Por que resistir?
 


                                               
 Por João Paulo Paes
                                                                                    
 Imagem: Reprodução

 

 



 

  Houve um tempo em que era simples saber ao que resistir. Hoje, perdido em meio a tanta informação e contra-informação fica difícil imaginar haver lados deveras antagônicos. Afinal, Chávez é um embuste, mas ao mesmo tempo, nem tudo é somente retórica. Da mesma forma, Lula que tanto pareceu resistir a Davos, agora é elogiado e homenageado pelo encontro dos chefões financeiros do globo. Nem mais os Estados Unidos são tão ameaçadores, muito menos a globalização que, afinal de contas, em função da domesticação da tecnologia, trouxe ao mundo certa horizontalidade letárgica e ao mesmo tempo, emocionante.


  A luta contra as máquinas se tornou vazia, as mãos dos homens e mulheres cada vez mais se tornam valiosas e as mercadorias produzidas pela pele humana são mais e mais valorizadas internacionalmente. O discurso ecológico é real e tem lá suas prerrogativas e resultados, apesar, é claro, de fazer parte da agenda de muitas empresas que poluem e mentem ao realizar campanhas publicitárias "verdes". A própria publicidade também se coloca em outro prisma e até se encontra algo positivo nela. Então, afinal de contas, ao que se deve resistir na segunda década do novo milênio? E, de que forma esta resistência, se for possível, deve ser feita?


  Ir de encontro, se colocar à frente, sair da norma, transgredir com arte e irreverência, tudo isso ainda tem sua validade, por mais que pareça careta e fora de uso. Entretanto, a primeira coisa é resistir ao julgamento alheio e saber entender a crítica e o outro como um espelho que nos diz algo, mesmo que seja uma grande falácia. Ao mesmo tempo, resistir às verdades que se colocam e são aceitas por todos como se fôssemos membros da mesma e única manada de não-pensantes é uma atitude imprescindível nesse momento. E não são mais questões exatamente grandes ou globais, e sim, sutis, e por que não, silenciosas, também. É resistir à ilusão do próprio ego, alimentado cotidianamente com exaltações megalomaníacas da mídia; é resistir silenciosamente ao Big Brother sem colocar tags degenerativas que só aumentam o "trading topics"; é resistir às ameaças de uma gripe que impede as pessoas de se sentirem livres para apertos de mãos, beijos e abraços; é resistir ao impulso de falar mal de pessoas próximas ou longínquas; é resistir ao olhar/falar maliciosos sobre a "grama" do vizinho; é resistir botando a cara a tapa quando a questão envolve ervas que aliviam a pressão; é resistir ao discurso simples e alienante dos comentaristas de futebol; é saber "ler" os filmes, sem deixá-los passar como uma agulha hipodérmica que vende discursos conservadores; é resistir sendo educado com todo mundo, mesmo que sejam anônimos e "imprestáveis"; é resistir rindo com suavidade e responsabilidade das desgraças e tendo consciência de que nossas atitudes são refletidas no "ali na frente"; enfim, é uma resistência individual e silenciosa que cabe a cada um julgar o que deve ou não fazer para se chegar à única verdade: que, o que cabe a mim, somente a mim interessa e o que cabe ao outro, a ele lhe convém. A tática e o objetivo é saber como interferir na sociedade sem que ela se sinta mal o suficiente para melindrar ou bem o suficiente para se acomodar. Afinal de contas, ela é você e você também é um reflexo dos outros!


 

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