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* O REI DO PUNK BREGA: Wander Wildner faz show de lançamento do cd "No Ritmo da Vida" - Por Aline Ebert

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No Ritmo da Vida

 

 

Por Ricardo Guerrillero

Fotos: Aline Ebert e Divulgação Site

 

 

 

  Encartado na segunda edição da revista Outra Coisa - a "revista do Lobão" -, No Ritmo da Vida é o mais recente trabalho do Wander Wildner, depois de quase três anos sem material inédito. Tudo bem, é uma coletânea e dessa forma a palavra inédito seria aplicável no máximo em 4 canções, mesmo assim, convém lembrar que o trovador gaúcho sempre "garante o ingresso", quando o assunto é sua música e/ou suas composições.

 

 

 

  Com uma trajetória respeitável no meio independente, e claro, à frente nos vocais dos Replicantes desde os anos 80, o punk brega reaparece trazendo alguns dos "antigos sucessos", leia-se de discos anteriores, com exceção ao Buenos Dias, lançado pela Trama em 1999. Talvez determinada cláusula contratual com a Trama, sabe-se lá, para justificar a ausência, ou de TODAS as canções do Buenos Dias!, ou das sentidas  Quase Um Alcóolatra e Eu Queria Morar em Beverly Hills, respectivamente com autorias do Giancarlo Moreli e do Paulo Francis Vai Pro Céu (extinta banda de Recife). Sem esquecer de Minha vizinha (letra - Carlos Gerbase + música - Wander), todas as três já consagradas do cancioneiro gaúcho... Então é isso, está na cara: à exceção de Ensaístico, soneto do Glauco Mattoso, e Adeus às Ilusões, do Jimi Joe, as demais tiveram a assinatura exclusiva do cabrón gaudério!

 

 

  As coletâneas sempre trarão a boa desavença em relação à música preterida, sendo de fato traduzível como reconhecimento público-artista. Não reclamaria no Procon em decorrência das ausências do álbum ou por ser uma coletânea, evidente que para esse tipo de disco não há o peso de um trabalho inédito, entretanto, a mescla de músicas há tempo publicadas e lado B´s, acaba valendo o quanto pesa. A irada Bebendo Vinho, as "meio-time" Mantra das Possibilidades e No Ritmo da Vida, o brega-hit Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo, o punk mariachi de Ustê, o tributo às Damas da Noite e à Kerouac em On The Road...

 

 

  Enfim, um apanhado que leva um pedaço da arte do Wander a uma parcela maior de pessoas, que até então não o conhecia. É sensato também afirmar que o maior "beneficiário" será o independente, com outro dos seus artistas conseguindo divulgar idéias sob um formato alternativo para nichos que até então não os conhecia. A perfeita contrapartida ao formato decadente das multinacionais fonográficas: coletâneas ou discos inéditos nas mãos desse formato ainda vendem aos milhões, milhões a mais que as 20.000 cópias independentes desse recente Wander. Sem jabás ou domingões legais como abre-alas e produtores de ressonância coletiva.

 

  Para quem conhece os antecessores de No Ritmo da Vida, o Punk Brega e seu criador voltaram, este último a anunciar um novo enfoque nas letras, deixa o passado de lado e aposta em composições sobre instantes presentes e futuros. De agora em diante, como ficarão os quartos de empregada, as vizinhas do apartamento, as prostitutas, as baladas sangrentas? Aguardemos as cenas dos próximos capítulos. Hasta lluego!

 

 

***

 

 

 

    Dia 12 de março/2004 conversamos com o ídolo do punk brega, minutos antes dele subir ao palco do Expresso 356, numa noite de sexta-feira e de lançamento do novo cd, citado acima. Falando com ele pudemos ouvir suas dissertações, dentre algumas, bastidores da publicação na revista, circuito alternativo e futuro... Divagações? Só rolar a tela, por favor.    

 

 

 

Por Ricardo Guerrillero, Aline Ebert e Sérgio Barbosa

      

 

 

Dissonância - Como foi a transação com a Outra Coisa, conseguir lançar o cd dessa forma alternativa?

Wander Wildner - Foi um convite do Lobão! Essa história já vem há uns dois anos. A idéia dele era fazer uma gravadora primeiro, a Universo Paralelo, aí passou um ano, não rolou e ele viu que era melhor fazer o cd e lançar numa revista. Já tinha o BNegão que seria o primeiro e ele queria que eu fosse o segundo, isso há um ano atrás. Estavam tentando patrocínio, o que demorou um ano inteiro, então quando saiu a primeira edição ele me ligou de novo querendo um disco meu como o segundo, aí que eu resolvi fazer essa coletânea.

