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A primeira banda chamada Sepultura no mundo

 

 

 

Por Luciano Branco

Imagens: Reprodução

 

 

 

  É difícil de imaginar que o maior expoente do metal brasileiro de todos os tempos, a banda Sepultura, originalmente formada na cidade de Belo Horizonte, em Minas Gerais, poderá, em breve, perder o direito de utilizar o nome (eu disse, em breve, o nome e não a qualidade e nem identidade musical) pelo qual são conhecidos em todo mundo. Os fãs xiítas podem até chiar, mas não se espantem caso isso aconteça, afinal, muito antes desse Sepultura cosmopolita que todos conhecem existir, surgia em Brasília o Sepultura. Eduardo I, guitarrista,  membro original e um dos fundadores da banda, conta uma pouco da história do grupo em uma entrevista exclusiva que vocês poderão conferir logo abaixo.

 

 

  O ano era 1977, o local Brasília, a capital do país, que mais tarde também seria conhecida por “Capital do Rock”, por causa de bandas como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Plebe Rude e Capital Inicial. Nesse ano, uma equipe de som chamada Sepultura mudaria suas atividades para formar a banda de rock Sepultura, “a verdadeira Sepultura”. Os seus fundadores Eduardo I (guitarras e vocais) e Magu Cartabranca (vocais e efeitos sonoros) eram dois jovens com cerca de 17 anos, que só queriam fazer o seu som e se espelhar nos seus ídolos da música. Bandas como Black Sabbath, Deep Purple e Led Zeppelin, que já faziam muito sucesso e eram referência nos anos 70, serviam de inspiração para eles também.

  Vários shows históricos pela cidade, dois discos lançados e uma briga na justiça pelo direto de usarem o nome Sepultura, que pertence a eles de direito desde meados nos anos 70, mas esse nome entrou para o Hall da Fama da música como o nome de um quarteto mineiro surgido em 1983 e que hoje é referência mundial do Hevy Metal. Com milhares de discos vendidos, fãs por todo o globo, respeito dentro de todos estilos musicais, enfim, não há como negar que a banda mineira será daquelas lembradas para sempre.

  Por essas e outras que um leitor mais desatento e desavisado, observando somente esses fatos, poderá chegar erradamente à conclusão que seria um golpe dos brasilienses e até mesmo tratar os mineiros com desdém. Mas, atentos a esse breve histórico e à entrevista que fizemos, vocês poderão ler e sentir que o que move a banda de Brasília é justiça, nada de oportunismo (já que a banda continua fazendo o mesmo som que fazia anos 70, rock com pitadas de hard rock e metal melódico). Não há nem aquela vontade de virar notícia na mídia, reinvidicando seus 15 minutos de fama. Pelas palavras dos membros da banda, podemos ver que eles se mantêm irredutíveis atrás dos seus direitos.

  A única semelhança entre as duas bandas fica por conta do nome que dividem. A banda de Brasília tem uma trajetória direcionada ao misticismo do Planalto Central, sem regionalismo e sem sotaque, mas com "estilo próprio, peculiar, exportável". Compõe em português, com letras que misturam cotidiano, poesia e até um a certa morbidez. Ah, eles também ficam longe do peso e velocidade dos homônimos mineiros. 

  Depois de darem um tempo, a banda que soube agüentar o tranco de serem chamados de oportunistas e está colocando no mercado uma coletânea (uma soma dos álbuns “A Verdadeira Sepultura”, de 1990, e “Instrumental Project”, de 1994) e, pelo menos até antes dessa entrevista, eles ainda não tinham sua história passada a limpo. Pela trajetória, mereciam um CD com um encarte caprichado, com mais fotos e um release contando a história completa da banda, mas já é um (novo) começo para essa banda que nos prova que a “Sepulnation” é bem maior do que poderíamos imaginar.

Porão Web: O Sepultura ainda continua sendo para vocês um filho? Como começou a banda?

Eduardo I: Sim, filho é para sempre. Éramos ainda uma equipe de som chamada Sepultura, que originou a fundação da Banda. Foi um momento que levaremos para a Sepultura (1976). Depois de uma noite de sonorização em uma boate, estávamos sentados ao balcão, conversando sobre uma idéia que já estava na cabeça do Magu, do Lula “Pé na Cova” e minha. Era o momento de apertarmos as mãos e transformarmos a equipe de som em banda de Rock. Foi um momento de grande satisfação para nós, pois aquilo era o princípio da realização de um sonho: um dia sermos como o Black Sabbath, o Led Zepelin, o Rush, o Deep Puple... Uma fantasia musical de todo adolescente. Tínhamos 17 anos, em média.

