José Carlos Torves, diretor do Departamento de Mobilização, Negociação
Salarial e Direito Autoral da Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ),
advertiu os presentes para a importância da realização de
pesquisas científicas, no sentido de colher dados confiáveis para
que os mesmos sejam utilizados das mais diversas formas, tanto nos
trabalhos acadêmicos quanto em estudos voltados às políticas
democráticas e que buscam a igualdade social.
Torves lembrou que para a realização deste seminário foi necessário
percorrer um longo caminho até sua realização, e que o mesmo deve
acontecer em relação à 1ª Conferência Nacional de Comunicação. "A
Conferência vai acontecer, apesar de todos os boicotes por parte
dos representantes dos grandes veículos de comunicação de massa do
país, e, de imediato, nada vai mudar, porque trata-se de uma luta
de grandes proporções e de muita paciência e de empenho".
O representante da FENAJ foi enfático ao lembrar da importância das
pesquisas. "Quando elaboramos o livro A Invisibilidade do Negro na
Mídia, aqui no Sindicato dos Jornalistas do RS, sabíamos que os
negros não ocupavam espaços nas redações e principalmente nas
mídias de imagem como a TV, porém quando recebemos os dados
oficiais da pesquisa, elaborada pelo Departamento de Sociologia da
PUC, constatamos que em todo o Rio Grande do Sul havia apenas 5%
de apresentadores ou repórteres negros. Portanto, com os dados foi
possível constatar que o nosso estado é um dos que mais
discrimina.
Políticas afirmativas
Outra palestrante, Maria Inês Barbosa, coordenadora do programa de
Gênero, Raça e Etnia do UNIFEM (Fundo de Desenvolvimento das
Nações Unidas) Brasil e Cone Sul, lembrou que durante muitos anos
prevaleceu no mundo "uma supremacia branca e eurocêntrica.

A representante do UNIFEM foi enfática ao afirmar que é preciso
reescrever a história e citou um pensamento de Martin Luther King:
"Para fechar as feridas, primeiro é preciso aceitar que existem
feridas".
Na opinião de Maria Inês, uma das formas de reescrever a história é
promover e implementar políticas afirmativas. "Estamos promovendo
uma série de políticas públicas para redução da pobreza e também
para promoção da igualdade de gênero e raça. Temos cursos de
capacitação em 11 universidades brasileiras", concluiu.
Afrodescendentes e Censos 2010
O seminário prosseguiu na manhã de sexta-feira, 18/9, com a participação
de Sonia Viveros, integrante do Grupo de Afrodescendentes das
Américas para Censos de 2010 e da Rede de Mulheres
Afrolatinoamericanas e Afrocaribenhas (Equador); Esaúd Noel,
jornalista e presidente da Associação Nacional de Jornalistas
Afrocolombianos (Colômbia); Elói Ferreira, secretário–adjunto da
Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR);
Ana Lúcia Sabóia, socióloga e chefe da Divisão de Indicadores
Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE);
e Rosane Borges, jornalista, doutora em Comunicação pela ECA/USP e
secretária executiva da Associação Brasileira de Pesquisadores
Negros (ABPN). Os moderadores foram Cristian Guevara, jornalista e
membro da Federação de Afrodescendentes Iberoamericanos da
Espanha; e Angélica Bashi, da Comissão de Jornalistas pela
Igualdade Racial do Rio de Janeiro (COJIRA-RJ), oficial de
Proteção do Unicef e coordenadora do Grupo Temático de Gênero e
Raças das Nações Unidas no Brasil.

Refletir sobre o racismo
A equatoriana Sonia Viveros foi a primeira a falar na continuação do
encontro. Ela ressaltou a importância de reconhecer a existência
do racismo, por parte dos governos e organismos internacionais,
principalmente em convenções e acordos. Para ela, este
reconhecimento significa um grande avanço para o povo negro. Outra
questão abordada por Viveros diz respeito ao uso estratégico das
estatísticas oficiais para desmantelar a discriminação racial, por
meio das variações étnicas.
