O universo explodiu

 

 

 

Texto: Peter Strauss

Imagem: Reprodução

 

 

 

  De um pequeno ponto, o universo explodiu. Eu digo que era um pequeno ponto por comodidade de expressão, não posso afirmar com certeza, mas devia ser o mais pequeno dos insignificantes pontos, uma minúscula e inocente esfera, tão minúscula, tão insignificante, tão inocente, que não saberemos do que chamá-la. E diga-se mais, sequer podemos entendê-la, pois ela é daquela época onde não havia o que compreender, não havia nada a ser compreendido, muito menos alguém para compreender. Além da imaginação.

  Muitos seres bastante inteligentes da história humana se uniram na admiração da forma esférica, a forma perfeita, a forma de Deus. Nela, todos os pontos são eqüidistantes do centro. Muitos já afirmaram também que "o universo é uma esfera cujo centro está em todos os lugares e a superfície em lugar algum". Borges já escreveu um brilhante ensaio sobre essa metáfora e suas reprises na história da ciência e da mitologia.

  O universo me dá medo. Sinto que tenho certa facilidade de me ausentar do nosso planeta e viajar pelo espaço e que ele me assusta, pois é a única coisa que posso chamar de Deus, com o mesmo respeito que a humanidade lhe tem. Para mim, não existe outro Deus. O universo é aquele pequeno ponto em uma infinita expansão em todas as direções, com forças desconhecidas, incompreensíveis para essa nossa raça que é doente pela compreensão.

  Houve quem ficasse louco e os cientistas ficaram com essa fama de alucinados com óculos fundo de garrafa. E há quem olhe para o céu e até ignore as estrelas, se acostumaram. Sim, nós construímos nossas coisas aqui embaixo, pedra sobre pedra, sacrificamos vidas e felicidades e montamos essa enorme civilização cheia de sentidos e regras sem validade e concreto armado nos arranha-céus. Será que estamos tentando subir sempre mais alto para atingir o paraíso? O universo está dentro de nós e ao mesmo tempo tão longe. Em nossos esforços mais custosos e avançados chegamos à Marte, que é ali do lado, virando a esquina, onde até já fui algumas vezes.

   E o que há lá? Muita pedra, isso eu te garanto. Nossa felicidade é saber que talvez houvesse água, quem sabe vida em Marte há alguns bilhões de anos atrás. Temos que perceber que um dia essa pedrinha aqui será como Marte, ou pior. Quem vai querer morar em um lugar assim? Eu certamente não... E então, percebo que é muito triste que a humanidade tenha esse gosto mórbido pela auto-destruição mas, ao mesmo tempo, o universo não se importa. Nele, nossa destruição não fará som, não causará alarde, não fará diferença. Pois aqui estamos imensamente ocupados em bombardear culturas, assassinar, especular, brincar de ser. Ao invés de simplesmente vivermos tranqüilos e relaxados, aproveitando a vista bonita que ganhamos, muito mais bela que Marte. Pobres pessoas, eu as amo e eu as detesto.

  Pensei em tudo isso porque havia uma morena de cabelos longos no ônibus. Ela era enorme, não obesa, era apenas grande. "Grandes ossos" eu pensei e ela me lembrou da força g, a gravidade que faz os corpos se atraírem e de como aquele corpo me atraía muito mais do que eu atraía ele, afinal, isso é física, não? Pura atração física. Incrível. É uma pena que encontre tantas belas mulheres no ônibus, porque não é um lugar que inspira meu lado Don Juan. Inspira sim meus pensamentos pseudo-filosóficos e reflexões sobre o Grande Universo. Um dia serei dissolvido e meus pedaços estarão por aí, alimentando o chão, adubando planta. Mórbido? Que nada, essa é a beleza da coisa toda!

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