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Texto e foto: Peter Strauss
Minha mãe dizia: "meu filho, você vive em tempos difíceis". Eu digo: "porra, mãe, difícil era a Idade Média". A não ser que você fosse senhor feudal, cheio das regalias, vinho do bom e porra nenhuma para fazer. Mas ela não deixa de ter razão, pois hoje, assim como na Idade Média, há pessoas. E onde há gente, há algo de podre. As pessoas mais sãs que conheço hoje em dia são pessoas que ouço os outros chamarem de maluco, doidão. É verdade. E os mais loucos... Estão em todo lugar! Tenho essa noção clara aqui no escritório onde ganho o pão. É um hospício. Pessoas tão envolvidas consigo mesmas que só podem beirar à insanidade. Vivem a semana inteira entre o trabalho e o lar, onde só assistem à televisão, inclusive nos fins de semana. Não tem nenhuma paixão, não tem nenhum desejo, não tem tesão. Porra, nem tesão? Não... Nem tesão. Olho para muitos dos meus colegas e sinto tristeza por eles. Não é pena não, a piedade não presta. É uma consciência triste de que a maioria das pessoas é sugada para essa vida de trabalho pelo sustento e que isso as consome de tal forma que não há vida fora desse trabalho medíocre. E ainda se podem considerar felizardas por terem um emprego porque realmente são felizardas, já que o desemprego é recorde novamente no país do futuro. O futuro parece ser um lugar confortável. Como tudo é para o futuro, basta ficar tranqüilo e aguardar. Mas ele nunca chega. Só há presente. Futuro é desejo, passado é memória. Ou falta dela... Perguntei para um colega o que ele fez no fim de semana. "Fiquei em casa, vendo TV. Eu adoro TV." E pensei no meu fim de semana e olha que nem acho minha vida tão excitante assim, mas fui em diversos shows, recebi visitas de amigos queridos, revi pessoas que há muito não via, assisti a bandas muito boas, ganhei cd's de excelente música. Isso tudo por uma necessidade vital de sair de casa, de me recusar a achar que a vida é só trabalhar e se sustentar ralando o coco para enriquecer algum outro mané. Logo, comecei a pensar como é disseminada essa idéia. Trabalhar é bom? Claro que sim. Mas uma quantidade relativamente pequena de pessoas trabalha com algo que ama e que faz muito bem. Enquanto uma enorme massa de incontáveis seres humanos serve apenas para mover as engrenagens do mundo e produzir toda a merda que beneficia - apenas um minúsculo grupo de parasitas.
Isso era verdade desde quando minha mãe
nasceu, era verdade muito antes dela nascer e continua sendo verdade, de
maneira cada vez mais evidente. O quê o homem contemporâneo tem a dizer
sobre isso? O quê ele poderá fazer? Por quê nossa capacidade de discutir
problemas é inversamente proporcional à nossa capacidade de agir e acabar
com a palhaçada? Há muita coisa comprometida com os interesses de poucos.
Estamos fadados a nos auto-consumir? Eu não sei. Me sinto, às vezes, um bobo
da corte, me sinto mais um destinado a assistir o que há para assistir, até
o fim dos meus dias. Gostando ou não, tentando ou não. Mas, amigos, pretendo
me divertir até lá.
Me desejem sorte, eu a
desejo também para
vocês. "Early to bed And early to rise Makes a man or woman Miss out on the nightlife" Morphine
Mais Peter Strauss em:
+ www.palavreiro.blogger.com.br
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