"Temos como objetivo incidir sobre os institutos de estatísticas para
incorporar perguntas de autoidentificação étnico-racial que
contabilizem qualitativamente e quantitativamente os
afrodescendentes nos países da América Latina e Caribe", afirmou.
A equatoriana argumenta que é preciso refletir sobre o racismo, porque
ele se constitui em um dos fundamentos para a estruturação e
hierarquização racial das sociedade, colocando os afrodescendentes
nas posições mais baixas da pirâmide social, política e econômica.
Espaços de afirmação
Esaúd Urrutia Noel é jornalista e presidente da Associação Nacional de
Jornalistas Afrocolombianos (Colômbia) e diretor da Revista Ébano
Latinoamérica. Noel falou das experiências de comunicação voltadas
à população afro que são realizadas na Colômbia, com a publicação
de revistas, jornais, boletins e programas de rádio e TV.
"Nestas experiências se dá visibilidade ao povo negro, valorizando as
mais diversas iniciativas como forma de amenizar a imagem negativa
que durante anos foi passada pelos meios de comunicação de massa
para o imaginário coletivo".
Esaúd afirmou que foram esforços importantes, capazes de garantirem um
salto de qualidade que permitiu maior impacto sobre a opinião
pública no país. “Bogotá, como a capital da Colômbia, deu exemplos
de como criar espaços de afirmação e inclusão, com diálogos e
políticas públicas para melhorar a situação das comunidades
pobres, por meios de comunicação diferenciada”. Esaúd afirma que a
Associação de Jornalistas Afrocolombianos está decidida a abrir
fronteiras para criar espaços para a divulgação de informações de
interesse ao povo negro, possibilitando a realização de encontros
de jornalistas de toda a América.
Evolução histórica
Para Elói Ferreira, secretário–adjunto da Secretaria Especial de
Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), o tema da
invisibilidade é determinante para o país. Ferreira fez um
apanhado de datas e traçou a evolução e as conquistas dos negros
na sociedade. "Os primeiros negros chegaram ao Brasil em 1511, nos
porões do navios. Há uma data que é o Dia de Consciência Negra que
é uma referência ao extermínio do Quilombo de Palmares, no dia 20
de novembro de 1695, ocasião em que os negros que viviam neste
local foram exterminados". Ferreira contou que quando desde menino
o dia 13 de maio tinha um grande significado, porque era a data
referente à abolição da escravatura.

"Temos que ter consciência que a abolição da escravatura foi um dos
maiores movimentos políticos do país. Naquele 13 de maio de 1888,
a Câmara dos Deputados do Rio de Janeiro, que era capital do país,
foi cercada pela população que queria o fim da escravidão. Havia
uma grande campanha abolicionista nas ruas, na época", diz.
O secretário–adjunto da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da
Igualdade Racial informou que o primeiro censo realizado no país
foi em 1872 e contabilizou 1,6 milhões de escravos, negros ou
pardos. Ele ainda fez referência ao ano de 1950, quando o racismo
tornou-se um crime, uma contravenção penal. "Já no período da
ditadura militar não houve nenhum avanço no Brasil, porque os
militares consideravam que não existia racismo no Brasil, não
havia censo e o tema não interessava ao Brasil. Mas o movimento
negro ressurge junto com o movimento sindical nos anos 80 e uma da
vitória foi a criação da Lei 7.716/89, que torna o racismo crime
inafiançável", lembra.
Elói Ferreira cita ainda outras vitórias do movimento negro: o direito de
titulação das terras de remanescentes de quilombos, a criação da
Fundação Palmares, o decreto do presidente FHC que determina a
ocupação de cargos públicos por negros, como forma de reparação
histórica, além da criação da Secretaria Especial de Políticas de
Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), já no governo Lula.
