A Terra das Baboseiras (para crianças grandinhas)

 

Por Solano Lucena

Imagem: Reprodução

 

 

 

 

  Era uma vez um país muito, mas muito distante chamado Terra das Baboseiras. O nome era esse porque ninguém levava a sério o que por ali acontecia. Quem mandava nesse país roubava das pessoas, as pessoas acreditavam muito em Deus e a imagem que tinham desse Deus já era muito familiar por causa dos vários tipos de povos diferentes que construíram esse país.

  Exatamente a metade dos moradores desse lugar tinha a pele verde. Mas quem mandava era um azul. Sempre foram eles que mandaram. Eles se achavam superiores e diziam que em suas veias corria sangue azul (mas todo mundo sabe que o sangue era negro, igual para os dois). Esses verdes foram vítimas de injustiças ao longo dos anos, por isso uma enorme parte de seu povo vivia mal.

  Existia, nessa terra, uma grande escola que todos chamavam de universidade. Essa escola era uma preparação para o trabalho que as pessoas iriam seguir. Se alguém quiser ser professor de História, fará História como curso. Se alguém quiser ser médico, fará Medicina como curso. Se alguém quiser ser coordenador de pequenas escolas, terá que fazer Pedagogia.

  Um dia, alguém fez uma pesquisa nessa universidade e descobriu que apenas 2% de quem estudava nessa grande escola era verde. O canal de televisão da Terra das Baboseiras ficou louco, diziam os azuis que era um absurdo só terem 2% verde, se perguntavam de quem era o erro para tudo isso. Foi aí que um senhor que mandava no país, também azul (e que concorreria às eleições no próximo ano), disse que, a partir de agora, metade das pessoas que entrarem nessa escola será verde e outra metade azul. Não importava mais quais eram os primeiros colocados, o que importava era como eles eram.

  Pronto! O assunto na Terra das Baboseiras era só esse. O canal de televisão, que dizia que era um absurdo terem aquela merreca de verdes na universidade, começou a chamar esse senhor de louco. Dizia que aquilo era preconceito, racismo, fascismo, qualquer coisa. Ameaçava que aconteceria uma rebelião, que se há 98% de azuis naquela grande escola, era porque os azuis estudavam mais ou eram mais inteligentes. Muitos verdes que viam aquilo começavam a ficar contra também, diziam que não era com racismo que se combatia o racismo. Mas esse “homem louco” não queria saber de nada, mandou que sua idéia se tornasse lei. E assim foi, ele tinha muito poder ali.

  No começo, muitos estudantes azuis eram contra os verdes que entravam. No começo, a média dos verdes era baixa, e poucos verdes se diziam verdes para tentar concorrer, por vergonha. No começo, o canal de televisão começou a fazer pressão contra esse homem louco que mandava e ele, de uma hora p’ra outra, parou de mandar. Outros que depois mandaram, tentaram tornar tudo como era, só que a lei resistiu graças a grupos organizados de verdes que lutavam pelo direito à grande escola.

  Alguns anos depois, era possível ver muitos verdes atendendo pacientes de todas as cores no hospital, muitos verdes apresentando o tele-jornal do canal de televisão ao lado de um azul, muitos verdes advogados, lutando pela justiça, pela igualdade de cores. Até mesmo, verdes mandando na Terra das Baboseiras, inclusive, foi um deles que propôs um novo nome para o país: Bonança.

  Ao amadurecerem juntos, verdes e azuis construíram um novo lar longe do mal que lhes afligiam, a sedentária esperança. Ainda existiam assassinatos. Ainda existiam estupros. Ainda existiam vandalismos. Mas, pelo menos, agora muitos possuem condições de viverem felizes para sempre...


 


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