Eu gosto de jogo de bola

Por Peter Strauss

Imagem: Reprodução


 

  Nelson, o Rodrigues, era torcedor fanático do Fluminense. Deve ter se revirado bastante no caixão nos últimos anos. O mais interessante era que suas crônicas sobre os jogos transcendiam o jogo de futebol. Nelson parecia se aproximar dos homens em campo. Afinal, temos que perceber que o futebol vai bem além da tática, do esquema.

 

  Cada time é um coletivo dos homens em campo e isso é bem mais complexo do que normalmente é considerado. Cada sujeito ali tem sua personalidade, sua inteligência (ou ausência dela), sua rapidez de percepção. Há aqueles que precisam de muito treino. Há outros que sabem prever movimentos de terceiros, conseguem visualizar exatamente como os jogadores irão se movimentar nos próximos segundos e desenhar a jogada em suas cabeças. Uma incrível percepção.

  Tenho muitos amigos que não ligam para o futebol. Acham ridícula a paixão das torcidas, a rivalidade que é conseqüência dessa paixão, as falcatruas do futebol carioca, etc... Nessas questões, até concordo com eles, nada disso me interessa tanto assim. Já fui torcedor do Flamengo, mas hoje em dia não ligo muito para isso. Mas o meu gosto pelo jogo em si, não se alterou. Um bom jogo de futebol sempre será um bom jogo de futebol, seja na Europa ou na várzea.

  Para essa percepção é preciso se aproximar dos homens em campo, entender que são pessoas como qualquer outra. Imagine um Maracanã gritando seu nome? Impossível não ser afetado por isso. Me encanta é a arte. A arte foi banalizada como quase tudo nesse mundinho mais ou menos que vivemos. Artistas não gostam de outros artistas. Um cantor se acha mais artista do que um jogador ou do que outro esportista de classe, e tudo isso porque a própria sociedade faz essa avaliação, na minha opinião, equivocada. É porque artista gosta de exclusividade e são egoístas. Mas acredito que a arte esteja em qualquer um. São poucos os que a encontram e desenvolvem, mas todos são capazes, são artistas em potencial. Pois fazer arte é transformar o mundo ao seu redor com amor, manipular matérias, palavras ou bolas de futebol a fim de criar beleza. E a beleza é uma valor subjetivo.

  Vejam o gol de Valdir, o primeiro do Vasco. De costas para o gol, gira rápido e chuta certeiro fazendo a bola passar debaixo das pernas do zagueiro e no cantinho do gol. Milimétrico, preciso como uma cirurgia. Arrepiante. A repetição do lançe pela TV, em todos os ângulos, confirma a beleza plástica. Sim, o futebol quando é arte, não faz feio perante nenhuma outra arte, é lindo e emocionante de se ver. E olha que nem torço para nenhum desses times, eu torço pelo espetáculo.

  No jogo de domingo (4 de abril/2004), o Vasco dominou completamente o Fluminense que estava tão atordoado quanto ficou Roger com o bico que levou na cabeça, ainda no primeiro tempo. Um lance assustador e uma cena ainda mais triste ver o jogador deitado levantando a mão e, lentamente, apagando desmaiado. Mudei de canal, tamanho meu nervosismo em ver aquela cena repetida. Ainda bem, o jogador não sofreu nada mais sério, mas abandonou o campo, deixando seu Fluminense, um time desorganizado e apático.

  Meu recado é para tantos "artistas" nesse mundo, pessoas que, convencidas de que são donas da arte e da verdade, são incapazes de olhar o mundo ao redor e reconhecer que a arte verdadeira pode estar escondida nas mãos de um pedreiro, de uma pobre cozinheira, de um castelo de criança na areia da praia. Não é só para intelectuais ou freqüentadores de galeria que bem gostariam que a arte se tornasse mais uma exclusividade. Pobres almas de pedra sabão...

 

 


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