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Manhã

 

 

Texto: Peter Strauss

Foto: Hiro Kozaka

 

 

 

  Acordou com pouca disposição, sentindo as opressivas paredes do apartamento. Tinha que sair dali, mas não esperava encontrar lugar melhor. As paredes oprimiam sua cabeça, mas essa, levaria a todo lugar. Por ela se percebe o mundo, por ela julgava o real, o julgamento provavelmente equivocado que fazemos de que nossas percepções são a realidade. E são. Mas somente para cada um de nós.

  Pensou em telefonar para Bárbara, mas previa sua voz atendendo e sua reação decepcionada ao saber quem era, e não precisava disso. As mulheres passavam como roupas que não cabem mais, desbotam, ficam esquecidas no fundo do armário. Claro, sabia que havia aquelas que eram divinas, que qualquer homem ou mulher adoraria em um templo caseiro, um santuário de rosas, velas vermelhas e licor de menta. Mas essas mulheres estavam escondidas, mortas ou em instituições para doentes mentais. Exatamente onde ele esperava estar agora. Sempre imaginou morar em um lugar desses, mas nunca conseguiu ser louco. Não como se espera que sejam os loucos. Por bem ou por mal, o mundo lá fora era um grande hospício. E as paredes oprimiam...

  Saiu na rua e os confortáveis raios de sol da manhã causaram leves alterações em seu humor, resultando até em um estranho sentimento de felicidade. Se pudesse, tomaria um belo café da manhã em mais uma padaria e acompanharia as conversas sobre futebol. Quem sabe não faria uma nova amizade ou teria uma conversa inútil? Como era bom conversar besteiras. Após anos de seriedade, estava cansado de falar. Lembrava das enormes discussões sobre arte, dos tratados filosóficos em que se transformavam os almoços na casa de Teresa. E Teresa não entendia nada de arte, mas apreciava que aquelas longas conversas explodissem em sua sala de jantar. Eram tantos entendidos. Todos são artistas.

  Agora isso estava acabado, não tinha mais aqueles amigos. Não... Não eram amigos, talvez. Não importava mais. Só queria tomar um café. Mas ao invés disso, sentou na beira da praia para olhar as crianças que chegavam cedo com suas babás. Aquelas lindas babás... Olhou aquela que sempre o cumprimentava, uma mulata de olhos amendoados, com crianças que lhe tinham muito amor. Um amor que seus pais não tinham tempo, disposição, vontade ou capacidade de dar. Mas o amor não se escolhe de onde vem e isso é bom. Boas babás, boas crianças. Por quanto tempo? Até quando seriam criaturas tão naturais, sem bondade ou maldade premeditadas? Quando é que chegaria o fatal momento de nunca mais lembrarmos quando foi que tudo mudou e percebemos. Não sabia o que era que se percebia, mas havia alguma tomada de consciência das coisas que mudava tudo em algum ponto da linha curva e achatada da vida. Percebera isso quando muito novo ainda, mas não lembrava mais quando. Por isso ninguém voltava à infância.

  Cansado do seu próprio pensamento, aquecido pelo sol já alto, entorpecido pelas babás e pela falta de alimento, feliz e triste ao mesmo tempo, fez a única coisa possível: foi nadar. Quem sabe, até o alto-mar.
 

 


 

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