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  A morte e o choro...

 

 

Texto e foto: Peter Strauss

 

 


  A morte é um estranho. Um estranho que nos amedronta. Na sexta-feira retrasada, buscou um rapaz muito bacana que chamávamos de "tio". Pois o "tio" foi embora mais cedo, deixou a gente aqui pensando sobre esse estranho que é a morte, o forasteiro. Não nos adianta pensar muito, um dia ela chega. E então tudo será como antes de nós nascermos. Ou não? Bem... Não vou me ocupar aqui de questões metafísicas que não posso avaliar. Quem sabe um dia serei psciografado e aí eu conto para vocês o que eu achei. Aliás, acho que aí sim, escreverei bastante. Nada como estar morto para ter uma perspectiva inédita da vida.

  O dia seguinte a essa perda amanheceu muito bonito, um sol dos mais amarelos. Deus sabe que eu dormi cedo na sexta para acordar às 10 da manhã de sábado. Fui visitar uma pequena praça em Laranjeiras, onde há uma feira e uma reunião de chorinho. Indo até lá, pensei muito no "tio", que não era exatamente um amigo no sentido mais próximo da palavra, mas era uma pessoa de quem eu gostava muito, um cara alegre e engraçado. É tão estranho pensar que ele não está mais vivo. Só perceberemos isso de fato quando um dia lembrarmos a quanto tempo não vemos mais ele por perto. Aí, a realidade começa a bater na nossa cara. E essa melancolia que me abatia contrastava com aquele dia radiante, daqueles que faz a gente estar feliz só por estar.

  A feira na praça é um calmante natural sem contra-indicações. Por alguns instantes estamos longe do caos do trânsito carioca, da insanidade generalizada de seus motoristas. Os carros têm efeitos tão estranhos nas pessoas. Há pessoas que pensamos serem equilibradas, razoáveis e basta sentarem atrás do volante e se transformam em bestas grotescas e ridículas, nervosas e irritáveis por qualquer besteira. Mas lá na praça, a tranqüilidade reina. Temos crianças brincando, cervejas geladas, árvores que nos dão sombra. E, então, começa o chorinho. Essa música realmente fala com as pessoas. Parece um longo diálogo dos instrumentos que conversam, ora alegres, ora tristes, mas sempre evoluindo com a graça da boa harmonia. Aliás, harmonia é o que definia aquele lugar. Quando se está num lugar assim, comendo um ótimo pastel, tomando uma cerva da garrafa, ouvindo essas belas notas, a gente percebe que reclama demais nessa vida. Simples.

 Em dado momento, um ônibus barulhento parou ao nosso lado. O clarinetista virou seu instrumento na direção do monstro metálico e mandou seu solo. Foi intensamente aplaudido pelo público presente. A vitória do pequeno clarinete sobre o grande ônibus será a vitória final dos "pequenos grandes" sobre os "enormes medíocres".
 

 


 

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