Os 110 anos da Revolta da Armada:

 

A História do Brasil e o Imperialismo

 

 

 

 

Texto e imagem: Fábio Floyd

 

 

 


  Na sexta-feira, dia 06 de fevereiro de 2004, completou 110 anos e cinco meses da Revolta da Armada. Tal fato histórico ocorreu quando a Esquadra (Marinha) Brasileira, sob comando de Custódio de Melo, revoltou-se contra o Marechal Floriano Peixoto. A pretensão da revolta era restabelecer a Monarquia, a exemplo do que aconteceu no Hawaii.


  Sem adentrar no mérito quanto às formas de governo, Monarquista ou Republicana, uma vez que a história já atropelou esta fase e está consolidada a República das Bana..., digo Federativa do Brasil, um aspecto peculiar a nosso atual quadro histórico remanesce: o governo americano, pressionado pela opinião pública de seu país, sob o exemplo "negativo" do Hawaii, imiscuiu-se nos desígnios políticos brasileiros, enviando sua marinha para liquidar, como o fez, com a Revolta da Armada.


  Tal estado de coisas demonstra, incontestavelmente  o quanto estão enganados aqueles que pensam que a "GLOBALIZAÇÃO" seja algo novo, ou que o imperialismo americano advém dos anos mais recentes de sua história. Enganam-se, também, aqueles que pensam que o Brasil é um País sem amarras, quando, na verdade, sempre esteve sob os grilhões desde sua funesta invasão pelos portugueses de todos conhecida.


  Somos um povo sem memória e não conseguimos nos moldar numa nação verdadeiramente brasileira, pois a despeito de tantos estudos, ainda conseguimos vislumbrar como novidade a atuação americana em todos extremos do planeta.


  A título de exemplo, cai bem a citação do embaixador Sérgio Correia da Costa, no seu livro "A Diplomacia do Marechal", no qual mostra, com eficácia, como se passou tal acontecimento histórico, nos seguintes dizeres: "As tendências monárquicas de Saldanha foram o argumento de que se valeu Floriano para conquistar a adesão completa do governo de Washington. A restauração, feita sob as vistas benévolas das esquadras estrangeiras, deixaria uma porta aberta à influência européia. E a diplomacia do Marechal soube fazer valer esta consideração junto ao Departamento de Defesa do Estado. A 13 de dezembro de 1893, depois do Manifesto de Saldanha, Floriano informou, oficialmente, ao governo americano, que a "restauração do Império" seria, daquele momento em diante, o objetivo dos insurgentes.


  Esta observação passou a ser o estribilho de Salvador de Mendonça junto ao secretário de Estado Gresham. Se os Estados Unidos continuassem a reboque do corpo diplomático europeu no Rio de Janeiro, a república brasileira não poderia resistir à pressão dos seus inimigos. Referindo-se aos ataques da imprensa yankee contra o governo Cleveland - por ter este propiciado o restabelecimento da monarquia em Hawaii -, perguntava Mendonça: "Não serão demais duas restaurações para uma só administração democrática?".
 
  Restauração lembra dentista, ou "Jesus não tem dentes no País dos banguelas"?

  Leia abaixo, na íntegra, o Manifesto de Saldanha:

 

 

 

                         Manifesto do Almirante Saldanha 

 



  Aos meus concidadãos.

  Avesso por princípio e por instinto a toda a idéia de revolta, jamais entrei em conluios de qualquer espécie.

  Hoje, porém, no doloroso momento histórico que atravessa a pátria brasileira e o próprio governo, são as mesmas circunstâncias do País que me impelem para a luta.

  Aceitando esta situação, que me é imposta pelo patriotismo, reúno-me sem prévios conchavos, em pleno dia e pesando a responsabilidade que me tomo aos meus irmãos que há um ano, nas campinas do Rio Grande do Sul, e há três meses na baía desta capital, pugnam valorosamente pela libertação da pátria brasileira do militarismo agravado pela contubérnia do sectarismo e do mais infrene jacobinismo.

  Oficial da Armada, vou combater com a espada o militarismo, que sempre condenei toda a minha vida. Brasileiro, é meu interesse concorrer com os meus esforços para pôr termo a este terrível período em que lançaram a pátria na anarquia, no descrédito, na asfixia de todas as suas liberdades.

  A lógica, assim como a justiça dos fatos, autorizaria que se procurasse, à força das armas, repor o Governo do Brasil onde estava a 15 de novembro de 1889, quando num momento de surpresa e estupefação nacional ele foi conquistado por uma sedição militar, de que o atual governo não é senão uma continuação.

  O respeito, porém, que se deve à vontade nacional livremente manifestada, aconselha que ela mesma escolha solenemente e sob sua responsabilidade a forma de instituições sob que deseja envolver os seus gloriosos destinos.

  Ofereço a minha vida com a de meus companheiros de luta em holocausto no altar da pátria.

  O Exército que se está batendo com a sua proverbial bravura não pode mais persistir na defesa de um governo que perdeu o apoio moral da Nação e o crédito no estrangeiro. A sua obstinação nesse papel inglório, ainda quando bem-sucedida, acabaria por transformá-lo, de força nacional que é, numa hoste pretoriana de baixa república.

  O brado de nossa redenção política, levantado nas fronteiras meridionais e que perpassou por Santa Catarina, Paraná e São Paulo até esta capital, já ecoou no extremo norte.

  Brasileiros, para apressar a vitória que é certa, cumpre que lhe ponhais o selo, trazendo à luta o concurso de vossa influência moral. Já é notório que a causa nacional, em cuja defesa armada vou entrar, tem por si o apoio de todas as classes conservadoras da sociedade brasileira, daqueles que trabalham e produzem, e que, aliás, relutam às sedições, motins e desordens.

  É urgente que sua vontade impere e é, pois, imprescindível que a sua simpatia se manifeste clara e positivamente sobre a sua resolução de lançar fora esse jogo abominável de escravidão em que o militarismo de 1889 nos quer reter.

  Compatriotas, os povos que abdicam de seu direito não podem queixar-se de seus opressores.

  O Brasil, cujo passado é curto, mas honroso, tem grande futuro diante de si; só poderá cumpri-lo arrancando-se de um despotismo que o degrada diante de si mesmo e do mundo civilizado.

  Mostrai que não somos um povo conquistado, mas um povo livre e cônscio de seus destinos.

  Eis a situação.

  Espero poder cumprir o meu dever de brasileiro até ao sacrifício.

  Cumpri o vosso!



       (Luis Felipe de Saldanha da Gama, Contra-Almirante da Armada Nacional)
                                 (Ilha das Cobras, 7 de dezembro de 1893)

 

 

 


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