 

  Peguei quatro músicas do "Baladas" (N. do E.: Baladas Sangrentas, o primogênito), quatro músicas do "Eu Sou Feio... Mas Sou Bonito" (N. do E.: quarto e último, até então), duas músicas inéditas que são No Ritmo da Vida e Adeus às Ilusões, esta do Jimi Joe, e duas músicas que tinham saído em dois discos que não eram meus, que são "Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro", que saiu na Frente! (N. do E.: Revista Frente!) , e "Ensaístico", que saiu no disco do Glauco Mattoso, poeta paulista que fez um disco com artistas musicando os seus sonetos. Então musiquei esse soneto, e como tinha saído só no disco dele, em mil cópias, eu pensei: "vou botar no meu disco para mais gente conhecer", então são essas quatro que não são dos meus trabalhos.

 

  É uma coletânea que se caracteriza por ser de música de minhas composições, fora a do Jimi e a do Glauco, as outras dez são minhas.  Caracterizei como coletânea por conta dos direitos autorais, pois pelos direitos autorais teria de pagar antecipado, então como são vinte mil cópias, vinte mil discos. Eu não tinha essa grana, daí resolvi fazer uma coletânea de músicas da minha autoria...

Dissonância - Você fala no encarte do disco que não pretende mais escrever sobre o passado, só o "daqui pra frente"...

Wander Wildner - Essa é uma idéia, por que eu me dei conta de que tu faz uma música sobre o passado, você fica tocando ela meio que alimentando o passado. Essas estórias ficam no passado, pois ela já foram meio que resolvidas por mim, e aí tu tem uma evolução. Eu digo: "Puta, já estou um tempo falando e cantando aquelas letras, vou falar agora sobre os meus sonhos, sobre as coisas que eu quero". Então a minha idéia é fazer mais letras falando do presente ou do futuro, coisas que eu quero que aconteçam.

Dissonância - Foi esse o motivo pelo qual você escolheu "Adeus às Ilusões", do Jimi Joe?

Wander Wildner - Não, o Jimi ainda é uma história do passado, ainda fala sobre uma relação que não deu certo, num tipo de amor bastante diferente. No Brasil se tem a visão do amor como uma coisa romântica, isso foi muito alimentado pelo Roberto Carlos.

 

  O Roberto Carlos foi colocado como "o tipo de amor", aí depois dele veio o sertanejo, vem tudo isso, que é um amor irreal, é o amor da sociedade capitalista. No amor real você não pode sofrer daquele jeito; se o relacionamento não deu certo, você tem de acabar e partir para outro, mas não, tu fica chorando "eu não tenho mais ela, ahhhhhh"!!! Isso é um horror, acaba com a gente...

Dissonância - E inspira o Punk Brega?

Wander Wildner - O Punk Brega tem disso um pouco, é o cara que sofreu no amor, mas parte para outra. Fica imaginando que tem outra forma de amor, que não essa romântica. O romântico é outra coisa, ele foi deturpado. O brega foi deturpado, sendo sinônimo de uma coisa "Ah, ele é brega!"... Não, o que é que era o Brega no começo? O brega no começo era a elegância das pessoas pobres, quando tu te arruma e fica elegante para ir numa festa. Isso era o Brega nos anos 20, 30, 40, o cara se arrumava, botava um terno branco, sapato branco e ia pra gafieira no centro do Rio de Janeiro - o cara saía de lá da Zona Norte.

  Depois, como a idéia é criar uma sociedade de escravos, então o pobre sempre vai ser ridicularizado. Na verdade, o Brega ficou uma caricatura de uma bobagem, e não era isso: o Brega era o pobre elegante! Só que o pobre elegante não vai ao shopping comprar uma roupa para a festa, ele vê o que ele tem e vê o mais bacana e se veste. Hoje a gente faz isso com o brechó, para a gente ir elegante. Eu e os meus amigos compramos roupas em brechó, por que compramos roupas bacanas para ir à festa. Hoje isso mudou muito...

  Hoje a maioria dos jovens se veste de tênis, bermuda e camiseta, o tempo inteiro, você não tem aquela coisa de eu vou numa festa, eu vou diferente. Se perdeu essa coisa de diferenças e situações; para cada situação tem que ter uma coisa, entende, tem de ter, bah, aquela situação especial, vou me preparar para a festa, seja no cenário, no lugar, na roupa, entende? Isso a gente perdeu e todo mundo se veste igual. Não tem a diferença, perdeu-se a elegância.

