Alma Livre
Duas décadas fazendo a diferença na música brasileira

Do circuito de cover da noite paulistana ao posto de banda de reggae que mais cresce no Brasil, o sexteto virou referência sem trocar de formação nem de propósito.
Vou começar por um número que costuma dar calafrio em quem já tentou tocar em grupo: seis músicos, sendo dois deles tecladistas, quase vinte anos juntos e uma única troca na formação central em todo esse tempo. Num cenário em que muita banda não sobrevive ao próprio primeiro verão, a Alma Livre trata a longevidade de forma diferente, quase um contrato pactual.

Tudo começou em novembro de 2006, na zona norte de São Paulo. Antes disso, Alves (vocalista, guitarrista e compositor) e alguns companheiros ganhavam a vida na noite paulistana, tocando de apoio para quem aparecesse, do sertanejo ao brega, de trio elétrico baiano a cover de qualquer coisa que pagasse o cachê. Alves já tinha letras na gaveta e um plano pouco recomendável do ponto de vista financeiro: parar de tocar o repertório dos outros para bancar o próprio.
"Comecei tocando na noite, mas para poder encontrar, na verdade, meios de realizar esse outro projeto, que era o projeto da música própria, de trabalhar com a música autoral"
Não demorou muito e ele encontrou Chicão (tecladista e diretor musical), o percussionista Sabiá, o irmão Naldinho nos teclados, o baixista Gilvan Joaquim e o baterista Kleberson. Cinco anos depois, Gilvan saiu, entrou Paulo Vigilante, e a formação parou de mexer. Nos últimos anos chegaram metais e backing vocals, o que elevou o sexteto a algo perto de onze pessoas (a matemática de banda também é livre).

A pergunta óbvia é o que segura tanta gente junta por tanto tempo. Alves credita ao respeito mútuo e à ausência do esporte favorito das bandas, a disputa por quem aparece mais. Ajuda que ele e Naldinho sejam irmãos de sangue, com direito a Alves ter participado do parto do caçula (uma credencial que nenhum outro tecladista do país pode reivindicar sobre o próprio chefe).
"Eu acho que a principal coisa é o respeito e admiração mútua. Eu acho que todos nós temos isso. Temos esse respeito um pelo outro. Temos uma admiração um pelo outro. E a gente criou uma unidade. A gente vive de verdade como uma família. Nós não temos aquelas rusgas que geralmente a gente vê nas bandas por aí ou em qualquer tipo de trabalho que utilize grupo de pessoas"

Sobre o rótulo de "nova cara do reggae brasileiro", que aparece em todo material de imprensa do grupo, Alves faz questão de devolver a autoria ao departamento de marketing.
"nós nunca tivemos a intenção de ser, principalmente de substituir algo. De ser uma cara nova para substituir algo. Nós, na verdade, a Alma Livre sempre teve a intenção de somar, de chegar para somar e não de substituir ou de diminuir ninguém. A gente sempre teve essa consciência"
A Alma Livre não chegou para substituir cara nenhuma. O reggae é a linha principal, mas a coisa se abre para MPB, música nordestina, jazz e soul, tudo cantado em português, inglês e espanhol. Daí o nome, que promete uma música sem rótulo e cumpre a promessa com uma teimosia simpática.

A parte que sustenta o título de referência não mora no discurso, mora no currículo. Em 2006 o primeiro demo rendeu o troféu "Os Melhores do Reggae". Em 2010, um segundo demo abriu as portas de uma produtora portuguesa. Em 2013 veio o álbum homônimo, com faixas em três idiomas. A partir de 2016, já pela gravadora Atração (que hoje funciona mais como distribuidora, enquanto a banda mantém a mão no leme), a Alma Livre passou a colecionar releituras autorizadas de um jeito que faria muita banda maior suar frio: "Paciência", do Lenine, "Tempos Modernos", do Lulu Santos, "Árvore", do Edson Gomes, e um clássico da família Marley. Até agora, segundo Alves, nenhum "não" sonoro. Eu diria que é sorte, mas provavelmente também é repertório escolhido com cuidado.
"Sobre as autorizações que a gente conseguiu para fazer as releituras, do Lenine, da família Marley, do Edson Gomes, do Lulu Santos, a gente teve muita sorte, eu acredito, porque até agora não recebemos ainda nenhum “Não” nesses pedidos"