Porão Web: “Instrumental Project” (segundo álbum e lançado apenas em vinil), pelo que nos consta, foi lançado em 1994. Por quê só agora, dez anos depois, vocês resolveram soltar essa coletânea? Na verdade são praticamente os dois álbuns da banda, sendo que cada um deles vem com uma música a menos. Como rolou isso?

Eduardo I: Sobre o “Instrumental Project”, a faixa-título dá uma idéia de dinamismo do grupo, precisávamos de um trabalho que pudesse abrir novos caminhos, algo como trilha sonora. A coletânea também definiu sobre a exclusão da “Simples e Natural”, música que eu interpretava, por não ter me sentido a vontade no vocal de frente, minha praia é a guitarra e a segunda voz. Sobre "Os Tempos Mudaram”, achamos que não estava boa pra entrar na coletânea, houve uma quebra de estilo no trabalho e achamos por bem deixá-la somente no LP. Resumindo, só as dez melhores gravadas".

Porão Web: A banda pretende fazer alguma apresentação ou o objetivo era só registrar o trabalho em CD? Saudades do tempo de “Sala Funarte”, “Panelão da Arte”, “Concertos Grande Circular” e “Concerto Cabeças”?

Eduardo I: Bons tempos aqueles em que éramos convidados a tocar nos diversos concertos que aconteciam pela cidade. Hoje, se quisermos tocar, temos que bancar grande parte do nosso bolso. Sim, nós temos saudade dos tempos dos “Concertos de Rua”, pois foram eles que nos projetaram. Quem foi dessa época jamais esquecerá de nós, mas estamos programando alguns shows aqui em Brasília e algumas satélites para este ano, com grandes possibilidades de fazermos uma turnê pelo sul do país. Estamos aguardando o retorno de nossos músicos, que estão viajando, para retornarmos os nossos trabalhos (o baterista Rogério Collares, o guitarrista Mano e o contrabaixista Macarrão).

Porão Web: Para uma banda veterana (que se estivesse na ativa teria 27 anos), como está o mercado? Vocês tentaram lançar o disco por alguma gravadora e/ou selo?

Eduardo I: Sempre fomos uma banda independente, com dificuldades financeiras para projetar o nosso trabalho em nível nacional, mas devido a nossa perseverança e apoio de alguns patrocinadores, estamos fazendo o que está ao nosso alcance. Temos família, filhos e isso acaba dificultando as coisas, daí o fato de termos outros empregos para sobreviver. Esta coletânea conta com o apoio de órgãos do governo, entidades privadas e todos os nossos amigos e colaboradores nos fazem continuar a realizar este sonho que nos tentam roubar.

Porão Web: Vocês estão informados sobre a cena atual da música de Brasília, ou até mesmo de Goiânia, uma vez que os nossos vizinhos estão sendo reconhecidos nacionalmente pelas suas bandas, festivais e selos?

Eduardo I: Estamos não só informados, como também mantendo intercâmbio cultural com outras bandas do país, para que possamos tocar juntos em outros estados. Quanto a Goiânia estar ou não sendo reconhecida com selos bandas e festivais, só temos a dizer que eles estão mais pra regional do que pra Rock, em comparação a esse vulcão chamado Brasília.

Porão Web: Como vocês definiriam o som da banda para o público que desejar conhecer o trabalho de vocês? Na Brasília de hoje há espaços para bandas do estilo?

Eduardo I: Somos uma banda que criou seu próprio estilo. Banda que sempre esteve na ativa; toca pouco nos palcos, mas não sai da cabeça das pessoas. Mística como Brasília é, banda que existe e incomoda muita gente. E que ninguém consegue provar nada contra nós. Somos a verdadeira Sepultura! Com um som que todos conseguem entender. Nosso estilo independe de espaço, tem cadeira cativa no rock brasiliense, várias bandas de hoje foram influenciadas por nós e está certamente com as portas abertas.

