O pássaro
 


                                               
 Por Felipe Melhado
                                                                                
 Imagem: Reprodução/www

 

 


 


 
A mesa de madeira quase nova se estendia lentamente pela sala até encontrar seus dedos magros, que impunham sobre ela um ritmo de percussão tolo e sem propósito. As considerações póstumas de um poeta espanhol eram lidas desanimadamente. Em vão, o vento tentava se infiltrar no ambiente, se chocando inutilmente com a grande janela de vidro. Das três lâmpadas, uma estava queimada.

  O garoto olhou para os porta-retratos da cristaleira. Estremeceu como estremecem os mal-afortunados na hora derradeira. As pessoas da foto conservavam um tom opaco no fundo dos olhos. Fragmentos de passado ilusório enfeitando o grande móvel.

  Não estava chovendo, mas ele se lembrou de quando estava. Sua mãe observava as incontáveis gotas transparentes que encharcavam o quintal através da janela da cozinha. Em um insight infantil inevitável, ele a abraçou, chorou e disse que não queria morrer. A mãe parecia espantada com a preocupação do tão pequeno filho. Como ela poderia alentar a angústia do seu rebento, se sua causa era questão pendente em sua própria vida e na vida dos incontáveis seres que um dia já existiram? Como ter uma explicação didática para o que é semente de incontáveis debates filosóficos, de inúmeras crenças e descrenças?

  - Ainda é cedo pra pensar nisso, filho.

  Respondeu com a doçura das mães.

  E agora ele era ainda jovem e já não chorava mais por isso. Chorava sim pela vida, não pela morte. Ele costumava ter algumas certezas há pouco tempo atrás, mas ultimamente estava simplesmente fascinado e amedrontado com a grandeza e o mistério de tudo. Às vezes tentava combater a inércia dos seus devaneios acerca da existência, mas sua própria natureza humana lhe traía.

  Viveu pouco e não sabe o que fazer. Escondeu a cara no tampo da mesa, fechou os olhos. Na manhã do dia seguinte, enquanto procurava algo pra fazer na sala da TV, pensou que agora entendia a dor e a dúvida dos seus escritores favoritos. De noite, ouviu músicas, amaldiçoou desafetos, conversou com garotas, bebeu. E assim foi dissolvendo seus minutos na Terra, até o último deles.

 

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