Existe alguma coisa que eu faça em benefício do outro? Outro
comportamento, outro ser humano, outra praça, cidade, Brasil,
mundo? A grande maioria da população que tem acesso a um trabalho
remunerado diversas horas por dia, vai para casa com a sensação de dever cumprido, finalizado.
Comem, assistem à TV e dormem. Bom dia, e lá vem um novo dia igual
ao anterior. Mas têm também aqueles que, mesmo trabalhando, doam
algumas horas extras para causas sociais. Ou ainda aquelas que
fazem desta luta sua vida integral.
Dia 26 de janeiro de 2010, terça-feira, 2º dia de Fórum Social
Mundial 2010, 10 anos, estreou no CineBancários, em Porto Alegre
(RS), o documentário "Meu Brasil", dirigido por Daniela Broitman.
Nos primeiros anos do Fórum, lá nos idos 2001 e 2002, quem tinha
acesso eram quase sempre intelectuais e universitários que discutiam
assuntos relevantes, mas sem aplicabilidade no dia-a-dia. Daí
nasceu a ideia do tal vídeo.
Em 2005, a diretora acompanhou a viagem de ônibus de dezenas de
líderes comunitários da capital e interior do Rio de Janeiro a
Porto Alegre, destacando 3 personagens:
Gaúcha, cujo sonho era ser cantora. Negra, sente-se discriminada
no seu estado e vai ao Rio de Janeiro à procura de uma vida
melhor. Trabalha como cozinheira na casa da família de Irineu
Marinho, iniciando sua politização;
Carlos, instrutor de mergulho que, após sofrer uma forte desilusão
amorosa, busca reerguer sua auto-estima promovendo ecologia e
cidadania nas favelas;
Juliana, travesti que não quis a prostituição no exterior como
algumas de suas amigas, mantém sua casa na pequena cidade de Três
Rios (RJ) e luta pela implementação de um 3º banheiro na cidade,
que gerasse menos constrangimento a ela e a outros travestis.
Cada um deles mais invisível para o mundo impossível, mas
extremamente importantes para suas comunidades. Com eles já em
terras de Fórum Social Mundial 2005, participaram de oficinas
ligadas à desenvoltura e comportamento, assistiram às falas de nomes
importantes para as causas sociais, como José Saramago, Eduardo Galeano, Ignácio Ramonet,
Presidente Lula,
Presidente Hugo Chávez, Gilberto
Gil, Frei Betto e Leonardo Boff, trocaram contatos com líderes de
outros estados e países, enfim, encheram a cabeça de novos ideais
e as malas de panfletos e jornais para multiplicar tais
informações em suas bases.
O Fórum daquelas pessoas retratadas, porém, não costuma chegar na
grande mídia, logo, no conhecimento da grande maioria das pessoas
que trabalha, come, olha TV e dorme, para que elas pudessem mudar
seus cotidianos. Estas então resumem o Fórum e outros movimentos
sociais como vagabundagem, bicho-grilagem e outros termos nada
amigáveis. Como a diretora Daniela mesma falou após a sessão, o
evento também tem isso, é como a sociedade com suas diferenças,
mas é preciso também entender que há gente valorosa discutindo
alternativas não só de forma genérica, para um mundo que não se
enxerga fim, mas para suas aldeias próximas.
Em resumo, de 2005 para 2010, a diretora contou que Juliana acabou
não conseguindo a construção do 3º banheiro, mas focou-se na sua
formação escolar, pois notou a importância dela para qualquer
busca futura. Gaúcha segue ativa como líder de seu bairro. Carlos
ganhou maquinário e ampliou a reciclagem para outro bairro. Outras
milhares de pessoas (35 mil, de 39 países, segundo dados oficiais
do FSM/2010) seguem buscando informação para melhorar este mundo.

A pena é que depois de 1 hora e pouco de filme, 1 semana de
celebração do evento, essa gente que acredita numa mesma coisa
precise se afastar. Mas fica, então, implícito o compromisso de cada
um na volta para casa, multiplicar o que aprendeu, dar seu cuidado
a este "Meu Brasil", meu mundo que anda tão doente, em apuros.

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Para
saber mais: *
.
http://www.videoforum.tv/meubrasil .

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