Dissonância - Do Brega, qual artista você destacaria?

Wander Wildner - Artista brega, cara??? Odair José! Odair José tem várias, é clássico.

Dissonância - O que está ouvindo nesses dias?

Wander Wildner - Kings of Leon, Strokes, Johnny Cash, Iggy Pop, Walverdes, Repolho, Os Pistoleiros, Os Ambervisions, Bidê ou Balde. Esses eu ouço sempre...

Dissonância - Quando sairá o seu próximo disco, Pára-quedas do Coração?

Wander Wildner - Ele sai agora... Ele vai ser lançado em abril; o primeiro show será em Curitiba, no Curitiba Pop Festival. Mas ele vai para a imprensa já em abril.

Dissonância -  Você tem um público que curte bastante o seu som em Curitiba?

Wander Wildner - Tenho sim. Eu faço muitos shows pelo Brasil, faço o circuito alternativo, então tem público em todos os lugares. Na Bahia, Rio de Janeiro, Minas...

Dissonância - Com a publicação na revista, divulgação nacional, o que você espera daqui pra frente, "vencer pelo talento ou por ser mais um rostinho bonito na TV"?

Wander Wildner - Não, a divulgação da Outra Coisa foi local, só em Porto Alegre. Ficou restrita ao Sul (Rio Grande do Sul)...

Dissonância - Então porque você fez uma coletânea, se a divulgação seria somente aqui?

Wander Wildner - Porque tinha que ser, eu não ia lançar um disco novo numa revista... Eu queria a revista e o disco, pois deve ser lançado como disco, não vou lançar o Pára-quedas na revista. Ele fica diluído, já uma coletânea é perfeita para revista. Fiz a coletânea por que era para revista!

 

  Lançar um disco de inéditas numa revista não tem sentido para mim. Um disco de inéditas "eu" tenho de lançar, um lançamento alternativo, para todo o Brasil, mesmo que não seja 20 mil cópias. Mesmo começando com 2 mil, acontece que o disco de inéditas segue na história de cada vez alimentar mais o circuito alternativo. Eu trabalho para isso, eu trabalho para cada vez surgir um circuito alternativo maior, cada vez a gente poder fazer uma turnê maior pelo Brasil.

 

  Essa é a minha idéia, o circuito alternativo tem uma visão diferente da grande mídia.

Dissonância - De onde veio a idéia da homenagem às "Madalenas" em Damas da Noite?

Wander Wildner - Eu me lembro da primeira prostituta que eu vi, que foi na época que eu comecei a estudar, mas eu não sabia que ela era prostituta. Eu voltava do colégio de noite e via sempre uma mulher que ficava na esquina da Assis Brasil com a Alberto Silva, logo depois da estrada do Forte. Era uma mulher que eu sempre a olhava quando estava na esquina, eu devia ter uns quinze anos, por aí. E eu gostava dela, achava interessante aquela mulher ali, parada, era um mistério pra mim.

  E tem a estória das prostitutas serem mulheres muito corajosas e os homem são ao mesmo tempo, muito ratos. Porque não são homens, pois a partir do momento em que você tem que pagar para ter amor, não é homem. Não tem a conquista que é fundamental... Por dinheiro? Pode até fazer como uma brincadeira, mas não faz sentido. Tem que conquistar, a conquista é fundamental, é animal, é instinto, o sexo é uma coisa animal.

 

  Essa sociedade perdeu o lado animal, porque desde que descobriram o Brasil começaram a matar índio, e a gente perdeu de ser índio, o índio é tudo, comia tudo. Os europeus que vieram para cá eram a pior espécie. Eram os doentes, assassinos, ladrões, os degredados. Quem queria entrar numa caravela portuguesa? Imagina... Os caras deviam estar pagando assim, "você vai ter uns goles dágua e olhe lá...".

 

  Por isso que a sociedade é tão ruim, sabe, o pobre brasileiro sempre tá acreditando que vai servir, não acredita em si mesmo. Ele acredita que vai ser igual ao cara que o colonizou... Não tem força para mudar, pois na primeira bala ou moeda que recebe, ele se entrega.

 

* Contatos com o punk brega:  www.wanderwildner.com

 

    A Banda - Sérgio Bolada (bateria);

                    Wander Wildner (guitarra e voz);

                    Milton Sting (baixo);

                    Jimi Joe (guitarra).

 

 


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