Porão Web: A banda foi fundada em 1997, participou de uma histórica edição do famoso “Panelão da Arte” (pioneiro projeto que reunia os artistas da cidade e, entre as várias bandas que participaram, também estava “Os Metralhaz”, a primeira banda de Marcelo Bonfá), no período de 1979 e 1980, além disso, era presente na cena tendo tocado ao lado de várias bandas seminais de Brasília, entre elas a lendária banda “Aborto Elétrico”. O quê falta ou o quê faltou para que a questão do direito do uso do nome “Sepultura” fosse resolvida mais rapidamente e de uma vez por todas?

Eduardo I: Culpar algo ou alguém a essa altura do processo seria um pouco tarde demais, mas a morosidade da justiça nos prejudicou. Outra coisa foi o oportunismo dos mineirinhos ao fato de terem dado uma de metralhas. Já superamos a pancada, mas as cicatrizes que eles nos deixaram vão ficar para sempre. Agora será a vez da justiça se manifestar para a gente se limpar de vez. Porque todo o país já sabe dessa historinha que pegou mal pra eles. A gente não se relaciona mais com algumas bandas de Brasília por que várias delas, que dividiram palco conosco ou músicos que delas participaram, são covardes e nos negaram. Em l983, nós já tínhamos 6 anos de estrada. Nosso nome já rolava na boca do Rock nacional.

Nota: A banda Sepultura de Minas Gerais foi fundada em 1983 e só teve seu primeiro álbum lançado em 1985 “Bestial Devastation”, que foi gravado em apenas dois dias (dividido com a banda Overdose).

Porão Web: Vocês pensaram em abrir mão de utilizar o nome Sepultura? Houve algum tipo de negociação nesse sentido? Como foi a postura adotada pelo Sepultura, de Minas Gerais?

Eduardo I: Jamais negociaremos o nome. Eles que arranjem outro nome. Ou será o nome o fator do sucesso deles? Como todo ladrão, eles vão morrer negando.

Porão Web: O quê vocês acham de notas como essa, retirada de um site não oficial da banda, mas que consta no link do site oficial dos mineiros? “Diversão maior ainda... Para os fãs do Sepultura, foi uma banda heavy-religiosa brasiliense, também chamada Sepultura, que alegou ser ela a legítima dona do nome, chegando a lançar em 1991 um LP intitulado "A Verdadeira Sepultura". Na verdade, quem reclama das letras em inglês do Sepultura mineiro pode dar boas risadas com as letras deste "Sepultura de Brasília", que não honram muito o idioma de Camões”.

Eduardo I: A princípio, não somos gospel. Mas se fôssemos, seríamos com muita honra, pois falar de Deus sempre esteve na moda. Cantamos em português porque somos brasileiros. O conteúdo de nossas letras surpreende pela métrica dos poetas Magu e Izamar. São artistas de verdade, que continuam sonhando com dias melhores, relatando suas experiências vivenciais em suas poesias (letras). Muitos dos fãs deles não conhecem o conteúdo de suas letras, mal entendem o português e deveriam se mudar para os EUA. Obs.: Não nos interessa o som e nem o conteúdo das letras deles. Nada temos contra isso. Não somos hipócritas.

Porão Web: Como será a divulgação dessa coletânea? Vocês pretendem vender o disco também pela internet e há algum projeto de página para contar a estória da banda?

Eduardo I: Shows. Essa é a nossa meta. Tocar e Gravar novo CD, com músicas inéditas. Estamos gravando um clip da “Valerá” e em breve teremos um site próprio.

Porão Web: Vocês também trabalharam com o hoje conhecido e respeitado produtor Tom Capone em um dos álbuns (se brincar foi uma das primeiras produções dele). Vocês possuem lembrança desse trabalho de produção? Quando vocês lançaram a coletânea vocês não pensaram em gravar tudo de novo?

Eduardo I: Sobre o Tom Capone nós só temos a agradecer. Ele nos conheceu através do Toninho Maia, do Artimanha Estúdio. A única coisa que me lembro é que foi muito divertido trabalhar com ele naquela época. Estávamos à frente de um profissional que já demonstrava ter tudo para chegar aonde chegou. Sobre a coletânea, nós não pensamos em gravar tudo de novo porque somos outros músicos, com outras cabeças e talvez não teríamos o mesmo encanto da época. Com certeza sairia tudo diferente, mas decidimos fazer isso com músicas inéditas fonograficamente. Tudo virá no novo CD, e o que foi feito valeu como experiência.

