A mesa de madeira quase nova se estendia lentamente pela sala até
encontrar seus dedos magros, que impunham sobre ela um ritmo de
percussão tolo e sem propósito. As considerações póstumas de um
poeta espanhol eram lidas desanimadamente. Em vão, o vento tentava
se infiltrar no ambiente, se chocando inutilmente com a grande
janela de vidro. Das três lâmpadas, uma estava queimada.
O garoto olhou para os porta-retratos da cristaleira. Estremeceu como
estremecem os mal-afortunados na hora derradeira. As pessoas da
foto conservavam um tom opaco no fundo dos olhos. Fragmentos de
passado ilusório enfeitando o grande móvel.
Não estava chovendo, mas ele se lembrou de quando estava. Sua mãe
observava as incontáveis gotas transparentes que encharcavam o
quintal através da janela da cozinha. Em um insight infantil
inevitável, ele a abraçou, chorou e disse que não queria morrer. A
mãe parecia espantada com a preocupação do tão pequeno filho. Como
ela poderia alentar a angústia do seu rebento, se sua causa era
questão pendente em sua própria vida e na vida dos incontáveis
seres que um dia já existiram? Como ter uma explicação didática
para o que é semente de incontáveis debates filosóficos, de
inúmeras crenças e descrenças?
- Ainda é cedo pra pensar nisso, filho.
Respondeu com a doçura das mães.
E agora ele era ainda jovem e já não chorava mais por isso. Chorava sim
pela vida, não pela morte. Ele costumava ter algumas certezas há
pouco tempo atrás, mas ultimamente estava simplesmente fascinado e
amedrontado com a grandeza e o mistério de tudo. Às vezes tentava
combater a inércia dos seus devaneios acerca da existência, mas
sua própria natureza humana lhe traía.
Viveu pouco e não sabe o que fazer. Escondeu a cara no tampo da mesa,
fechou os olhos. Na manhã do dia seguinte, enquanto procurava algo
pra fazer na sala da TV, pensou que agora entendia a dor e a
dúvida dos seus escritores favoritos. De noite, ouviu músicas,
amaldiçoou desafetos, conversou com garotas, bebeu. E assim foi
dissolvendo seus minutos na Terra, até o último deles.
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