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Máquina de Escrever
 



                                                                   

                                                                 Texto e imagens: Peter Strauss

 

 

 

 

  Trata-se de uma lenda entre os meus. Pergunte a qualquer um deles. Máquinas não gostam de mim. Quanto mais moderna, maior a antipatia. O leitor deve imaginar que sou um daqueles inimigos ferozes da tecnologia, em pânico com a simples menção de programar a televisão ou o rádio-relógio. Não, caro amigo, isso não é verdade. Sou um admirador da tecnologia e admito que me deixo seduzir facilmente por badulaques eletrônicos de toda espécie. Mas alguma coisa está fora da ordem. Fora da minha ordem pessoal.

 

  Tudo começou com meu computador, pelo qual gastei uma quantia que me parece difícil acreditar agora. Desde que comprei o mesmo há pouco mais de um ano, ele nunca funcionou direito. Posso dizer, com pouco orgulho, que já me ocorreram todas as combinações possíveis de erros e problemas de todos os tipos. O mais curioso é que nessas situações descobrimos que praticamente ninguém que trabalha nesse infeliz ramo de manutenção de computadores sabe realmente do que está falando. Ouvi sugestões das mais variadas e muitas contraditórias. Enquanto um estava convencido de que era problema da memória, outro dizia que só podia ser o processador. E a cada novo expert uma nova opinião. O fato permanece: nunca pude usar direito uma máquina que já ficou quase obsoleta.

 

  Essa antipatia parece vir de todos os lados, visto que ontem meu aparelho de DVD quase cuspiu o disco na minha cara, apesar de eu não ter feito nenhum movimento, apertado nenhum botão. Deve estar cansado de tocar Beastie Boys, mas não tenho muitas opções... Desliguei o aparelho, liguei novamente e ele se acalmou.

 

  O que acontece é que agora minha vó, a pessoa mais distante de um computador que eu possa imaginar, tem lá seu PC para escrever suas memórias, enquanto eu tive que seqüestrar a máquina de escrever dela para poder derramar meus surtos de inspiração em algum pedaço de papel. Me agrada a máquina de escrever, porém o barulho do bicho pode prejudicar minha convivência com meus familiares, a informar, a minha irmã.

 

  Levei a pequena amarela para lubrificar e trocar a fita em uma loja em Copacabana, a primeira que achei na lista. Por R$ 30 o serviço, achei justo e lá vou eu. A loja está localizada no Edifício Ritz, o que pode até evocar um certo luxo, uma finesse do local, mas não era bem o caso. A placa indicando o nome do prédio é daquelas de luzes piscantes multicoloridas, rodando como numa péssima viagem de ácido. A entrada, uma típica galeria de Copacabana. Quem conhece, sabe do que estou falando. Bares, travestis, putas e desocupados de toda espécie, toda uma fauna que caracteriza esse bairro tão interessante. É claro que a grande maioria das pessoas fica horrorizada com essas coisas, tem nojo dessas pessoas, esse tipo de coisa. Tudo bem, cada um com os seus preconceitos e fobias.

 

  A loja é no segundo andar e prefiro não arriscar o elevador desse prédio. Arrisco as escadas, que são tão estreitas que tenho que subir de lado, e se minha protuberância estomacal estivesse mais avançada, teria acabado com meus planos. Felizmente, perdi algum peso (é verdade, porra!). Lá em cima encontro muitas lojas fechadas, abandonadas, tempos de crise, não está valendo ter comércio aqui. Sou observado por algumas damas no restaurante, que parece ser o único estabelecimento do local. Procuro a loja de manutenção, enquanto uma menina desce de um buraco em cima de uma loja, provavelmente o atual lar dela. Uma menina muito bonita, negra, de olhos profundos. Parece um pouco assustada ao me ver, mas percebe que sou inofensivo e então me ignora.

 

  Finalmente encontro a loja do Sr. Otávio. Mais duas damas estão no balcão conversando. Me observam e uma grita:

 

  - "Ô, véio. Cliente... Freguês aqui, véio...  Freguês não, né, cliente..."

 

  As duas riem e vão embora quando o Sr. Otávio vem me atender. Um velho negro simpático, deve ter seus sessenta anos e nenhum pingo de organização, a julgar pelo caos de sua pequena loja. Meu pedido não tem mistério, mas o Sr. Otávio não tem carbono e o preenchimento da nota fiscal se torna um processo bastante demorado. Sr. Otávio devia fazer uma geral no lugar, pelo menos para poder achar uma caneta. Mas não tenho pressa, não me aborreço. Tenho certeza que, no final das contas, só um sujeito como esse pode consertar a máquina de escrever. E ele provou que eu estava certo. Está funcionando perfeitamente. Agora tenho que colocar em uso. E quem sabe um dia não precisarei de computador para nada?

 

 

 

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