Tem ainda o lado que eles levam mais a sério do que a própria discografia. Alves repete que, para a Alma Livre, a música é ferramenta e passa longe de ser um mero produto de prateleira, o que soa a utopia até você olhar o projeto "Reggando Vidas", de 2018, com shows e oficina de percussão gratuitos pela periferia de São Paulo, ou o "Festival Conexão Reggae", itinerante desde 2015. Este último nasceu de um desastre. A primeira turnê pelo Uruguai terminou com o produtor sumindo e a banda largada em Montevidéu, sem dinheiro e sem os shows marcados na Argentina.
"Quando chegamos no Uruguai, o produtor que estava à frente dessa turnê simplesmente desapareceu, nos deixou à deriva no Uruguai. A gente sem dinheiro, sem saber o que exatamente fazer. A gente teve que cancelar os compromissos que tínhamos na Argentina porque não dava para ir até Argentina sem saber como que as coisas estavam por lá"

Na semana em que ficaram encalhados, fizeram programas de TV, mais apresentações do que o previsto e amizade com a banda Santo Remédio. Do prejuízo saiu um festival anual (recomendo o método a ninguém, mas o resultado é difícil de contestar).
"Foi aquela coisa dos males que vem para bem, né? Durante essa semana a gente conheceu muita gente. A gente fez programas de televisão, a gente fez mais shows no Uruguai do que estavam programados. Nós começamos com a ideia, nós, a Alma livre, e uma banda chamada de Santo Remédio que se tornaram grandes amigos da banda Alma Livre até hoje. E ali nasceu a ideia de criar um festival que é o Festival Conexão Reggae, que é um festival itinerante que a gente faz todo ano"

O anedotário de estrada é generoso. Tem o show em que o baterista chegou bêbado, a combi quebrou no caminho e, já perto do palco, o baixista recebeu a notícia de que o pai tinha entrado em coma, tudo na mesma noite, como se o universo estivesse testando cláusulas de rescisão. Tem a chegada ao Chile, em 2019, em plena convulsão política, com a banda barrada pela polícia até um dos policiais reconhecer o som. E tem o festival de interior em que um produtor os vendeu como banda de forró, sem avisar ninguém, e eles subiram ao palco em pleno mês de junho para abrir com Bob Marley diante de uma plateia que esperava sanfona. Tocaram o próprio repertório assim mesmo. O prefeito subiu ao fim e prometeu que no dia seguinte teria "mais", desde que fosse outra banda.

O presente é o argumento mais seco a favor deles. O Spotify apontou a Alma Livre como a banda de reggae que mais cresce no Brasil, e desde 2025 o grupo adotou uma rotina de singles a cada dois meses. O mais recente, "Só Você e Eu", saiu em fevereiro de 2026. A ideia é seguir nesse ritmo até 2027, quando devem reunir tudo num álbum de estrada que já tem vinte anos de matéria-prima à espera.

Perguntei, daquele jeito enviesado mesmo, se havia arrependimentos, alguma decisão que apagariam. Alves não achou nenhuma, o que num artista mais vaidoso seria pose, mas nele soa coerente com quem transformou até um abandono no Uruguai em festival.
"Eu acho que todas as decisões que a gente tomou, não que tenham sido perfeitas, não que tudo tenha acontecido sem nenhum problema e tal, mas todas as decisões que nós tomamos nos levaram a algum lugar, a algum lugar necessário"

A Alma Livre entra nesta edição de aniversário da Dissonância pelo motivo mais chato de todos para quem gosta de ironia: porque fez por merecer, com paciência (a do Lenine, inclusive), e sem pedir muito em troca além de que você compre a música em vez de baixar de graça. Nesse ponto, Naldinho tem contas exatas: seis meses de streaming dão, com sorte, para uma pizza. Vão ali e paguem a pizza dos rapazes.
Assista ao clipe de Redemption Songa na versão da Alma Livre
REDEMPTION SONG
(Bob Marley)
Old pirates, yes, they rob I
Sold I to the merchant ships
Minutes after they took I
From the bottomless pit
But my hand was made strong
By the hand of the almighty
We forward in this generation
Triumphantly
Won't you help to sing
These songs of freedom
Cause all I ever have
Redemption song
Redemption song
Emancipate yourselves from mental slavery
None but ourselves can free our minds
Have no fear for atomic energy
Cause none of them can stop the time
How long shall they kill our prophets
While we stand outside and look
Some say it's just a part of it
We've got to fulfill the book
Won't you help to sing
These songs of freedom
Cause all I ever have
Redemption song
Redemption song
Redemption song





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