Lígia. O que faria com
Lígia? Uma esposa, amante talvez? Lígia era uma ruiva de cabelos
encaracolados. Lígia era uma japonesa que fazia sushi e fumava
haxixe. Como eram os rostos? Lígia, uma paciente?
Seus olhos semicerrados encaravam a situação sem esboçar muitas reações.
Os psiquiatras arranjariam alguma forma de colocá-lo de volta nos
trilhos. Ele iria se encontrar de novo. Pais, ele precisava ter
pais. Mortos ou vivos, todos tiveram pais. Seus pais, parecia
nunca ter conhecido. Nenhuma faísca sobre infância, juventude.
Quantos anos eu tenho, qual é o meu nome?
Seus pais eram velhos aposentados que viviam uma vida pacata no interior
de Goiás. Possuíam um pequeno sítio. Seus pais já haviam morrido,
e ele havia feito de tudo para que a morte fosse indolor. De fato,
havia lutado pelo direito à eutanásia. Seus pais morreram em casa.
Sua linda mãe viúva tinha lindos cabelos brancos, vivia sozinha e
feliz, dormindo em sua rede nas sombras do pomar do fundo de sua
casa. Seus pais moravam na cobertura de um prédio, Recife.
Seu filho, seu filho era lindo! Poxa, como pôde ter andado até aqui sem
que o avisasse da ausência momentânea? A criança estava com sete
anos agora, e que vida pela frente. Acabara de entrar na
universidade, era uma garota brilhante, diziam. Linda, havia
sofrido uma doença na infância, se movimentava com uma cadeira de
rodas. Jogava basquete como ninguém.
A poeira flutuava: um carro chegando. Levantou e acenou, uma carona. Para
onde? Para onde você está indo.
Sentou-se confortavelmente ao lado do motorista gordo e rouco.
Inevitavelmente, estava transtornado. Quantas pessoas havia
provavelmente deixado pra trás? Quão triste é sentir a falta de
pessoas que nem sabe quem são. O que faria agora? O motorista
perguntou seu nome.
- João.
Eis um nome: João, prazer. O que faço na cidade? Na cidade eu sou
feirante. Acordo de madrugada, três da manhã. E que bonita é a
cidade às quatro, você já viu? Muito bonita, adoro ver os jovens
voltando pra casa, meio bêbados, as senhoras orientais tão
simpáticas escolhendo as verduras. Sou casado sim. Lígia, casei
recentemente. O padrinho foi o bombeiro que salvou nosso filho de
um terrível incêndio, não gosto nem de comentar. O menino tá com
dois anos, me espanto com a inteligência do garoto, o senhor
precisava ver.
O sol castigava sua vista. Alcançou o para-sol. Um espelho, dois olhos
azuis. Reflexão. Eu? Via os olhos, rugas. Era velho? Olhos azuis,
eram bonitos. Este era ele? Olhos azuis e velho? Ou aquele não era
ele. Seria ele o João, negro, feirante? Seria ele um avô cheio de
netos que o amavam muito? O espelho o refletia, mas seria o
espelho real, ou algo que de tão confortante nos parecia real?
Assim como o bombeiro, o filho de dois anos. Talvez não devesse se
preocupar, o espelho não era nada.
Saltou na cidade e viu os milhões de carros, portas, garagens,
elevadores. As potencialidades inteiras do mundo se escancaravam a
todo instante. Decidiu que não queria ser velho e ter olhos azuis.
Na verdade, resolveu que não mais seria alguém. Preferiu não
escolher ser alguém, o ser em si mesmo já bastava. Aboliu o ego. O
coração inundado do Todo universal. Agora não haveria mais dor.
Lígia, todas as mulheres. Seus filhos perfeitos, a vida
transmutada em cada centímetro do mundo todo. Infinitamente
deslocado do tangível, a sublime morte-vida. Não há passado,
futuro.
Assim surgiu a eternidade, que logo velou-se no inexprimível.
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