Resignação

 

                                               
 Por
Sérgio Barboza
 Imagem: Reprodução
 

 

 

 

 

  Tento escrever, mas a falta de idéias e de conhaque me dá uma tremenda dor de cabeça. Pego dois livros de jovens escritores na minha estante para vendê-los no sebo da Primeiro de Março. Eles não vão fazer falta. Se pessoas no decorrer da história penaram para viver de escrever, pessoas mais talentosas, mais inteligentes, não serei eu a chorar por ter de vender meus livros para comprar chocolates e destilados. Às vezes, e só às vezes, o caminho mais fácil é também o mais doloroso e difícil. A vida não é tão fácil como na máxima evangélica caminho fácil=inferno, caminho difícil=paraíso.


  As pernas doem e o coração segue em frente, teimoso. As dívidas se avolumam e no horizonte não vejo nada. As meninas que me atendem no sebo me dizem que não podem me dar mais de quinze reais pelos dois livros. Aceito, e penso, esses dois jovens escritores quase badalados não mereciam isso. Pego o dinheiro e ligo para a Cris, mas ela não pode me atender hoje. Está com o namorado. Então ligo para o Mathias. Em cerca de 30 minutos estamos na mesma pastelaria de sempre tomando cervejas, procurando por festas rock com entrada franca, e por amigas e amigos solteiros ou recém-separados para nos fazerem companhia. Clube dos que falharam no amor e na vida? Mas então porque os casados ao meu redor só têm reclamações a fazer? Todos os caminhos têm seus espinhos, tanto faz que levem ao céu ou ao inferno.


  Mathias, como sempre, fala de mulheres. Mais precisamente da falta delas na sua vida nos últimos meses. Falamos sobre a nova vizinha ninfetinha que chegou no seu prédio, sobre Agyness Dean, Cat Power e Kat Von D. Nas nossas conversas as mulheres voltam a ser musas inatingíveis, assim como eram para os românticos. Anos freqüentando bares e botecos e parece que nada aprendemos. Por covardia ou por tola adoração a guria com uniforme da ótica onde trabalha nos é hoje tão linda e longínqua quanto Kate Moss. Nossas vidas estagnaram dentro de um copo de cerveja de uma pastelaria qualquer. Como um feto de duas cabeças dentro de um vidro de formol. Para espanto dos visitantes. Para estudo de cientistas. Para os cálculos e reprimendas paternos.


  Chove há três dias. A umidade já se entranhou nas paredes de madeira da minha casa, e de lá não vai sair até o verão. As ruas de São Leopoldo estão cheias de poças d'água. Tudo está úmido. As cadeiras da pastelaria, as roupas dos transeuntes, o livro do Kafka na mochila, a mochila, o tênis de rapper americano do Mathias. Tudo que pode absorver água. Meus pés e os ossos dos meus pés. Como não está frio pedimos outra cerveja. Tudo o que eu queria era um café e dois cigarros. Para parar a chuva, para parar minha vida, para tudo voltar a ser como era no tempo do Andar de Cima. Quando, enfim, deixamos a pastelaria para trás, a umidade nos acompanha até o ponto de ônibus. Como boa acompanhante, nos diz que ficará com nós alguns dias até o frio chegar. Quando então não haverá tantos dias assim para se tomar cerveja e jogar futebol. Apenas a vida que segue, como uma afta dolorida que não incomoda mais tanto assim, depois de alguns dias convivendo com ela.


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