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Como você banca sua rebeldia?

 



Por
Peter Strauss

Imagem: Maurice Velte


    

  João Marcos se diz um rock'n'roller. Ele não achou termo melhor. Seu nome ele diz ser J.M. (Jay-Em). Tem uma respeitável coleção de discos, dos clássicos ao melhor dos contemporâneos. Tem jaqueta de couro, um belo carro J.M., gasta muito dinheiro com esse estilo rockeiro. Não só com os discos, mas com  o visual, os shows, as bebedeiras. Tudo porque um "rebel" como ele tem que encher os córneos, tem que beber, falar alto, xingar o governo. Tem que experimentar todo tipo de drogas e se exceder em todas. Essa é a rebeldia de J.M.

 

  Diga se de passagem que ele não trabalha. Passou os últimos 8 anos na faculdade que papai está pagando até hoje, apesar das inúmeras repetências. Mas papai é um cara legal e J.M. só xinga ele por trás, afinal, é ele quem banca toda essa rebeldia. Seu pai financia toda uma revolta contra o sistema, e o pobre J.M sequer se dá conta de que ele e todo o rock SÃO o sistema. É claro que ele discordaria. O rock para ele denuncia o sistema, goza dele, ironiza. Claro, claro. Mas financiado por uma grande empresa, para ser mais irônico.

 

  É um cara sonhador. É a ilusão da rebeldia que vem empacotada para consumo imediato. Agora a subjetividade já é produzida para nós, inserida insistentemente pelos meios de comunicação. Ideologias para as massas, anarquismo enlatado e com data de validade. A liberdade é uma utopia. Para realmente tentar ser livre é preciso se desvencilhar de tal maneira de ideologias, filosofias, religiões e políticas que se corre o risco do isolamento moral e até físico de toda a sociedade. Pois é importante ter rebeldes como o J.M., que acreditam na própria rebeldia. Eles provam que essa é uma sociedade livre, onde podemos todos pensar o que quisermos, onde podemos escolher nossa própria opinião. Se todos acreditarem nisso, o sistema funciona, os vendedores de jaquetas de couro, gravadoras e ingressos de shows ficarão felizes.

 

  O nosso rebelde ficará feliz, afinal, será um revolucionário, um poeta do novo milênio trancado em seu condomínio cheio de seguranças. Um negócio bom para todo mundo. Mas é fato que é tudo um grande teatro. A vida sempre imitou a arte, que sempre imitou a vida (que clichê, eu sei, clichês também são necessários). Como a arte de qualidade não pode ser dada às massas porque queremos elas ignorantes (e elas não entenderiam, não é?), agora a vida imita o lixo. E é um programa de tragicomédia de quinta categoria. Percebe se isso quando aqueles programas de venda de produtos são mais engraçados do que programas de comédia em si. Não sei quanto a vocês, mas eu sempre me divirto muito com esses sujeitos vendendo facas Ginsu. Muito bom.

 

  Portanto, amigos, é isso aí. Comprem suas rebeliões no cartão, pelo site ou tele-vendas. Você leva inteiramente grátis paz na consciência e esse lindo conjunto de broches com dizeres anti-sistema. Mas ligue já, essa promoção é por tempo limitado. Só na sua "Rebel TV".  Já perguntava a banda Cake: “How do you afford your rock’n’roll lifestyle?”.



  Textos Anteriores:

* Palavras sempre erradas

* Pós-Infinito

* Gin Tônica, Dipirona e outras drogas

* Soberania

* Criticar a crítica é uma crítica?

* Elogio ao amor

* Diário de Viagem - 3ª. parte - Devaneios...

* Diário de viagem - 2ª. parte - Vivendo com os porteños...

* Diário de Viagem - 1ª. Parte - A Chegada...

* Território Minado

 

 


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