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 Gratidão por toda a vida

 

O exemplo de simplicidade e amor de um dos funcionários mais conhecidos do Inter
 

 

                                             Texto + Imagem: Pablo Luis Furlanetto
                                                                                    

 


 


  Glamour. Essa é a palavra que define hoje o futebol. O dito “amor à camisa”, cobrado por críticos e torcedores, há tempos foi deixado de lado. E a razão disso são os altos salários oferecidos aos atletas, até mesmo ao reserva do reserva. A identificação clubística acabou ou, se ainda existe, é encontrada de forma minguada. Poucos honram a agremiação que defendem, e não levam em consideração tudo o que eles representam, desde a história do time aos inúmeros torcedores.

  Contudo, existem os “salvadores da pátria”. Pessoas que diariamente batalham pelo clube do coração, independentemente de ele estar bem ou mal. E um bom exemplo se chama Paulo Renato Avis da Silva.

  O nome de batismo não é conhecido. Se você perguntar a qualquer torcedor do Inter quem é o sujeito citado acima, certamente ele não saberá responder. Agora, se ao invés de Paulo for mencionado seu apelido, Banha (ganho porque o antigo massagista do Grêmio se chamava assim), aí sim, qualquer colorado saberá responder.

  Há quase 22 anos Banha, massagista do Internacional, faz o mesmo trajeto. Todos os dias ele pega a lotação Tristeza e sai do bairro Restinga em direção ao Menino Deus, local onde fica o Beira-Rio. Pode-se pensar que ele faz isso por ganhar mal. Talvez. Ele até pode não receber as consideráveis cifras de D’Alessandro, mas possui condução própria. Porém, a grande razão que o faz ir trabalhar de ônibus é por não saber dirigir e, detalhe, por gostar de uma cervejinha. “Coloca aí na matéria que direção e álcool não combinam”, avisa o consciente e extrovertido Banha.

  Casado há 21anos com Guacira, com quem fica o carro da família, e pai da jovem Aline, de 17 anos, o funcionário do Inter concedeu a entrevista no local onde considera sua segunda casa, o estádio do clube. Lá, sentado em um sofá confortável de cor branca, localizado ao lado da entrada do vestiário dos atletas profissionais, o massagista contou fatos importantes da sua vida. Enquanto isso, os jogadores chegavam em sequência para mais uma tarde de treinamentos.

  Então voltemos ao passado para conhecer a vida de Paulo Renato. Parece que o destino estava traçado. Alguns anos depois do dia 8 de novembro de 1964, data do seu nascimento, o jovem colorado já estava praticando o que viria a ser sua profissão. Estudante do Colégio Medianeira, localizado no bairro de mesmo nome, na Capital, Banha era massagista do time da escola, formado somente por torcedores do Inter. O nome era Romafal, homenagem a um dos ídolos do Internacional, Falcão, associado ao clube onde ele foi “rei”, a Roma da Itália. Foi aí que Banha resolveu levar a sério a profissão.

  O Inter o salvou

  Após ter concluído um curso de primeiros socorros no Hospital de Pronto Socorro, Banha teve uma oportunidade de trabalhar no Colorado. Isso aconteceu em 20 de agosto de 1987. No dia, casualmente, o então novo funcionário encontrou a pessoa que se transformaria em um dos seus melhores amigos, o roupeiro Gentil. Ele, na época, pediu aos dirigentes que dessem uma força ao recém contratado. E deu no que deu.

  Hoje, Banha e Juarez, massagistas, e Ismael e Gentil, roupeiros, formam uma equipe de causar inveja a qualquer um. Não pelo profissionalismo que eles têm de sobra, mas pela união e humildade que os quatro apresentam em mais de 20 anos de amizade, mesmo tendo presenciado várias conquistas, conhecido muitos lugares e sujeitos famosos. O que os marca é o fato de, mesmo sendo peças-chave para o planejamento de um clube, manterem-se longe dos holofotes.

  Banha, que quando chega ao estádio cumprimenta todos que atravessam seu caminho da parada de ônibus até o vestiário, demonstra todo amor que tem pelo Inter, não só por ser torcedor, mas também por outro motivo. “Há uns sete anos atrás eu tive obesidade mórbida (doença caracterizada pelo aumento excessivo do peso corporal) e estava pesando 166 kg. Minha família sofria muito. Então, o médico do clube na época, doutor Assis Brasil, conseguiu, a pedido do Inter, minha cirurgia no Hospital Conceição, que foi realizada pelo doutor Nelson Mainelle”, revela emocionado o massagista.

  A partir de então ele, que já possuía enorme admiração pela instituição, passou a se sentir eternamente grato. “O Internacional me deu tudo: trabalho, lugar para morar e, o mais importante, salvou minha vida”, desabafa.

  Além de ser um ótimo profissional, Paulo Renato exerce outras funções dentro do vestiário. “O Banha é um cara 100%. Sempre que precisamos, podemos contar com ele. É amigo de todos, nos dá muitos conselhos, é um paizão”, afirma com entusiasmo o volante Glaydson, revelando o lado família do massagista.

  Por tudo isso ele, Paulo Renato Avis da Silva, o Banha, se encaixa nos moldes daqueles profissionais exemplares, que sustentam os alicerces de uma empresa, no caso, um clube. Pessoas simples que, atrás do palco principal, conseguem se desvencilhar do glamour e fazer com que o futebol seja realmente o que é para ser: um esporte capaz de acabar com as diferenças.

  Estes sujeitos são os que realmente vestem a camisa, choram pelas derrotas e pelas conquistas. Como naquele gol da final do Mundial marcado pelo Adriano Gabiru, que fez com que Banha e seus colegas fossem às lágrimas durante a gravação do DVD sobre a conquista, mostrando o que é ter um verdadeiro sentimento. Mostrando como é ter gratidão por toda a vida.


 

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