
Tento
escrever, mas a falta de idéias e de conhaque me dá uma tremenda dor de
cabeça. Pego dois livros de jovens escritores na minha estante para
vendê-los no sebo da Primeiro de Março. Eles não vão fazer falta. Se pessoas
no decorrer da história penaram para viver de escrever, pessoas mais
talentosas, mais inteligentes, não serei eu a chorar por ter de vender meus
livros para comprar chocolates e destilados. Às vezes, e só às vezes, o
caminho mais fácil é também o mais doloroso e difícil. A vida não é tão
fácil como na máxima evangélica caminho fácil=inferno, caminho
difícil=paraíso.
As pernas doem e o coração segue em frente, teimoso. As dívidas se
avolumam e no horizonte não vejo nada. As meninas que me atendem no sebo me
dizem que não podem me dar mais de quinze reais pelos dois livros. Aceito, e
penso, esses dois jovens escritores quase badalados não mereciam isso. Pego
o dinheiro e ligo para a Cris, mas ela não pode me atender hoje. Está com o
namorado. Então ligo para o Mathias. Em cerca de 30 minutos estamos na mesma
pastelaria de sempre tomando cervejas, procurando por festas rock com
entrada franca, e por amigas e amigos solteiros ou recém-separados para nos
fazerem companhia. Clube dos que falharam no amor e na vida? Mas então
porque os casados ao meu redor só têm reclamações a fazer? Todos os caminhos
têm seus espinhos, tanto faz que levem ao céu ou ao inferno.
Mathias, como sempre, fala de mulheres. Mais precisamente da falta delas
na sua vida nos últimos meses. Falamos sobre a nova vizinha ninfetinha que
chegou no seu prédio, sobre Agyness Dean, Cat Power e Kat Von D. Nas nossas
conversas as mulheres voltam a ser musas inatingíveis, assim como eram para
os românticos. Anos freqüentando bares e botecos e parece que nada
aprendemos. Por covardia ou por tola adoração a guria com uniforme da ótica
onde trabalha nos é hoje tão linda e longínqua quanto Kate Moss. Nossas
vidas estagnaram dentro de um copo de cerveja de uma pastelaria qualquer.
Como um feto de duas cabeças dentro de um vidro de formol. Para espanto dos
visitantes. Para estudo de cientistas. Para os cálculos e reprimendas
paternos.
Chove há três dias. A umidade já se entranhou nas paredes de madeira da
minha casa, e de lá não vai sair até o verão. As ruas de São Leopoldo estão
cheias de poças d'água. Tudo está úmido. As cadeiras da pastelaria, as
roupas dos transeuntes, o livro do Kafka na mochila, a mochila, o tênis de
rapper americano do Mathias. Tudo que pode absorver água. Meus pés e os
ossos dos meus pés. Como não está frio pedimos outra cerveja. Tudo o que eu
queria era um café e dois cigarros. Para parar a chuva, para parar minha
vida, para tudo voltar a ser como era no tempo do Andar de Cima. Quando,
enfim, deixamos a pastelaria para trás, a umidade nos acompanha até o ponto
de ônibus. Como boa acompanhante, nos diz que ficará com nós alguns dias até
o frio chegar. Quando então não haverá tantos dias assim para se tomar
cerveja e jogar futebol. Apenas a vida que segue, como uma afta dolorida que
não incomoda mais tanto assim, depois de alguns dias convivendo com ela.
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