Censo e recursos públicos
O representante da Seppir considera que o censo é fundamental para
determinar a dotação orçamentária para as políticas públicas
voltadas à reparação em relação ao negros e também como forma de
superar as desigualdades criadas ao longo dos 350 anos de
escravidão. "Um processo discriminatório que se estabeleceu a
partir da chegada no Brasil dos primeiros negros, e que apesar dos
avanços, é necessário fazer muito mais", definiu.

Ana Lúcia Sabóia, socióloga e chefe da Divisão de Indicadores Sociais do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), explicou
que a partir de ano 2000 se consolidou a publicação anual do IBGE.
Era a "Síntese de Indicadores Sociais (SIS) - Uma Análise das
Condições de Vida da População Brasileira", que incluía um
capítulo específico sobre desigualdades raciais, analisando
diversos indicadores sócio-econômicos relativos à educação, renda,
organização familiar, entre outros. "Esta publicação tem tido
bastante repercussão nacional e se converteu numa referência em
matéria de informações e estudos das desigualdades raciais no
país", afirma Sabóia.
Avanços para o Censo de 2010
A representante do IBGE considera um grande avanço a inclusão da pergunta
de classificação racial, no questionário básico do Censo
Demográfico de 2010, que será aplicada em todos os domicílios do
país. Ela informa que para a categoria indígena, se perguntará
também a etnia e a língua falada. "A finalidade é obter
informações atualizadas acerca do processo social de construção e
utilização das categorias de classificação racial".
Sabóia lembra que em 2008 foi implementada uma pesquisa sobre as
Características Étnico-Raciais da População. "Trata-se de uma
proposta de investigação inédita no IBGE quanto ao seu conteúdo,
abrangência e metodologia", observa, afirmando que os resultados
desta investigação serão utilizados para pensar uma possível
revisão do atual sistema de classificação racial do IBGE.
A socióloga diz que entre os objetivos da pesquisa estão questões
importantes como levantar as dimensões mais relevantes da
categorização por cor ou raça das pessoas, respeitando
rigorosamente o princípio da autodeclaração como forma exclusiva
de identificação. "Neste sentido, a pesquisa traz uma inovação
metodológica: a seleção exclusiva de um entrevistado por domicílio
que responde sobre a sua identificação racial".
Outra intenção, segundo a chefe da Divisão de Indicadores Sociais do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é
compreender o processo social de construção e utilização das
categorias de identificação étnico-racial da população brasileira,
além de fornecer uma base empírica que permita subsidiar a
elaboração de uma proposta alternativa para aprimorar o atual
sistema de classificação de cor/raça utilizado nas pesquisas do
IBGE.
Contraponto
Rosane Borges, jornalista, doutora em Comunicação pela ECA/USP e
secretária executiva da Associação Brasileira de Pesquisadores
Negros (ABPN), fez questão de fazer um contraponto à afirmação de
Elói Ferreira, secretário–adjunto da Secretaria Especial de
Políticas de Promoção da Igualdade Racial, em relação à
importância do 13 de maio. Para Rosane, o momento é de conquista,
porém, é extremamente constrangedor o trabalho para desconstituir
os avanços do negro na sociedade. "Na minha opinião, o 13 de maio
é um marco histórico vergonhoso. Quando pensamos a questão
contemporânea do negro, quando pensamos em censo, pensamos em um
retrato de uma realidade". Rosane lembrou aos participantes da
força do negro brasileiro: "Somos um exército e estamos incidindo
na opinião pública de forma positiva, com alegria, com trabalho,
com cultura". Ela citou a questão das cotas e os argumentos
utilizados por quem é contrário às mesmas. "Tentam tratar a
questão como estrutural para esconder o racismo. Um dos argumentos
é de que com as cotas o nível da educação vai baixar. Outra é de
que estamos disseminando o ódio racial, o que é um absurdo",
finalizou.
(
Texto publicado em conjunto com o
Sindjors!
)
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