
-"Eu acho que estou ficando velho" - dizia o Jonas enquanto admirávamos
as mamães do Leblon levando seus filhos para passear pelo bairro. Ah, as
"madres" do Leblon, como são belas, dirigindo os carrinhos de bebê como que
desfilando numa passarela.
-"Estou realmente velho..." - ele insistia. " Não quero saber do disco do
Caetano, não sei a boa da noite carioca, não me interessa o que dizem os
formadores de opinião... puta merda, cara, o que é uma porra de um formador
de opinião?? O que está acontecendo, cara ?"
-"Não sei dizer... você não gosta do Caetano? "
-"Claro que não, quem gosta do Caetano? É a única moda que me agrada: não
gostar do Caetano... porque alguém acha que esse cara vale alguma coisa? Vai
dizer que você gosta dele ?"
-"Não conheço ele não... mas a música costuma ser um pouco chata, tem
algumas que são bacanas, sim..."
-" Ahh, você é um babaca em cima do muro...outro dia vi uma reportagem sobre
festas em motéis, uma nova moda. De acordo com a jornalista, essas festas
reuniam "todo o povo que dita a noite carioca". Hahahahahaha... eu mereço...
-"Haha, eu não estou sabendo que há uma ditadura da noite...deve haver algum
DJ por trás desse plano maligno !" - eu ria com aquela notícia.
-"Certamente...eu conheço um sujeito do meu prédio, um pseudo-moderninho
desses e ele me disse que largou tudo porque resolveu virar DJ. Ele dizia
que tocar discos era muito fácil e que o gosto musical dele faria o resto."
-"Hmm, sei...bem, cada um faz o que quer...pessoalmente gosto do pessoal que
sabe manipular aqueles troços de maneira criativa. Mas sei lá...
-"Cara, você é muito bonzinho, mediador...essa galera é podre mesmo, esses
ditadores e formadores de opinião, esse lixo todo, divulgados por
coleguinhas da imprensa moderninha, dos cadernos de cultura que babam ovo de
qualquer coisa, de qualquer gringo que aparece lá fora como salvação da
música ou de qualquer outra merda. Lembra daquele Marky ? Então...depois que
os gringos começaram a babar ovo do cara, que já deve até falar com sotaque,
todo mundo "descobriu" ele no Brasil. Isso é patético, essa subserviência é
ridículo."
-"Isso é acima de tudo muito triste, já que a gente vê muito talento por
aqui, pelo menos eu vejo. Nem todo mundo é moderninho como se exige, mas
mesmo assim são bons e não existe exposição porque a mídia é uma tristeza. E
isso nem é exclusividade brasileira. Não entendo porque somos tão
subservientes e apáticos. Talvez a arte deva retornar à sua casa, talvez
seja realmente impraticável fazer a vida de arte."
-" E você acha que o pessoal vai fazer só por fazer ? Ninguém quer fazer
arte por ela, querem parecer artistas. O que uma pessoa parece ser é o que
realmente importa, que o diga o mercado em crescimento de relações
públicas."
-"Por isso digo que o artista deve retornar ao seu lar e fazer seu trabalho
para satisfação pessoal. Mostra aos amigos, aos colegas e é isso aí. Afinal
o artista precisa expor o que faz, mas a quantidade de pessoas a quem se
mostra o trabalho não é tão relevante assim."
-"Isso tudo me enoja. Acho que o trabalho artístico sempre teve a ver com a
destruição do passado para alcançar uma nova forma. Mas nesse processo
passaram a supervalorizar um monte de babaquice considerada moderna quando
não passa de uma merda mesmo. O que importa mesmo é emocionar e isso nem é
considerado. É como a polêmica só pela polêmica, a crítica pela crítica.
Ações que não pressupõem um movimento mas apenas a existência da ação, sem
nenhum avanço.
-"Bonito isso, hem... parece até que você sabe do que está falando..." - eu
resolvi provocar o Jonas
-"Ah, vá à merda, meu filho...eu estou velho mesmo. Eu vejo aquelas vinhetas
da MTV e acho tudo uma merda e todo mundo acha tão foda... o problema só
pode ser meu." - o Jonas não parava com sua metralhadora.
-"Talvez...mas algumas são boas, cara. A outra parte é apenas um monte de
imagens manipuladas, sem sentido algum. Se você faz uma coisa
incompreensível, muitas pessoas acreditam que aquilo é algo bom porque não
entendem e como se acham espertos aquilo só pode ser alguma coisa
importante. E muitas vezes não é nada mesmo."
-"Afff...eu odeio artistas" - Jonas dava seu último suspiro de revolta
naquele dia. Estivera bastante carrancudo e inspirado para reclamar. Mas
como já disse, acho o Jonas uma boa companhia, suas palavras são radicais,
mas cheias de razão. Na verdade, acredito que tudo que ele espera e que não
recebe é amor, arte com amor e sinceridade de intenções ao invés de um
grande e colorido NADA de cores brilhosas.
O mundo é cheio de cores e sinais demais. A satisfação deve ser
instantânea, a atenção deve mudar de foco constantemente, tudo é arte e nada
é.
Esses eram assuntos muito profundos e pesados mas quando estamos
admirando as mamães do Leblon e suas pernas inesquecíveis a gente até
esquece que não sabe de porra nenhuma do que está falando.
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