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Triste história (baseada em fatos reais)

 

 

 

Texto e foto: Peter Strauss

 

 

 

  Marilene era o tipo de pessoa que não se comunicava. Era uma excelente funcionária em mais um escritório da vida, mas o fato é que ninguém conhecia Marilene. Seus colegas não sabiam dela muito mais que seu nome e que morava em Copacabana. Sozinha, presumiam. Não sabiam se era casada, se tinha filhos, o que fazia fora do serviço, se curtia música, se tomava chopp.


  Muitos acreditavam que ela apenas não queria contato com colegas de serviço. Porque praticamente toda semana, Marilene recebia flores no escritório. Buquês muito bem elaborados sempre decoravam sua mesa e havia sempre um cartão que ela lia repetidas vezes. A curiosidade dos colegas era evidente, mas Marilene era aquele tipo de pessoa tão fechada, mas tão fechada, que ninguém se sentia à vontade de lhe perguntar sobre aquele admirador tão dedicado. Muitas colegas, mais invejosas do que curiosas, comentavam como alguém podia ser tão atencioso e apaixonado por uma pessoa tão apagada e "sem sal" como Marilene, e é certo que mais de uma vez a quieta funcionária entreouviu esse tipo de comentário na copa ou no banheiro. Nesses dias se tornava ainda mais distante, alguns diriam que Marilene era um espírito vagando pelo mundo, cujo presença passava quase despercebida. Mas Marilene  ainda não era um espírito sem corpo.


  Como não podia deixar de ser, o dia dos namorados trazia ao edifício do
escritório uma imensa quantidade de entregadores de flores, casais se despediam e se encontravam antes do trabalho e combinavam as atividades daquele dia especial. Marilene recebeu um grande buquê aquele dia, que impressionou até mesmo os seus colegas, já acostumados com os constantes presentes que a jovem recebia. Era incrível, não porque Marilene fosse feia, e não era, mas era uma figura que parecia já ter morrido, pálida, séria como uma flor murcha, que sabemos já ter sido grandiosa e altiva, e que agora inspirava apenas algum misto de pena e incompreensão. Nem mesmo o grande mistério que a envolvia, esse mistério que muitas vezes faz a paixão brotar no curioso, nem esse era suficiente para remover a imensa aura de tristeza e silencioso desespero que Marilene emanava. Como de costume, ninguém perguntou nada a ela.


  Quinze dias depois Marilene foi encontrada morta em seu apartamento  minúsculo, repleto de flores. Havia se envenenado. Estava com medo que
descobrissem que nos últimos 10 anos de sua vida, semanalmente, enviava flores para si mesmo, sempre com um cartão vazio, em branco, sem palavras.

 


 

 

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