Lígia
 


                                               
 Por Felipe Melhado
                                                                                    
 Imagem: Reprodução

 

 


 


 
Lígia. O que faria com Lígia? Uma esposa, amante talvez? Lígia era uma ruiva de cabelos encaracolados. Lígia era uma japonesa que fazia sushi e fumava haxixe. Como eram os rostos? Lígia, uma paciente?

  Seus olhos semicerrados encaravam a situação sem esboçar muitas reações. Os psiquiatras arranjariam alguma forma de colocá-lo de volta nos trilhos. Ele iria se encontrar de novo. Pais, ele precisava ter pais. Mortos ou vivos, todos tiveram pais. Seus pais, parecia nunca ter conhecido. Nenhuma faísca sobre infância, juventude. Quantos anos eu tenho, qual é o meu nome?

  Seus pais eram velhos aposentados que viviam uma vida pacata no interior de Goiás. Possuíam um pequeno sítio. Seus pais já haviam morrido, e ele havia feito de tudo para que a morte fosse indolor. De fato, havia lutado pelo direito à eutanásia. Seus pais morreram em casa. Sua linda mãe viúva tinha lindos cabelos brancos, vivia sozinha e feliz, dormindo em sua rede nas sombras do pomar do fundo de sua casa. Seus pais moravam na cobertura de um prédio, Recife.

  Seu filho, seu filho era lindo! Poxa, como pôde ter andado até aqui sem que o avisasse da ausência momentânea? A criança estava com sete anos agora, e que vida pela frente. Acabara de entrar na universidade, era uma garota brilhante, diziam. Linda, havia sofrido uma doença na infância, se movimentava com uma cadeira de rodas. Jogava basquete como ninguém.

  A poeira flutuava: um carro chegando. Levantou e acenou, uma carona. Para onde? Para onde você está indo.

  Sentou-se confortavelmente ao lado do motorista gordo e rouco. Inevitavelmente, estava transtornado. Quantas pessoas havia provavelmente deixado pra trás? Quão triste é sentir a falta de pessoas que nem sabe quem são. O que faria agora? O motorista perguntou seu nome.

  - João.

  Eis um nome: João, prazer. O que faço na cidade? Na cidade eu sou feirante. Acordo de madrugada, três da manhã. E que bonita é a cidade às quatro, você já viu? Muito bonita, adoro ver os jovens voltando pra casa, meio bêbados, as senhoras orientais tão simpáticas escolhendo as verduras. Sou casado sim. Lígia, casei recentemente. O padrinho foi o bombeiro que salvou nosso filho de um terrível incêndio, não gosto nem de comentar. O menino tá com dois anos, me espanto com a inteligência do garoto, o senhor precisava ver.

  O sol castigava sua vista. Alcançou o para-sol. Um espelho, dois olhos azuis. Reflexão. Eu? Via os olhos, rugas. Era velho? Olhos azuis, eram bonitos. Este era ele? Olhos azuis e velho? Ou aquele não era ele. Seria ele o João, negro, feirante? Seria ele um avô cheio de netos que o amavam muito? O espelho o refletia, mas seria o espelho real, ou algo que de tão confortante nos parecia real? Assim como o bombeiro, o filho de dois anos. Talvez não devesse se preocupar, o espelho não era nada.

  Saltou na cidade e viu os milhões de carros, portas, garagens, elevadores. As potencialidades inteiras do mundo se escancaravam a todo instante. Decidiu que não queria ser velho e ter olhos azuis. Na verdade, resolveu que não mais seria alguém. Preferiu não escolher ser alguém, o ser em si mesmo já bastava. Aboliu o ego. O coração inundado do Todo universal. Agora não haveria mais dor. Lígia, todas as mulheres. Seus filhos perfeitos, a vida transmutada em cada centímetro do mundo todo. Infinitamente deslocado do tangível, a sublime morte-vida. Não há passado, futuro.

  Assim surgiu a eternidade, que logo velou-se no inexprimível.

 

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