Um Visionário

 

Por Solano Lucena

Imagem: Reprodução

 


  O prefeito, todo orgulhoso, recebera o telefonema do presidente dos Estados Unidos: "Obrigado, senhor presidente, obrigado. Isso, isso, ófi córce!". Doutor Fernando Tomás Pinto da Costa havia recebido, no dia anterior, uma carta honrosa do presidente francês e da Alemanha. Esse era o grande dia da inauguração de sua maior obra, da maior obra realizada no mundo até hoje, uma ponte que ligaria Salvador à Angola. Uma idéia absurda nos projetos. Mas agora ninguém nunca mais ousaria desafiar esse homem, hoje Angola, amanhã o mundo! Houve um coquetel com alguns dos seres mais poderosos do mundo, muitos presidentes, muitos governadores e Antônio Carlos Guimarães, patrocinador daquele símbolo de globalização. Doutor Da Costa cortou a faixa amarela que separava o povão do turismo grátis.

  Grátis? Não, treze reais e oitenta e oito centavos. A ponte seria aberta às 14 horas e seria acabado o expediente às 15. Ah, e mais, a ponte não suportaria o peso de carros circulando, as pessoas teriam que ir a pé até a África ("bicicletas não serão permitidas"). Logo no primeiro minuto já haviam quinze famílias dispostas a procurar a vida na longínqua Luanda. Todas elas esperavam o horário de abertura ter fim, para que pudessem ir juntas, se ajudando. Em seus rostos se viam sorrisos esperançosos, a partir daquele momento viria uma guinada de 180 graus e tudo, finalmente, acabaria bem.

  Propagandas de incentivo ao mercado angolano era veiculada na televisão aberta. Depois do final de "Os Amores do Diabo" seria exibida uma novela que a história aconteceria na Angola, Camila Pitanga era a mais cotada para ser a personagem principal. No outro lado da ponte também havia, logicamente, passagem para vir ao Brasil, 276 famílias já haviam se inscrito.

  Pierre era filho de uma senegalesa com um comerciante turco. Tinha o sonho de conquistar um futuro melhor para os seus, deixou um beijo na boca de sua amada e a saudade nos olhos de filhos e amigos, a promessa de um retorno triunfal do Brasil enchia a barriga daqueles que seguiriam seus passos. Levava em uma mochila o material propício para o artesanato turco, uma herança da loja pelo pai abandonada que sua mãe sozinha teve que tocar adiante. Sua vida era essa, conquistar consumidores e amizades nos lugares por onde passava. Ele era baixo, não muito forte, negro e usava um anel dourado estranho, sua mulher havia lhe explicado que, para sua religião, aquilo significava compromisso. Já fazia seis meses que estava naquela caminhada, junto a ele, africanos de todos os cantos possíveis e um brasileiro que, após sete anos preso em um país desconhecido, poderia voltar para a casa. Muitos já se deram por vencidos e desistido logo no começo.

 

  As refeições eram feitas em barracas de baianas magras e pouco vestidas, que vendiam um acarajé um pouco caro, mas compensava pela pimenta, o consumo de bebidas era certo. Tudo havia sido planejado meticulosamente por Da Costa, para que pudessem ter o conforto merecido. Foi quando um dia, Pierre e seus companheiros de caminhada avistaram de longe homens vindo em suas direções. Sorridentes pareciam ser de paz, um angolano eufórico apontava para uma placa: "Brasil à 10 quilômetros". Eram dois povos sorridentes. Mas porque eles estavam sorrindo também? No outro lado da placa dizia: "Angola à 10 quilômetros".

  O que era isso? Como um passo de mágica a ponte baixou até o fundo do oceano por horas, afogando todos aqueles que tinham o sonho de abraçar o futuro e esquecer esse miserável passado, homens em um helicóptero vinham checar o sucesso da operação e verificar que não ali teria espectadores para repassar o que viram. A última coisa que Pierre ouviu foi o choro de seu filho que estava o esperando em casa. A expectativa de outros também vinha para esse mesmo fim.

 

  O presidente dos Estados Unidos havia dito que Da Costa era simplesmente genial, além de conseguir dar um fim naqueles que só enojam nossa vida social, ainda conseguiria obter lucros com essas "ameaças". - Hahaha. É, senhor presidente, há apenas duas coisas que unem todos os pobres, procissão para seu santo (pobre adora caminhar) e a vontade de não ser mais pobre.

 

 


 

Textos Anteriores:

* A Terra das Baboseiras

* O (s) Altar(es) Certo(s)


[Página Inicial