites, mas ali ficou claro
que tratou-se de divergências éticas.
Projetos mais recentes e último recado
The Burning Plane, ainda sem título em português, é seu filme mais
recente, finalizado em 2008. Foi indicado ao Leão de Ouro de Veneza no mesmo
ano e exibido agora em 2009, no Festival do Rio. No elenco, tem Charlize
Theron, Kim Basinger, Jennifer Lawrence, Joaquim de Almeida, John Corbett e
José María Yazpik.
Como recado final, deixou sua percepção de que, diariamente, todos
criamos narrativas sofisticadas para contar histórias que nos acontecem.
Deveríamos então, para Arriaga, aproveitar este exercício para fazer valer
uma vida mais interessante também.
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