Porão Web: O quê vocês conhecem em termo de bandas de Brasília e o quê andam ouvindo?

Eduardo I: Estamos totalmente sintonizados com o que rola em Brasília. Trabalhamos na produção da escolha da banda Pelicanos da Lua, no Festival Universitário que reuniu cerca de 100 inscrições, no qual somente 14 foram escolhidas para a final. Foi muito bom ter visto todas aquelas bandas e sentir o que rola atualmente em Brasília. Eu, particularmente, gosto da "Ponto com", da "Cidade Livre" e "Sentupé", (não sei se é assim que se escreve).

Porão Web: O quê me intriga é que nenhum jornalista da imprensa musical nunca bateu forte nessa tecla da questão do nome da banda como, por exemplo, fizeram com o antigo “Nativus”, que teve mudar de nome para Natiruts. A fama no exterior nessas horas conta demais...

Eduardo I: Sobre "alguns jornalistas", o Jô Soares já nos foi fiel, e podemos dizer que poucos nos deram importância. Mas aos jornalistas de Brasília nós só temos a dizer que já está pegando mal. A imprensa é super importante nesse processo, até porque ela deflagrou a polêmica. Temos antes de tudo uma filosofia de vida voltada para a Arte, e jornalismo não é tudo na vida de uma banda. Sem dúvida, a fama do Sepultura no exterior conta com um processo mais complexo, mais delicado, é preciso que haja muita certeza na hora de decidir quem ficará com o nome. Seria como se fôssemos fazer o DNA das duas bandas, aí tudo se esclareceria de verdade. Diga-se de passagem, nós lutamos pela PATERNIDADE de nosso filho.

Porão Web: Certo... Por quê vocês demoraram tanto a lançar o primeiro álbum? Vocês têm um som que é uma vertente do Hevy Metal, se tivessem lançando o álbum ainda nos anos 70, provavelmente, seriam uns dos primeiros do estilo a terem disco gravado...

Eduardo I: As gravações eram difíceis e precárias. Gravar um compacto com 4 músicas não nos daria satisfação, LP era coisa de banda antiga e conhecida. Gravadoras eram um sonho. Chegamos a gravar várias demos. Temos demos de 1982, e alguns fãs dizem ter fitas K7 dos ensaios, mas não as temos. Contamos com uma vasta documentação de participação em shows, entrevistas, etc... Músicas como "O Mundo dos Vivos” (de 1978!), “Veja”, “Jardim dos Anjos” e algumas que iremos lançar no próximo CD.

Porão Web: Vocês surgiram como Sepultura, mas houve um tempo em que se apresentaram como “Raízes Da Cruz”, né? Por quê vocês registram ambosos  nomes?

Eduardo I: Nós vivemos surgindo. Somos uma banda que se propôs a lançar carreiras-solo, com letras do Izamar em Raízes da Cruz, e com letras do Magu como Sepultura, todas comigo na guitarra. E você ainda se esqueceu de mencionar o Clínica Geral, uma banda minha que fazia shows e participava de festivais com a Kênia e o Izamar nos Vocais. Atualmente o Izamar toca com sua banda solo, que é a Cidade Livre, que recentemente lançou seu CD. Porém Magu e Eu sempre estivemos unidos e somos os fundadores do grupo SEPULTURA, em 1977. Nosso registro em entidade de classe (Ordem dos Músicos do Brasil) consta de l980. Antigamente, não se falava em INPI, o que nenhuma das duas bandas têm. Outras informações só com nosso advogado.

Porão Web: As últimas considerações...

Eduardo I: No último show da banda Sepultura, de Brasília, notamos que alguns jovens após o mesmo olhavam-nos à distância, vestiam a camisa da outra banda, o que nos chamou atenção. Nós nos impressionamos como eles encaram a nossa existência com um sentimento de profundo respeito. Esperamos que tudo continue na maior paz durante os nossos shows, assim como nós respeitamos os shows deles aqui na cidade

Contatos:

Eduardo I: (61) 9623-2961
Magu: (61) 919-5816

A coletânea lançada pela banda encontra-se a venda em todas as lojas da Discoteca 2001, de Brasília. Para maiores informações, entrem em contato com os músicos ou com o site Porão Web


 

Mais Luciano Branco em:

 

+ www.poraoweb.com.br

 

 

 


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