Jonas estava deprê

 

 

Texto: Peter Strauss

Imagem: Reprodução/ Jano

 

 

 

 


  Jonas estava "deprê", como ele mesmo dizia. Eu tinha dificuldade em entender a depressão do sujeito, mas ele parecia bastante satisfeito com ela. Por que haveria eu de interferir? Cada um com suas felicidades.

 

  Era um sujeito bom o Jonas, muito falante, reclamão e rabugento, mas extremamente divertido. Não havia ninguém que perdoasse com sua metralhadora giratória de insultos. Principalmente as mulheres, as "putas-mãe", como ele colocava. Essas eram o alvo preferido do rapaz, apesar de estar sempre atrás de uma. É claro, temos uma necessidade delas, conhecemos uma estúpida qualquer e apenas por sua igualmente estúpida beleza nos transformamos em idiotas completos, seres inferiores a qualquer mono-celular. Mas para nós, naquele momento, são deusas que vieram nos salvar de nossos vícios imundos, nossos amigos mal-intencionados, nossas drogas de conveniência. Nossas salvadoras. Deve ser alguma coisa que está impregnada em nós após tantos séculos de cristianismo. Só podemos estar abarrotados de culpa e dor e arrependimento e salvação por todos os lados. Não agüento mais ser salvo, vão me salvar de quem? Vão me salvar de mim mesmo? Não creio.

  Não havia muito que eu pudesse dizer ao Jonas. Mas ficava ouvindo, porque a capacidade da audição é pouco valorizada por nós, mas é ainda mais incrível que a visão. Nossos ouvidos estão seriamente avariados, não escutamos mais ninguém. O que realmente nos importa é o que temos a dizer, nossa própria opinião é extremamente importante e não estamos interessados em ouvir nada de ninguém. Não condiz com o individualismo contemporâneo. Temos que ter estilo, estar por dentro, fazer ouvir nossa voz; o quê importa se não temos o que dizer? Ninguém vai ouvir mesmo. Mas pelo menos falamos. Tenho pesadelos com dezenas de pessoas falando no meu ouvido, sem parar. Aterrorizante. Se pudesse controlar meus sonhos, saía atirando.

  - Mermão, não consigo acreditar nessas vadias do Baixo, estão todas lá desfilando aqueles traseiros de purpurina, aqueles narizes empinados. Até parece que elas não tiram meleca do nariz também. Ficam lá para tirar onda de gostosas, nem olham para os homens, só para as outras mulheres, bando de cachorras...


  - Sei..., eu disse.

 
  - É foda, cara. Eu preciso de mulher, todo mundo precisa de mulher, de sacanagem, elas precisam... Você não precisa?


  - Eu preciso...


  - Então... Por quê elas ficam de merda? Porque querem, depois não querem, porque brincam, porra, que sacanagem. Vou te falar, dá vontade de baixar o sarrafo numa safada dessa, quebrar ela de porrada, vai ver até gosta disso. Não dá vontade?


  - Dá sim...


  - Vou te dizer, cara, hoje vou arrumar uma, de hoje não passa, vou trazer ela pra cá, ela vai lembrar para sempre de mim, lembrar de cada centímetro meu dentro dela, vai gozar como nunca gozou na vida, de hoje não passa.


  - Tenho certeza que não... Hoje é seu dia!

  E assim ficávamos horas e horas, ele com seus surtos de ódio absoluto, eu com minha diversão e comentários vazios. O Jonas pode parecer um porco para você, caro leitor. Não se engana, ele é um porco, um louco, um perverso. E é também uma criança sofredora, incapaz de cumprir qualquer uma dessas suas bobagens. Mas o rapaz é real, verdadeiro. Não fede à naftalina, nem pretende ser algo que não é. E me diverte muito com seus longos monólogos, que ele acredita serem diálogos comigo. Porque estou tão rodeado de fantasmas decrépitos e do meu medo de me tornar um deles. O grande Medo. Precisamos dele e não podemos deixar nos vencer pois Ele é forte. O grande Medo, a grande Merda.

  - Vamos sair, cansei desse lugar escroto. Jonas decretou decidido.

  Saímos pela noite, sem muito rumo, cansados, bêbados e ligeiramente felizes. A depressão era uma exclusividade do Jonas, eu nunca entendera o que era a depressão dos nossos dias modernos. Eu sabia sobre tristeza, mas mesmo pessoas muito sorridentes me pareciam deprimidas, era uma nova moda ou tendência do momento. Para mim, parecia um surto de auto-piedade patética que atingia principalmente aqueles que não sabendo o que fazer de suas vidas e portanto não faziam nada, não corriam riscos. Conhecia tantas pessoas que me contavam sobre seus psicólogos e psiquiatras e seus iogas, e dedicavam uma energia tremenda em fugir daquela depressão e faziam aquilo por anos a fio. Anos conversando com um psicólogo, que ouvia atentamente e às vezes pigarreava um pouco para dar um ar profissional à sessão, e aquilo durava anos e o paciente estava sempre avançando e progredindo e ninguém saberia dizer exatamente para onde. Não saberia julgar isso, apenas observava e tentava entender.

  - Eu estou mal, cara, nem sei dizer mais porque, sou um poço sem fundo, um inútil. Quero escrever, mas não escrevo, nada sai de mim. As pessoas me evitam, minha família nem liga mais. Claro que não me mataria, pois isso seria patético, mas a vida não me entusiasma mais. Você se entusiasma com a vida ainda?


  - Acho que sim...


  - Acha que sim... Pffff... Que imbecil, você é um grande imbecil, sabia disso?


  - Ah, sim, eu sei.


  - Essa vida moderna é uma grande merda, isso sim. Não existe uma única verdade: nem amor, nem família, nem honra. Isso tudo é balela, sempre foi. O mundo é dos manipuladores de marionetes. O resto é menos que excremento de vaca. Eu, você, somos apenas mais dois idiotas jogando o jogo por não haver outra forma, não vamos herdar os fios, vamos apodrecer e adubar a terra, esquecidos para sempre.


  - É provável que sim.


  - Ahhhh, esquece... Paga um Gin-Tônica?


  - Acho que sim, disse com um sorriso debochado nos lábios. É divertido.

 

 

 


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