Por Éverton Luiz Cidade

   Foto: Aline Ebert

 

 


 
Bandas de garagem texanas, álcool, álcool.
Sexo é apenas hábito, roubamos a Elma Chips,
estou cada dia mais flácido, cada dia mais triste,
cada dia mais pra baixo.


Levei umas boas chupadas, um caso recente e
água com açúcar nas chagas do meu braço.
Seringa Beija-Flor se liga agosto novas graças.


Essa é a nossa vida, apenas nossa vida, e eu não
entendo esses que são menos velhos que eu – me
afastar da manada seria uma saída. Delicada?


Gótico fúnebre noite antes. Boêmia. Boêmia.
É a tua hora não é a minha, cá estou. Lá me vou.
Caí. cansei. Usem minha pele sobre ossos fortes.
Usem minha carcaça numa exposição de Pop Art.

 

Não tive 15 minutos, mas tive o metal seco e frio
da nuvem carregada acompanhando o meu fracassado
trote. Quem me acompanhou até aqui daqui além
ainda irá? Voltam pra casa? Que fazer com as
bençãos todas que angariamos com as fadas, os anjos
e os astronautas? Guardá-las numa caixa genitália
para sempre de tanto sempre ainda mais?

O rádio: Talking Heads. Trepadinhas de 6ª série.
Trepadinhas bombinhas e épicas de onde falimos
o sistema e as boas famílias com nossas picas que a
tanto gozavam sozinhas. É, cansei. Caí. Estou num
mundo que não é mais meu. Sou um bebê líquido.


Passei, vai. Suaves são os dias passados ao lado dela
Que não escondeu os pés alvos em sapatos plásticos.
Eu ainda estou com os bons homens. Eu ainda estou
Com os que se fodem. Eu podia ter sido um yuppie
cheirando cocaína no rabo da minha menina enquanto
minha esposa lava a louça e amassa sua racha com a
mão em concha em brasa chorando, sonhando.


Trepadinhas de 6ª série. Trepadinhas bombinhas em
varandas após bailinhos atrás de igrejas aos cuidados
dos santos. É verão é a morte vindo pelos flancos
trincando, tinindo. Eu fui o que já deixei de ser quando
vindo de outra época de sopas é trocas, cansei. Caí.
De cara em boas coxas que me receberam, primeiro
Abertas, depois aos chutes, sexo é apenas hábito. O
Hálito dela nas minhas bolas.

Música francesa e maus hábitos, ei, Flaming Lips,
Biônica e Seeds. Cá estou, sem higiene pessoal
alguma fique de quatro, vamos mais uma. Eu
cansei. Eu caí. Ok. Chapem meu ego, com as
tolices gratuitas que eu nego. Eu faço tipo?


Eu faço posse? Eu e Hippie Rômulo Rodoviária
Manhã Outra. Mais uma risada, mais uma, outra,
mais uma dose. Minha casa é um convento de
outro tempo, onde falamos outra língua, onde a
estrela polar neutralizada flutua “Beijo é violência
física” disse a criança cínica, noite passada no bar
rock'n'roll, camiseta new metal e alma gasta.

 

Fico na minha, mesmo que à míngua. Eu sou o mofo de
que parecia que nunca acabaria mas caí. Cansei.
Cansei. Caí. Dor estomacal. Se eu morresse hoje,
o que você faria? O que eles fariam? O que ela
faria? Esperemos o apocalipse num dia de sol.
De ressaca. De fossa braba. De nada. Toda solidão
é solidão toda solidão é avião planando sob chuva
rala.

 

E os ônibus seguem levando pessoas tão
sozinhas quanto as que sorriem e bebem ficando pra
sempre brincando de estátuas em novenas em novelas
em bingos em namoros em casamentos em
relacionamentos pai mãe filho cachorros “baudelaire”
sucrilhos e mestres alunos santo diurnos santos
noturnos, sexo, e apenas um hábito sádico e sadio e
clínico pois é limpo o que provem da dor e da
submissão. Carcaça coração mão clitóris moeda suja
sobre o tambor que rufa a introdução da ópera do
perfume que se espera, sou um idiota de comportamento
sifílico.

 

Eu e Hippie Rômulo Rodoviária Manha Outra,
falamos de um nome judeu em comum rimos baixo e
levantamos, um pra cada lado, o sol me deixa irritado
gosto da sexta-feira santa, odeio poesia concreta.
A agonia de desistir me infesta porque meu egoísmo
é só o que tenho comigo espalhado em cada gesto afetado
que improviso com meu 24 sempre horas palhaço sorriso
Berotec – os farmacêuticos me amam, só eles – segue minha
cabeça apoiada no vidro. O ônibus é lento. Eu tento
esquecer o tempo. Penso na Adriana. Na boca. Nas pernas
e ancas da Adriana. O tempo não esquece. Vou morrer
noutra semana.

 

 

 

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